Cenário: casal está em casa, à noite, e decide ver um filme antes de dormir. Começam a vasculhar pela videoteca da Netflix e vão escolhendo aquele que mais lhes agrada. Ela quer uma comédia romântica, ele não. Ela insiste e ele resiste, a escolha é tanta que acabam por perder mais de uma hora a decidir qual o filme que vão ver. O tempo de escolha é maior do que a duração do filme que acabam por escolher. Uma comédia romântica, ganhou. Começam a ver e ela adormece antes do segundo acto e ele promete a si mesmo que nunca mais a deixa escolher o filme já que adormece sempre.

Isto ilustra um dos grandes problemas da nossa sociedade de hoje: há demasiadas opções para escolhermos e isso prejudica-nos em vários campos da nossa vida. Acontece o mesmo nos restaurantes: quando chegamos e a ementa tem várias páginas com imensas possibilidades, acabamos por demorar muito tempo a escolher e, no fim, ficamos sempre com uma sensação de insatisfação, pois temos a ilusão de que no meio de tanta escolha, poderíamos ter optado por algo melhor. Acontece isso na panóplia de escolhas da Netflix: o tempo perdido é superior ao tempo de visionamento e, muitas vezes, acabamos por nem ver filme nenhum, pois percebemos que desperdiçamos tanto tempo a escolher que já é hora de dormir.

Recentemente, vários estudos afirmam que as novas gerações são as que fazem menos sexo e acho que este fenómeno das escolhas é uma das causas. Uma pessoa abre o Tinder e a ementa é demasiado grande e tudo parece apetitoso devido aos filtros. Com os vários matches obtidos, as pessoas acabam por não investir e decidir-se por um e perdem demasiado tempo a ver a sinopse e a tentar perceber se é aquilo realmente que querem comer. No fim, com tanto tempo dedicado, acabam por comer menos e, quando comem, ficam sempre com a sensação de que a opção que foi preterida talvez fosse mais satisfatória.

Gostamos da ilusão da escolha, mas queremos que decidam por nós. Queremos ser servidos e acho que o futuro passará por aí. Um assistente pessoal com inteligência artificial que sabe exactamente aquilo que queres ver, comer ou comer com f. De todas as escolhas possíveis, ele (ou ela, já que a inteligência artificial terá género neutro) fará uma pré-selecção e servir-te-á o que acha que se adequa melhor às tuas necessidades e gostos. Será um mundo melhor, embora possamos deixar de experimentar coisas novas já que só seremos servidos com aquilo que se assemelha ao que já gostámos anteriormente. No entanto, mesmo com esse risco, evitará situações como uma que aconteceu há uns tempos quando fui jantar fora com a minha namorada, a um restaurante italiano:

- Já vim aqui e o risotto de cogumelos era mau. – diz-me ela enquanto escolhe com a ementa nas mãos.
- Hum, pois, também não ia pedir isso. Acho que vou para uma pizza. – respondo.
Passado um pouco, chega o empregado e pergunta “Já escolheram?”
- Sim, para mim é uma pizza da casa – digo.
- E a menina? – pergunta o empregado.
- Pode ser um risotto de cogumelos. – responde ela.

Sugestões e dicas de vida completamente imparciais:

Para ver: Mirage, na Netflix

Para ouvir: Allen Halloween, Híbrido

Para rir: Quero lá saber, de Diogo Batáguas, dia 31 de Maio em Sintra

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