O nome oficial é "26.ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas", COP26 para os íntimos, e decorre entre 31 de outubro e 12 de novembro. 

Depois de declarações mais ou menos esperançosas de alguns dos principais líderes mundiais (e com a ausência de outros), serão agora os especialistas a congeminar o que os seus chefes prometeram.

A Conferência anterior, a 25.ª, decorreu em Madrid em 2019, com poucos resultados, muitas recriminações (das organizações não-governamentais e dos especialistas) e poucos compromissos dos governos. Então, a COP26 preferiu usar como base o Acordo de Paris, assinado em 2015 por 195 países, com o objectivo de manter a temperatura média do planeta a menos de dois graus centígrados dos tempos "pré-industriais" e impedir o aumento acima de 1,5 graus centígrados desses níveis.

Desde 2015, mudou muita coisa. Os Estados Unidos, o segundo maior poluidor desta Terra, saíram do acordo (com Trump) e voltaram (com Biden). A China, o primeiro poluidor, não saiu, mas também não se esforçou muito para melhorar a situação, na verdade até aumentou as suas emissões durante a pandemia e espera-se que aumente mais 4% em 2021. A Índia, o terceiro, não se esforçou nada, alegando que é pobre demais para o luxo duma atmosfera respirável.

Considerando a Europa como um país, espera-se que as emissões de CO2 aumentem 7,1% em 2021, o mesmo que os Estados Unidos.

Podíamos continuar a enumerar nomes e números para demonstrar o que toda a gente já sabe: não só não caminhamos para os objectivos de Paris, como ainda piorámos a situação – mesmo com uma pandemia pelo meio, que em 2020 reduziu substancialmente as emissões de CO2.

Os cientistas projetam que em 2022 poderemos bater novo recorde de emissões globais, dependendo do aumento do consumo de petróleo, da recuperação da indústria do turismo e de outros factores mais ou menos imprevisíveis.

Entretanto, terminou a 31 de outubro o encontro do G20 em Roma – foram todos nos seus grandes jatos privativos, evidentemente. As vinte nações mais poderosas comprometeram-se a não investir em projetos de energia à base de carvão em nações terceiras. Repare-se bem no significado das palavras: comprometeram-se, ou seja, não afirmaram taxativamente, que o fariam; mencionaram o carvão, mas não o petróleo e o metano; e finalmente, referiram-se a "outros países", ou seja, colocaram-se a elas próprias, as maiores poluidoras, de fora. É como se, digamos, a União Europeia dissesse que estava a considerar não investir numa central de carvão no Haiti.

Agora, no COP26, 19 países foram um pouco mais longe, incluindo na sua lista de prioridades a redução dos "combustíveis fósseis", o que abarca não só o carvão, mas também o petróleo e o gás. Mas ficaram de fora desta promessa a China, o Japão e a Coreia do Sul. Por outro lado, 77 países assinaram um acordo de transição do carvão para as chamadas energias limpas. Segundo a mesma fonte, o carvão é responsável por gerar 37% da electricidade mundial. A previsão seria de terminar com o uso de carvão nos países mais pobres até 2040, ou seja daqui a 19 anos. Nesses 77 países não estão incluídos nem os Estados Unidos, nem a China. A Índia, que tem sido o poluidor com maior crescimento, e o terceiro no ranking global, disse que não o poderia fazer antes de 2050, mas Modi, Primeiro Ministro da Índia, adiantou posteriormente que 2070 seria uma data mais provável.

Poderia continuar por aqui abaixo a mencionar promessas, juras e compromissos, tanto dos que foram feitos e incumpridos, como dos que se estão agora a congeminar em Glasgow para depois se "inconseguirem". Mas não são precisos mais exemplos para perceber o essencial da situação: os melhores objetivos possíveis são para a posteridade – a 10, 20, 30, ou mesmo 50 anos – e a maioria deles não consiste numa redução total de gases atmosféricos nocivos, mas de uma percentagem em relação aos valores tidos como ideais, datados de 1850, mais década menos década. Ou seja, o essencial da situação é que os compromissos são tímidos e serôdios. Acresce que, como muita gente suspeita, não há esperança de que venham a ser cumpridos.

As razões para este suicídio colectivo são muitas, dependendo da ideologia de quem as apresenta, do capitalismo carnívoro à impossibilidade das economias mais pobres crescerem sem consumir o que está ao seu alcance, passando pelo aumento da população e do seu legítimo desejo em melhorar o seu nível de vida. Razões não faltam. 

Todavia, tudo se pode resumir a uma: nós — a espécie humana — somos extremamente destrutivos. Depois de eliminar milhares de espécies, chegámos finalmente ao ponto de nos eliminarmos a nós próprios. 

Imparáveis e estúpidos.

Assim, a evidência só pode ser uma: um dia chegaremos ao ponto de morrer aos milhões. Nessa altura, que não é tão distante assim (podemos também estabelecer uma data, já que todos o fazem, talvez ainda no século XXI), será tarde demais para voltar atrás, ou mesmo parar. 

A educação para a proteção do meio ambiente é ainda incipiente; porém, a raiz do mal está para além desse necessário investimento. Os "donos disto tudo", idealmente escolhidos por todos nós, prosseguem objetivos imediatos e egoístas. Para eles, é tudo uma questão monetária – se o petróleo é mais barato do que a energia solar, se dá mais benefício poluir ou pagar uma taxa anti-poluição, se é mais importante a supremacia político/económica do que a sobrevivência. Será insensato pensar que é possível seguir este percurso sem a Terra se revoltar num Armageddon apocalíptico?

Alguém tem uma ideia salvadora – e exequível?

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