A vitória esmagadora de Bolsonaro nesta primeira volta das eleições brasileiras (e não nos enganemos: é esmagadora em todos os aspectos, tanto que traça o desfecho da segunda volta) pouco surpreendeu. Era, aliás, expectável – e os sintomas desta calamidade fizeram-se ouvir nem tanto no apoio ao candidato de extrema direita, mas sobretudo na fortíssima campanha contra ele. A chave está precisamente na “fortíssima campanha”, claramente mais empenhada no derrube dum fascista do que na valorização de qualquer dos seus adversários. Aqui se resume o panorama dos candidatos nestas eleições: havia o importante fascista e os outros sem importância.

O movimento #EleNão acusa-se logo de rumar ao insucesso. A frente popular mais empenhada em derrotar Bolsonaro é uma frente centrada em Bolsonaro. As alternativas são tão fracas, tão suspeitas, tão inexistentes, que parece que o boletim de voto ficou reduzido a um “sim” ou “não” ao candidato único.

Dir-se-ia que depois de Trump nada disto constitui uma surpresa, mas há que distinguir claramente os casos. Logo à partida, a vitória trumpiana surpreendeu tendo em conta o que vinham a ser as sondagens - o mesmo não pode dizer-se de Bolsonaro. Depois, apesar de tudo, Trump digladiava-se com uma poderosa candidata democrata. Ciro e Haddad têm menos peso e personalidade políticos que uma pestana de Hillary (e não é um fã da Mrs. Clinton quem vos escreve).

Também há que diferenciar com veemência o que é um Trump do que é um Bolsonaro. Há autocracias, sociopatias, burrices, egos e vilanias básicas que os agregam, mas são figuras muito particulares, e a acção governativa de ambos distará em larga escala. Se tendermos a chamar “fascista” a qualquer burgesso, estamos a contribuir para que se atenue tão perigosa ideologia; há muitos nomes feios, e justos, para arremessar contra Trump - fascista não deve entrar de caras nessa lista. Já Bolsonaro é dos bois que se chamam pelo nome, e ao Il Duce canarinho não escassearão nomenclaturas fascistóides.

A mania de meter tudo no mesmo saco, e de lamentar esta nova ordem mundial populista extremada à direita, é um exercício perigosíssimo – justapor os vilões, achá-los iguais, pensá-los de forma unidimensional, é ignorar a perspicácia e a especificidade com que tais ameaças vão continuar a surgir. Além disso, ao lamentarmos as radicalizações populistas tornadas à direita, como se uma epidemia pestilenta se tratasse, estamos a ignorar as radicalizações extremistas à esquerda – e (não fosse isto um artigo do dia das bruxas) que las hay, las hay. Alguns vão mais longe e defendem o extremismo canhoto para contrabalançar os males destros; parvoíce, digo eu. Ora, nisto o mundo anda mais equilibrado do que julgamos: peso insidioso à esquerda, peso perverso à direita, o perigo global tem a bolha de ar no centro da régua de nivelar.

Torno a focar-me nas campanhas de protestos deste lado do Atlântico. Quando por cá se levantaram algumas vozes notáveis contra Trump (aquando das últimas eleições presidenciais nos E.U.A.), houve quem enveredasse por foleiríssimas expressões de rebeldia condescendente, como se o eleitorado americano fosse sensível à sensatez dum “Fuck you, Trump”. A leviandade do protesto pô-lo ao nível de qualquer corrente da treta no Facebook, o que até me parece ajustado – poucos acreditavam na eleição do milionário, e assim o protesto não precisava de ser mais do que um ice bucket challenge sem causa. Afinal, Donald nunca passou dum meme; era assim que devia ser tratado.

A partir daqui fico dividido. Sou plenamente favorável ao protesto, à defesa pública de valores, princípios ou até preferências. Para além disso, uma das teses que mais tenho repetido desde que aqui escrevo é a do mundo mediatizado e, por conseguinte, americanizado. Nesse sentido, e não sendo eu trumpista, sou incapaz de condenar quem por cá se manifestou, quem por cá se debateu contra a ascenção de Donald Trump a “líder do mundo livre”, a líder dum mundo que nos diz respeito. Mas, noutra perspectiva mais pragmática, cínica até, questiono algum discernimento dos protestos. Se caricaturarmos o eleitorado de Trump no saloio nacionalista, americanocêntrico, umbiguista, xenófobo, desconhecedor do resto do mundo, então o resultado dos “Fuck you, Trump” vindos da Europa só podia significar uma de duas coisas: vozes de burro que não chegaram ao céu, ou o acirrar do apreço por Trump nos seus defensores. Há vezes em que para um americano preguiçoso ir votar basta um europeu mal-educado.

Não estou a fugir à questão brasileira, e passo a explicar. Se procurarmos paralelismos entre as eleições norte-americana e brasileira, talvez o protesto internacional contra candidatos abjectos se destaque como ponto comum. Embora eu ande algo arredado de redes sociais, não pude deixar de notar como a campanha #EleNão se tornou assunto de discórdia mesmo entre facções que detestam Bolsonaro: para uns era essencial que a comunidade internacional esclarecesse os brasileiros dos perigos encerrados no candidato; para outros a campanha podia repetir o tiro pela culatra que se verificou com Trump, e accionar o orgulho dos brasileiros indecisos (que não iam gostar da ingerência de opiniões forasteiras). Mais uma vez dividido entre o idealismo e o pragmatismo, o que não posso deixar de verificar é que os resultados dos eleitores brasileiros a viver em Portugal (a darem maioria absoluta a Bolsonaro) pode ser sintomático dessa reacção contrária aos protestos.

Apesar de tudo, torno à ideia inicial. Parece-me que o #EleNão pouco peso teve no resultado esmagador de Bolsonaro. Nem influiu contra, nem influiu a favor, antes intuiu. “Ele não” cheira a slogan dum “Ele só”. O #EleNão assume que estas eleições estavam fadadas a ser, não uma luta entre candidatos, mas um Prós&Contras em torno dum candidato único. Quem me dera estar enganado.

PARA VER NA NOITE DA 2.ª VOLTA DAS PRESIDENCIAIS BRASILEIRAS:

Vale a pena investigar a vida e a obra do Zé do Caixão. Não é apenas uma figura maior do terror brasileiro, é mesmo um dos nomes incontornáveis do Cinema daquele país. A sugestão vai para o filme “À Meia-Noite Levarei Sua Alma” de 1964.

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