Homens de todo o mundo, uni-vos em volta desta mesa metafórica. Vamos falar um bocadinho de nós. Existem no mundo, sensivelmente, tantos homens como mulheres, uma proporção que facilita a matemática desta conversa. Apesar desta paridade, em Portugal, 93% da população prisional é masculina e 83% dos condenados são homens. Em 82% dos casos de violência doméstica, o agressor é um homem, assim como é um homem a ser condenado por 88% dos homicídios intencionais, ou por 99% das agressões sexuais.

Sei bem que estamos já convencidos da normalidade biológica de nos sabermos responsáveis por mais de 80% da violência e do crime, e pela quase totalidade das agressões sexuais. Mas será possível que isto seja uma forma rápida e indolor de evitar uma conversa desconfortável?

Vivemos num país onde muita gente quer discutir o problema de 3,8% dos beneficiários de RSI serem ciganos. Contudo, as causas da propensão desproporcionada dos homens para a violência nunca são motivo de reflexão. Não valerá a pena falar sobre isto?

Não sou especialista em biologia ou estudos de género – ou no que quer que seja, para boa medida. Vão notar isso quando eu citar Da Weasel e Porta dos Fundos em vez de Michael Kaufman ou Jackson Katz. Estamos só a conversar, e no final cada um vai à sua vida.

Ainda assim, pergunto-me se algumas das conceções mais populares sobre o que é “ser um homem de verdade” terão alguma coisa a ver com esta apetência para a violência. Um “homem de verdade”, se recorrermos aos clichês mais típicos, deve:

  • Ser um líder, chefe de família, sustento da casa;
  • Ser física e psicologicamente forte em todos os momentos;
  • Não ter medo, não mostrar dor, não fugir do confronto;
  • Não chorar, não expor sentimentos;
  • Não ser motivo de chacota, nem ser rejeitado, sem reagir;
  • Aguentar bem o álcool, beber tanto como os outros;
  • Não dizer que não a um desafio, não se deter por causa dos riscos ou das consequências;
  • Tomar decisões com firmeza, ser responsável por resolver os problemas;
  • Ser confiante, falar alto, interromper, estabelecer domínio sobre os outros.

Eu sou homem, e fui criado nesse sentido desde que nasci. Tenho em mim impressas tantas destas noções, que mesmo quando as nego com a boca, logo o corpo me impele a vincá-las de outra forma, para que não restem dúvidas de que sou, efetivamente, um homem, ainda que com as leituras em dia.

Sei bem – sabemos todos, não é verdade? – a pressão que senti de outros meninos-homens como eu, para ser temerário, não fugir do confronto, beber mais uma ou calar uma emoção. Nunca dizer que não, nunca revelar um medo, nunca soltar uma queixa. O pior que nos podem chamar é “menina”, súmula da falta dos predicados que devem compor o “homem”.

Naturalmente, esta ideia do homem como gorilão da bola azul torna mais difícil a decisão que detém o punho que bate, a boca que insulta, a mão que esbulha, as pernas que fogem, a consciência que aplaca. Ser um “homem de verdade” implica ir até ao fim. Concretizamos a nossa masculinidade quando cruzamos uma linha vermelha. Ficar aquém dela, é ficarmos aquém da nossa identidade.

Não ajuda, claro, que acreditemos que a emoção, o choro, a vulnerabilidade, são coisas impróprias, que efeminizam o homem, nos desconfortam e exibem perante o mundo uma verdade que é partilhada, mas que escondemos por detrás da cortina: somos gente com sentimentos de gente.

Suprimir emoções não pode ser saudável e é apenas natural que elas emirjam em fúria. Nós, homens, somos “gigantes com pés de barro, bombas relógio prestes a estoirar”, como dizia o Carlão na música GTA, nome de um jogo que é um hino à violência masculina – e que eu joguei deliciado, como tantos rapazes, durante a maior parte da minha adolescência.

