Vou admitir aqui um preconceito meu. Sempre que vejo alguém a escrever “todxs” ou “tod@s”, sinto uma súbita vontade de lhe dar com uma cadeira na moleirinha. Para quem não sabe, escrever “todxs” e “tod@s” é uma moda relativamente recente e que serve para tornar o mundo um lugar melhor e mais inclusivo para todos os géneros, sejam eles quantos forem. Tudo começou com “todos e todas” e “portugueses e portuguesas”, linguagem adoptada e disseminada principalmente por políticos mais à esquerda com o intuito da tal inclusão e luta contra a discriminação. Se Martin Luther King soubesse que era assim tão simples combater a discriminação tinha tido muito menos trabalho e se calhar não tinha acabado assassinado.

Não tenho nada contra quem diz “todos e todas”, acho desnecessário, mas cada um com a sua mania, agora escrever “todxs” e “tod@s”? Isto é ser-se mais preguiçoso do que inclusivo. Quando escrevem à mão aposto que escrevem sempre “todxs” porque fazer a arroba é como o e comercial: dá trabalho e uma pessoa nunca sabe bem por onde é que começa. Igual para os hipsters que ainda usam máquina de escrever que, caso não saibam, não possuem tecla de arroba nem do Windows.

Há, ainda, quem use “todes” e nem estou a falar do Jorge Jesus: “Todes sabemes que a gente possamos fazermos melhore”. Todas estas variações provam que quem as usa está mais interessado em sinalizar a sua virtude do que em criar uma linguagem inclusiva, caso contrário havia uma forma e pronto. Isto foi alguém que, vendo que estavam a usar o “todxs”, decidiu escrever “tod@s” ou “todes” só para saltar à vista no feed do Facebook e ter mais atenção e sobressair como virtuoso e justiceiro social.

Eu sei que o problema é meu, mas dá-me urticária sempre que vejo esta forma de escrever. Até pode ser numa causa que me seja próxima como vi há pouco tempo: “Apelo a tod@s que partilhem a foto do meu cão que está perdido”. Eu até partilhava, mas depois de ver isso assim estimo que o teu cão nunca volte a casa e que encontre don@s melhores. Aliás, assumires que é um cão já me parece abuso, porque ninguém lhe perguntou se ele não se identifica com uma cadela, mas pronto, a diferença entre sexo e género ainda não chegou ao mundo animal. São sempre os últimos a saber das coisas, a não ser quando estamos a falar de vacinas e maquilhagem.

Parafraseando estudos que li na Internet, há especialistas na matéria que sugerem que usar o masculino como referência a um grupo de pessoas, homens e mulheres, não é uma forma de preconceito e que a origem dessa forma estará no latim, que originou a língua portuguesa. Por isso, muitos linguistas defendem que o género masculino é na verdade um género neutro e que o único género que recebe marcação na língua portuguesa é o feminino. Ou seja, o que é masculino é de todos, o que é feminino é só delas. É um bocado como os casamentos.

Não me parece que seja por aqui que se cria um mundo mais inclusivo e igualitário, apesar de achar que também não prejudica (a não ser a minha urticária), por isso se quiserem tentar não sou eu que vos vou impedir, mas têm de compreender que é bastante risível e ridicularizável, especialmente na forma escrita. É como a antiga polémica de mudar o Cartão do Cidadão para Cartão da Cidadania. É-me indiferente, mas acho que se é para ser, há que pensar em grande e uniformizar e tornar tudo género neutro. Exemplo:

Fui à "Loja dos Seres Humanos Que Convivem em Sociedade", antiga "Loja do Cidadão", para perguntar como posso tirar o novo "Cartão da Cidadania e da Pessoa Humana". Disseram-me que poderia ser num balcão ou na Internet no novo "Portal Da Cidadania Unissexo e LGBTQIAPKUWA2cJ". Parece um nome nórdico cheio de consoantes, mas não. Perguntei, também, onde poderia obter informações para criar uma empresa e desde logo fui encaminhado para o "Balcão dos Seres Adeptos do Empreendedorismo", antigo "Balcão do Empreendedor". Agradeci. Ao chegar a casa, deparei-me com um incêndio no meu prédio e, desde logo, tentei ligar para os "Bombeiros", mas disseram-me que a linha tinha sido desactivada e que agora teria de ligar para o "Departamento de Pessoas de Ambos os Dois Sexos e também Neutros que Apagam Fogos". Foi o que fiz. Vieram rápido e apagaram o fogo. Havia um ser humano ferido ao qual não pode ser prestada assistência porque chamaram os "Paramédicos" e ninguém atendeu. Os próprios bombeiros, aliás, "Pessoas De Ambos os Dois Sexos e também Neutros que Apagam Fogos", não sabiam que agora teriam de chamar os "Seres Humanos ou com outra Identificação de Espécie com Especialização em Paramedicina". Por sorte, ia a passar um senhor - quer dizer, pareceu-me, mas não quero estar a assumir o género de ninguém - que já fez parte dos "Licenciados e Licenciadas em Medicina Sem Fronteiras" e conseguiu ajudar. A vítima disse que ia processar o Estado e ligou logo para um escritório de "Entidades que Exercem Advocacia". O ser que atendeu disse que seria melhor contactar directamente o "Tribunal dos Direitos do Homem". Do Homem?! Buh! Sexismo.

Para ver: Dark

Para ir: Rouxinol Faduncho Drive-In

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