À direita do CDS só a parede. Era assim, há alguns anos, que se definia o partido. Só que os tempos mudaram, e hoje, à direita do CDS, já não é só parede: há o Chega e também o Iniciativa Liberal. E a parede com que o CDS devia preocupar-se, por isso, é a que está mesmo à sua frente e contra a qual corria (vamos ver se já não corre) o risco de estatelar-se.

O 28.º Congresso do CDS fez-me lembrar uma cena do filme "Mulheres do Sul" ("Fried Green Tomatoes"), uma adaptação do livro da humorista Fannie Flagg, "Fried Green Tomatoes at the Whistle Stop Cafe".

Descrevo: uma senhora de meia-idade procura um lugar de estacionamento num parque lotado, até que, finalmente, vê alguém sair. Espera pacientemente, de pisca ligado, mas mal o automóvel abandona o local um moderno descapotável com duas miúdas dentro passa-lhe à frente e ocupa o lugar vago. Quando a senhora lhes chama a atenção, elas respondem: "Lamentamos, somos mais novas, somos mais rápidas" (depois, com a fúria, a mulher espatifa-lhes o carro gritando: "Desculpem, sou mais velha, tenho um seguro automóvel maior" - mas isso, a ver vamos).

Francisco Rodrigues dos Santos, acabado de chegar, não tinha nada a perder - até porque, aparentemente, já tudo estava perdido. Mobilizou a Juventude Popular, primeiro, e de um salto conseguiu o apoio de 671 (46,4%) congressistas, de um total de 1449.

Derrotar João Almeida - que tentou, tarde de mais, descolar-se do rótulo de candidato da continuidade (quem é que quer continuar a perder?) não foi difícil. Afinal, Assunção Cristas e companhia eram a cara não só de uma estratégia falha, mas também da austeridade do tempo de Passos Coelho.

'Chicão' foi rápido. Aproveitou o autismo da cúpula, indiferente às bases, e negociou apoios, conquistando gente que estava há quatro anos na prateleira. No final, fez o discurso da união - o último que ouvi mais ou menos nos mesmos termos foi de Rui Rio e redundou em perda para o PSD e para o Aliança - mas o que ficou parece mais próximo de uma guerra civil do que de um período de tréguas.

Da estrutura antiga - ou do portismo, como agora se diz - restam dois ou três membros no conselho nacional, cinco deputados à Assembleia da República (Cecília Meireles, Ana Rita Bessa, João Gonçalves Pereira, Telmo Correia e João Pinho de Almeida) e um deputado europeu (Nuno Melo).

Não será preciso lembrar que actual líder da bancada parlamentar do CDS, Cecília Meireles - que a meu ver tem feito um trabalho notável - foi a única candidata do partido eleita pelo Porto, de uma lista em que o número dois era Francisco Rodrigues dos Santos. Se ela ceder, será ele, o deputado sombra, como se auto intitulou, a tomar-lhe o lugar, mesmo depois de todas as promessas.

Francisco Rodrigues dos Santos quer voltar aos dois dígitos de Paulo Portas com ideias antigas e pessoas novas. A geração agora no poder é muito mais conservadora, nomeadamente no que toca à moral e aos "bons" costumes. Resta saber se isto é mesmo "sexy", como afirmou o novo líder. A verdade é que a loja do chinês, como lhe chamou Ribeiro e Castro, onde há de tudo para todos os gostos, não resultou.

Veremos se resulta a estratégia de FSR. É que no dia em que começou o Congresso do CDS em Aveiro, André Ventura fazia uma operação de charme junto da elite social do Porto que sempre votou na direita. E já a partir da próxima semana o Chega terá uma sede na cidade (a distrital será liderada pelo presidente da Associação Pediátrica Oncológica do Hospital do Hospital São João, Jorge Pires).

Francisco Rodrigues dos Santos terá agora dois anos para mostrar o que vale - e dois anos importantes, com umas eleições presidenciais, às quais poderá lançar Manuel Monteiro, e eleições autárquicas (aceitará Cristas lutar por Lisboa?) -, já que antes das eleições legislativas haverá novo congresso. Vamos ver até onde o instinto de sobrevivência leva o CDS.

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