Caros companheiros, não sei bem como falar disto sem perder três quartos da audiência (não temos sido grande coisa a admitir problemas estruturais de género…), mas temos aqui um problema. As mulheres sentem-no na pele, muitas vezes, à frente de todos os outros. Por serem elas tantas vezes as vítimas, chamámos a isto “violência contra as mulheres”, o que, juntamente com um discurso feminista de empoderamento de mulheres e meninas, pode ter o efeito pernicioso de nos convencer de que este é um problema sobretudo delas. E que o papel do “homem bom” é o de estar solidário, apoiar, dizer umas tretas em datas comemorativas e partilhar uns escritos de ativistas das redes sociais.

Mas não é assim. Este problema também é nosso, é sobretudo nosso. São os homens que têm um problema com violência, que se concretiza tantas vezes com mulheres, mas que afeta toda a gente, de todas as idades.
Isto não é uma opinião: é a conclusão lógica dos dados empíricos recolhidos ao longo de anos. Se num universo que se divide igualmente entre homens e mulheres, os homens cometem a esmagadora maioria da violência, algo de profundamente errado se está a passar.

O nosso papel não pode bastar-se com a qualidade de apoiante da vítima, de defensores do feminismo e de críticos da violência. Isso é fácil, é pouco e contribui para branquear a reflexão, as mudanças e as soluções que não estamos a ter nem a encontrar.

“Ser agressor” significa, a maior parte das vezes, “ser homem”. Mas “ser homem” está longe de significar “ser agressor”. A maioria dos homens não cometem crimes de violência, apesar de crescermos quase todos sujeitos às mesmas regras de macho que nos aproximam desse desenlace. Podemos não cometer esses crimes, mas conhecemo-los, sabemos onde nascem, porque nascem e às vezes quando nascem. Somos cúmplices de uma cultura que nos afeta a todos, e que transforma tantos de nós em agressores de mulheres, de crianças, de idosos, e mesmo de outros homens.

Porque há uma última grande característica do “homem de verdade”: ele não estraga o bom ambiente. O homem de verdade é um porreiro, ri-se das anedotas todas, dá palmadas nas costas, incentiva a brincadeira e nunca, em momento algum, deve contribuir para o fim da galhofa. Por isso rimos juntos do que não tem piada, calamo-nos do que nos desconforta, omitimos críticas que sentimos ferver e aceitamos que ser homem é também ser cúmplice das razões que empurram tantos de nós para a violência. Isto não é bros before hoes, é bros before us. Sacrificamos a nossa consciência e a nossa individualidade pelo bem maior que é encaixar na ideia da maioria (homens e mulheres) do que deve ser um homem.

Esse sacrifício não vale a pena. Não basta termos as “opiniões certas” sobre este assunto: é preciso estarmos prontos para apontar o dedo e receber os olhares esbugalhados dos outros homens.

Está na hora de assumirmos que o problema é nosso e acabar com a galhofa, ainda que para isso tenhamos de abdicar daquilo que passámos a vida inteira a tentar ser: “homens de verdade”. Eu prefiro tentar ser decente. Preferir a decência à admiração dos outros não é tão fácil como escrever essas palavras ao computador. Já falhei tantas vezes, e continuarei falhar. Mas é um processo de que não nos podemos demitir.

Temos de criticar o amigo que partilhou o último incidente de revenge porn no grupo do WhatsApp. Temos de alertar o irmão que tem ciúmes excessivos da namorada. Temos de dizer ao pai para não interromper a mãe a toda a hora. Temos de dizer ao colega que não tem de provar nada a ninguém. Ou que é ok ser rejeitado, falhar, cair no ridículo, porque acontece a todos, em algum momento. Temos de abrir os braços às confissões dos outros, e dar o exemplo confessando-nos também.

Temos de deixar de querer ser homens, e passar a querer ser só gente, humana, vulnerável e eternamente condenada ao medo, ao pasmo e à dúvida.

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