A Sigma Software Group é uma empresa sueco-ucraniana de TI que fornece serviços e consultoria para empresas, casas de produtos de software e startups. Neste sentido, há 20 anos que ajudam "marcas globais a resolver as suas necessidades comerciais de forma mais rápida e eficaz", bem como startups a transformar ideias em produtos líderes de mercado.

Atualmente, a empresa faz parte do Sigma Group, um dos maiores grupos de TI no mercado escandinavo, propriedade do Danir Group — que tem um total de 10.200 empregados em 16 países.

Recentemente, a Sigma Software chegou a Portugal, com 15 pessoas a trabalhar no país. Olga Paramonova, vice-presidente da Sigma Software Group, apresenta o espaço que a empresa ocupa por cá. "O nosso escritório está localizado no LACS Cascais, que fica muito perto de Lisboa, mas ainda mais perto do oceano. Neste momento, temos aqui duas salas, cada uma pode ter até quatro pessoas. Recomendo certamente o trabalho a partir do escritório, é produtivo e eficiente. Estou aqui todos os dias", diz.

Mas o que motivou a empresa a vir para Portugal? Também a guerra.

Volodymyr Chyrva, sócio-gerente e cofundador da Sigma Software Group explica ao TNBI o que conduziu à escolha de Portugal como país de expansão dos escritórios:

  • Política: “Portugal apoia a Ucrânia e os ucranianos. Nunca se ouviu nada do género: ‘A situação em Bucha é real ou falsa?’”;
  • Tecnologia: “Muitas startups. Este é um dos países mais digitalizados da UE”;
  • Geografia: “Está muito longe da Rússia. É o país mais próximo dos EUA onde vivem muitos dos nossos clientes. Tem um fuso horário muito conveniente, o mesmo que o Reino Unido”;
  • Educação: Existem “90.000 licenciados em engenharia. A maioria das pessoas fala inglês. Há uma grande variedade de escolas internacionais para os nossos filhos”;
  • Economia: “35 mil euros/ano é o salário médio de um engenheiro de software”. E o café e as viagens de Uber também são baratas;
  • Outras vantagens: o clima, as pessoas, a natureza e o tamanho do país.

"Diferentes sombras de vida" entre Portugal e a Ucrânia

Antes de estar instalada em Cascais, Olga Paramonova trabalhou num cenário que nunca tinha imaginado vir a presenciar.

"O primeiro dia [24 de fevereiro] foi uma confusão, não tínhamos a certeza de quanto tempo duraria o bombardeamento e demorou algum tempo a perceber que não foi um ataque único, mas uma verdadeira guerra... Penso que ainda não conseguimos acreditar que isto esteja a acontecer", começa por contar ao TNBI.

"Passei o primeiro dia na minha casa, onde não temos um abrigo. Tentámos esconder-nos no interior, ficando no chão, [tapei] as janelas com fita adesiva e, quando a fita acabou, eu ainda não tinha coberto sequer 30% das janelas, pelo que percebi que era altura de encontrar algo mais seguro", recorda.

Dado o que estava a acontecer no exterior, a escolha tornou-se óbvia, era preciso abandonar a casa de família. "Agora compreendo que tudo o que estava a fazer para proteger a casa não iria ajudar de qualquer forma", aponta. "Encontrámos um abrigo em casa dos nossos vizinhos, que tiveram a amabilidade de nos deixar entrar, assim como outras pessoas, incluindo estudantes da cidade de Okhtyrka, a minha cidade-natal, onde passei 17 anos de vida e que já não existe".

Num abrigo anti-bombas, a vida é diferente. Porque, se a guerra começa, o trabalho não pode parar. "Trabalhar a partir do abrigo é difícil, técnica e emocionalmente. Um bom abrigo tem muros fortes e, portanto, nenhuma rede de telemóvel ou internet, a menos que lá se instale deliberadamente. Não tínhamos esse luxo", frisa.

"Okhtyrka, a minha cidade-natal, onde passei 17 anos de vida, já não existe"

Assim, a opção era sair quando possível. "Depois de ter acomodado os meus filhos e animais de estimação no abrigo, tive de subir ao primeiro andar de vez em quando para enviar mensagens de texto à minha família e amigos para dizer que estávamos vivos e também para carregar mensagens e notícias para me pôr a par da situação, bem como para fazer o check-in com os meus colegas de equipa e combinar como iríamos progredir com a evacuação. Nesse momento recebemos uma ajuda incrível da nossa equipa, que nos apoiou", relembra Olga.

Do lado da Sigma Software, todos tentavam fazer possíveis e impossíveis. "Sei que muitos dos membros das equipas de engenharia estavam a codificar ativamente a partir dos abrigos, isto é incrível", diz.

