Não gosto de futebol, não vou gostar nunca, chego aos cinquenta anos sem saber o que é um livre ou as razões de um prolongamento, a minha glória talvez seja saber que um derby é um jogo entre clubes da mesma cidade.

De resto, a minha cultura futebolística termina com igual glória, embora possa referir que, há mil anos, li um livro maravilhoso do britânico Desmond Morris intitulado "A Tribo do Futebol" (editado em 1981) e que apreciei todas as páginas. Nesse volume, recheado de explicações e descodificações simbólicas, o biólogo, zoólogo e etólogo defende a ideia de que o futebol, como outras atividades, nasce a partir do momento em que o homem deixa de ser nómada e caçador para ser sedentário e agricultor. Não tenho como contrariar, é evidente, Desmond Morris é um nome consagrado da investigação.

Portanto, nada sei sobre futebol, nada sei sobre agricultura, nem mesmo sobre fenómenos televisivos em receitas de reality show que metem agricultores e raparigas casadoiras.

O que eu sei é que durante este confinamento profilático, estando em casa desde o dia 11 de março, apreciei sobremaneira a ausência de jogos de futebol, mas sobretudo de comentários sobre jogos futuros ou acabadinhos de terminar. Respeito quem goste de futebol, percebo a dimensão planetária do fenómeno, não discuto sequer, porventura a falha é minha, mau gosto, outra coisa qualquer que possa apaziguar os mais fanáticos.

A verdade é que a ausência de futebol tornou-se um verdadeiro luxo, a nossa vida deixou de ser regida pelos jogos (sendo que eu tenho um filho que vê jogos da liga espanhola, inglesa, alemã, enfim, vê futebol assim ele exista, ou joga na consola qualquer coisa que meta futebol), e não me fez falta alguma.

Já sei que muitos não compartilharão desta minha observação, há mesmo quem esteja em privação de tanto ansiar por futebol, é o que é, mas posso dizer-vos que a lucidez pede que concedam que o papel centralizador desta modalidade desportiva (e mais nenhuma outra, e eu sou o tipo de pessoa que gosta de atletismo, ginástica, danças de salão, patinagem, até de campeonatos de snooker!) é exagerada, é demais.

E vem isto a propósito do quê? Da informação da rádio para a qual trabalho com prazer e orgulho: na quarta-feira não há programa "A Páginas Tantas", ah a literatura, e porquê? Porque há futebol. Percebem o meu descontentamento? Talvez não, tudo bem, mas vem aí o futebol e eu só penso em fugir.

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