Achamos sempre que sabemos mais do que a geração que nos precede porque a história tem mostrado que, do ponto de vista da tecnologia e modos de vida, há muitas coisas que os filhos ensinam aos pais. E quando os pais estão de tal forma embrenhados no seu pequeno mundo, nesse assoberbado dia-a-dia que para além de pagar contas não vislumbra muito mais em seu redor, acabando o dia quase sempre no sofá a ver televisão e a deslocar o dedo no mural das redes sociais online, em casas mais ou menos modernas com uma televisão em cada divisão e um smartphone em cada mão? Nada. Uma mão cheia de nada, com famílias aparentemente normais e muito disfuncionais que não sabem o que se passa no quarto ao lado.

O fosso entre gerações sempre existiu mas, agora, eles conseguem substituir os pais pelo Google, que lhes dá as respostas que esperam encontrar, sem crítica ou julgamento e já não se reúnem em espaços que possamos - ou tentar - controlar, porque a reunião é em rede, na rede e, principalmente, sem rede. Apesar das trágicas consequências da utilização intensiva - até excessiva - dos media sociais, dos aparelhos electrónicos e plataformas digitais, há nesta conexão em rede algo que pode mudar o mundo: a capacidade de mobilização em torno de uma ideia comum, da partilha de informação e da criação de heróis que representam os ideais modernos. Greta Thunberg é a nova heroína de uma geração que se define na própria inconstância e indefinição das redes que a suportam.

Já era adulta quando começámos a reciclar e foi também a minha geração que viu crescer a preocupação com a separação do lixo e a consciência ambiental. Foi há mais de vinte anos e já na altura se conheciam as consequências do nosso impacto no ambiente. Em vinte anos a reciclagem ajudou mas pouco ou nada mudou. Hoje a preocupação é não produzir lixo e desenvolver a economia circular, para eliminar a ideia enraizada de substituição dos produtos em fim de vida. Temos vivido décadas de abundância numa promoção de uma sociedade de consumo e uma espiral na qual, efectivamente, precisamos de dinheiro para viver. Não cultivamos, pelo que temos de comprar comida; não temos talentos artesanais, não sabemos tear ou curtir, pelo que precisamos comprar roupa para vestir e sapatos para calçar; não temos tempo, pelo que somos conduzidos a uma opção mais fácil a qual, obviamente, custa dinheiro. Perdemos a noção do que é reaproveitar ou reutilizar, achamos que é foleiro remendar e a tecnologia torna-se tão rapidamente obsoleta que a palavra de ordem é substituir. À medida que acumulamos, vão surgindo necessidades que antes não tínhamos e que a própria sociedade nos diz que devemos satisfazer, razão pela qual acabamos dependentes de um contexto que não controlamos e que cada vez mais se afigura como uma forma lenta e gradual de acabar com cada um de nós.

Na Suécia, Greta Thunberg plantou-se em frente ao Parlamento para se fazer ouvir sobre as alterações climáticas. A sua voz tem chegado a todos os cantos do planeta, mobilizando outros jovens e a greve de sexta-feira foi o corolário do grito de Ipiranga de uma geração habituada a ter tudo e preocupar-se com nada. Têm todos os defeitos do mundo, dizem, e têm o mundo na palma das mãos. São consequentes quando gritam pela urgência de mudarmos a forma como vivemos e inconsequentes quando comem fast food e deitam a embalagem para o chão. São informados porque estão em rede e instrumentalizados porque também fazem parte dessa mesma rede. Uma coisa é certa, o mundo em que vivemos e a forma como vivemos, mais cedo ou mais tarde, vai acabar por questões de matemática simples: a pressão que o crescimento demográfico coloca sobre os recursos naturais não nos permite manter o status quo para sempre. A questão não é nova mas assume carácter de urgência e são os miúdos que estão a ver isso por uma razão tão óbvia que por vezes nos escapa: assumimos a reciclagem como princípio fundamental para lidar com o lixo e achámos que seria suficiente. Não é, não sabemos o que fazer - ou como fazer, temos receio do que está para vir e optamos por empurrar com a barriga na secreta esperança de que que o problema desapareça. Só que não vai desaparecer.

Em Lisboa, por exemplo, basta observarmos as auto-estradas sobrelotadas com veículos de ocupação única de manhã e à tarde, as filas de trânsito a caminho das praias do sul quando está sol ou o caos instalado na cidade quando há um acidente na ponte 25 de Abril (ou mesmo na Vasco da Gama) para percebermos que algo não está bem: no nosso estilo de vida egoísta e preguiçoso, na pressão demográfica na capital, área metropolitana e regiões adjacentes e na forma como a neblina se adensa quase todos os dias. Chama-se poluição atmosférica e resulta desta concentração de factores e seu impacto ambiental. Lisboa tem 2,8 milhões de habitantes (área Metropolitana), dos quais 505 mil na cidade. A cidade de Los Angeles tem quase o dobro e em São Paulo vive 20% da população brasileira, correspondente a mais de 12 milhões de pessoas. Imaginem, agora, a auto-estrada.

A pressão demográfica no mundo é real, com pressão nos recursos naturais e seu potencial esgotamento, com as consequências que daí podem advir: fluxos migratórios inesperados, conflitos e refugiados à procura de um local para viver. Em casa onde não há pão…

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