Muito do que se passa na Web Summit tem a ver com espectáculo, mas nem todos os oradores usufruem de igual modo dessa produção inspirada no star system, sobretudo no palco principal. Não foi o caso de Stephanie McMahon, Chief Brand Officer da WWE, que entrou na tarde de terça-feira no palco principal ao lado do jornalista da Recode, Kurt Wagner. A música, as luzes, a antecipação do momento, tudo nos mostrava que era de espetáculo que se tratava. O jornalista da Recode, a personagem secundária do trama que ali se ia desenrolar, afirmou isso mesmo ao comentar que nunca tinha sido recebido em modo “Justin Bieber”.

O tema era WWE, o tema era muito em concreto mulheres na WWE. WWE essa arte de contar uma história quase-novela a partir de dois homens encorpados, uma mistura entre super-heróis e mascarados de Carnaval e que fingem que se combatem no ringue. É tudo sobre a história, muito menos sobre a luta. Mas eram homens no ringue, e as mulheres, que sem as houve, eram personagens secundárias, cúmplices na trama, mas sem o protagonismo que só o ringue realmente dá.

Até que isso mudou. “Finalmente, a vez das mulheres”, vincou Stephanie McMahon, ela própria uma personagem do fenómeno WWE que é hoje um grande negócio de entretenimento. Filha de Vince McMahon, empresário que pegou na empresa de âmbito regional do pai e fê-la atravessar fronteiras, e casada com Triple H (de nome efetivo Paul Michael Levesque, apresentado como homem de negócios antes de lutador de wrestler na Wikipedia). 

Ele, Triple H, um dos nomes emblemáticos da luta-até-aqui-masculina nos ringues, ela, Stephanie, a responsável máxima pela marca WWE, e também personagem de "trama" do wrestling. No ringue, são um "power couple" repleto de química, tendo especial apetência para fazer de vilões, mas nos bastidores ambos têm procurado renovar a organização de uma ponta a outra. Foi precisamente com o estatuto de gestora que se apresentou no palco central da Web Summit para falar de como as mulheres ganharam protagonismo num “desporto-espetáculo” visto como território por excelência dos machos alfa.

E, disse ela, tudo começou porque Triple H, o seu marido, começou a treinar mulheres como treinava homens, correu bem e o público aderiu. Assim simples. Mas, elas continuavam secundárias. Até que os fãs falaram mais alto. Tudo começou num combate entre Paige/Emma e The Bella Twins em fevereiro de 2015. Apesar de combates de curta duração serem comuns nos programas televisivos da WWE , o facto de o único combate entre mulheres ser precisamente o mais curto - perto de 30 segundos - provocou reações dos fãs que escolheram o Twitter para dar eco aos seus protestos através do hashtag "GiveDivasaChance".

Durante três dias fizeram-se ouvir continuamente. “Falaram tão alto que o presidente da WWE ouviu-os”, contou Stephanie. Dessa faísca nasceu a "Women's Revolution", nome sonante que a empresa passou a denominar para apelidar as mudanças que começou a operar junto do seu elenco feminino. Para trás ficariam os processos de recrutamento em agências de modelos, a primazia da beleza comercializável sobre o talento no ringue, a programação de âmbito francamente sexista.

Nos últimos anos, uma nova pool de atletas femininas começou a formar-se nos centros de desenvolvimento e treino que a WWE possui, passando a ter tanto protagonismo quanto os homens. Para começar, deixaram de se chamar "Divas" e passaram a ser "Superstars, como os homens, mostrando ser capazes de protagonizar combates  até então considerados "demasiado violentos" ou de território estritamente masculino. 

Os ventos de mudança chamaram novas figuras, algumas muito conhecidas do público dos desportos de combate, como Ronda Rousey, celebrada lutadora da UFC que até já esteve no ringue com Stephanie e que se tem enquadrado como uma luva nesta divisão renovada da WWE. Todo este processo desembocou no passado dia 28 de outubro, com a realização de um evento pay-per-view só com mulheres que se revelou um enorme sucesso e cujo nome foi em si uma declaração de intenções: "Evolution". Um sucesso replicado até em palcos insuspeitos como o de Abu Dhabi onde “ pela primeira vez há um ano as mulheres foram autorizadas a actuar”. O mesmo local onde homens e mulheres juntos cantaram depois “this is hope” (isto é esperança).

Sobre o negócio, em geral, as notícias continuam animadoras para os seus donos e promotores. A WWE, recordou Stephanie, foi a primeira plataforma live streaming OTT, traduzido foi o primeiro evento a ser transmitido online em direto. Essa componente a somar à exibição em televisão a somar aos eventos multiplicada por mais de 90 países onde a WWE é vista torna-a um negócio de muitos dígitos.

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