Na Venezuela, o apagão intermitente não permite uma vida normal, a pouca comida que ainda existe nos supermercados tem sido distribuída porque está a estragar-se. Nas casas, não há água nas torneiras, o racionamento impede aquele minuto extra no chuveiro e a confusão está instalada. Idosos sem pensão e sem dinheiro, pessoas na rua e um sistema político que uma mente racional não consegue entender. Do lado de cá do Atlântico, o caos natural instalou o caos em Moçambique. Nós por cá abraçamos a causa comprando revistas, assistindo a concertos ou enviando roupas que não queremos, as mesmas que compramos a um preço ridiculamente baixo, porque são produzidas em condições que preferimos ignorar e que os documentários na TV não se cansam de mostrar.

O preço da gasolina continua a aumentar (já perdemos a conta ao número de vezes desde Janeiro…), ouvimos dizer que os automóveis a gasóleo vão desvalorizar, consta que brevemente vão proibir a circulação destes veículos em algumas cidades europeias e nós ficamos sem saber o que fazer, entre a opção de não comprar ou abraçar a causa e mudar para um veículo eléctrico. Há quem diga que a produção destas baterias é um atentado ambiental e que, estes veículos, comparados a um motor de última geração a gasolina, não são assim tão amigos do ambiente. E agora? Andamos a pé?

O paradigma nas cidades está rapidamente mudar, pena é que a maior parte dos portugueses não possa morar no centro da cidade porque o valor dos imóveis e do arrendamento continua a aumentar. Para quem ainda consegue, ter carro pode deixar de ser necessário, com passes de transportes colectivos mais baratos, automóveis e motorizadas eléctricas que se alugam à hora, bicicletas que se pagam ao minuto ou trotinetes que nos levam daqui, ali em menos de nada. Há também cada vez mais TVDE a circular, o que quer dizer que, se quisermos muito, podemos abdicar do veículo particular. Para os resistentes, a moda é alugar, num sistema mensal que inclui tudo (menos o combustível) e transforma o meu Mercedes (que é sempre maior e melhor que o teu) numa espécie de utilitário emprestado que nunca chega a ser nosso e que, no final do é entregue para trazer um novo.

A economia mudou e, com ela, os modos de vida, mesmo para quem insiste no velho paradigma. As tendências são simples de interpretar e representam um regresso ao passado, adaptando essas práticas que já conhecemos às necessidades e condições do presente. O século XX foi marcado por acontecimentos que determinaram, de forma indelével, o nosso presente. Plastificámos quase tudo, incluindo a comida e, hoje, percebemos que esse excesso de plástico nos está a matar, bem como ao ecossistema que nos rodeia e que suporta a nossa vida. Continuar a insistir numa lógica de fast - food, fashion, life - é, hoje, ir na maré que nos arrasta cada vez mais para o fundo, sem grande hipótese de conseguirmos voltar à superfície.

Em Portugal existem vários exemplos de mulheres que abraçaram a causa, arregaçaram as mangas e estão a fazer alguma coisa para tornar a tendência cada vez mais popular, contribuindo para uma vida mais simples, quase minimalista, com menos lixo e maior bem estar. Limito-me aos que conheço, sabendo que os exemplos se multiplicam, com mercearias a granel e iniciativas que levam o conhecimento à comunidade, restaurantes que se assumem como uma missão de vida, para levar a alimentação saudável, as terapias alternativas e o conhecimento a todos, quintas de produção biológica, lojas online de produtos de beleza e cosmética natural ou roupa de produção local e sustentável, arte feita com o lixo que deixamos nas praias e oceanos. Em comum, estas mulheres decidiram arregaçar as mangas para criar pequenas comunidades que se traduzem em grandes movimentos que são um grito de mudança, uma forma de usar a tecnologia e conhecimento que hoje temos para, na verdade, homenagear as melhores tradições.

A Venezuela e Moçambique são os mais recentes exemplos do tumulto que nos assalta porque, em breve, quer o problema da economia e da sociedade, quer o problema das intempéries exageradamente exageradas vão estar aqui, junto à nós, impedindo os tais dois minutos a mais no duche. Já pensou nisso?

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