Tudo acabou por correr bem para Olga, que conseguiu deixar a cidade ao fim de três dias. "Nunca tive tanto medo em toda a minha vida. Ficar no abrigo pareceu-me ser muito mais seguro naquele momento, agora percebo que partir foi a escolha certa", adianta.

Já em segurança, a vice-presidente da Sigma Software continua com os olhos postos no seu país. "Estou continuamente a doar dinheiro para vários fins, por exemplo, para comprar equipamento, coletes à prova de bala, passámos o nosso gerador a diesel para o hospital e alojámos pessoas no nosso apartamento familiar em Lviv", conta.

"Quando me sinto zangada, triste ou inútil, lembro-me que ainda posso trazer valor, à minha própria maneira"

"No trabalho, temos uma rotina de check-in com os nossos colegas todas as manhãs e noites, para ver como estão. Continuamos a ajudar pessoas em transferências de cidades 'vermelhas' e partilhamos as boas notícias com mais frequência. No geral, estamos a fazer o nosso melhor para continuar a trabalhar no sentido dos nossos compromissos", acrescenta.

Assim, mesmo não estando na linha da frente, quem tem responsabilidades numa empresa pode colaborar. "A nossa ajuda está em manter o negócio a funcionar. Muitas pessoas perderam o seu trabalho, os seus negócios... Estou contente por as TI quase não terem sido afetadas e podermos manter a indústria a funcionar, ajudar o exército através de doações, pagar impostos, etc. Esta visão é o meu combustível pessoal e dá-me um objetivo. Quando me sinto zangada, triste ou inútil, lembro-me que ainda posso trazer valor, à minha própria maneira".

"Sabem aquele jogo em que é preciso selecionar coisas ou pessoas para se levar consigo se houver apenas uma mala, um carro ou assento? Jogámo-lo a sério"

Contudo, entre Portugal e a Ucrânia, "há diferentes sombras de vida". Aqui tudo recomeça e isso é bom, mas Olga lembra que estar num país novo é olhar para um sítio "onde não se tem nada nem ninguém".

"Muitos de nós estamos de volta aos valores fundamentais e à reavaliação da vida, do nosso propósito, da nossa missão, seja lá como lhe quisermos chamar. Sabem aquele jogo em que é preciso selecionar coisas ou pessoas para se levar consigo se houver apenas uma mala, um carro ou assento? Jogámo-lo a sério, levámos apenas o mais importante connosco e recomeçámos com este pacote essencial", avalia.

Por tudo isso, não se trabalha da mesma forma. "É difícil nomear o meu estado atual como 'concentrado'. Continuo a não ser tão produtiva como normalmente sou. A preocupação constante com as pessoas que estão em perigo, a nossa casa que deixámos, descobrir nas notícias que mais um lugar de que gostamos foi destruído, aprender mais e mais detalhes sobre o que aconteceu às pessoas em pequenas cidades ocupadas, às crianças... é horrível e não se pode simplesmente ignorá-lo e sorrir".

"É melhor estabelecer um objetivo simples e alcançá-lo, em vez de não alcançar um maior e sair ainda mais desencorajado"

"Revi a minha rotina habitual de planeamento. Tento evitar estabelecer objetivos globais e centrar-me algo pequeno em vez disso, algo que certamente conseguirei alcançar rapidamente. Penso que é muito importante que estabeleçamos expetativas razoáveis para nós próprios nos dias de hoje. É melhor estabelecer um objetivo simples e alcançá-lo, em vez de não alcançar um maior e sair ainda mais desencorajado. Também voltei ao yoga, ajuda a estar no momento atual e a não ficar no passado, pelo menos durante algum tempo", aponta Olga.

A guerra começou, mas o trabalho continua

Contudo, para que Olga e os outros trabalhadores da empresa tenham esta forma de avançar com as suas vidas, foi necessário estabelecer todo um plano na Sigma Software — que não começou a ser desenhado só agora.

"Desde o primeiro dia de invasão em grande escala, a nossa prioridade máxima foi a segurança do nosso povo. De acordo com o nosso Plano de Continuidade de Negócios, começámos a retirar a nossa equipa e as suas famílias de Kharkiv e outras cidades para locais seguros na parte ocidental da Ucrânia e no estrangeiro", conta ao TNBI Volodymyr Chyrva, sócio-gerente e cofundador da Sigma Software Group.

Assim, "durante o processo de evacuação, os colegas organizaram-se de acordo com um princípio: quem quer que esteja a salvo neste momento ajuda os outros".

"O grupo de voluntários, que se organizou nas primeiras horas de 24 de fevereiro, inclui supervisores, estagiários, arquitetos, promotores, gestores de projetos e especialistas em administração. A empresa tem uma cultura democrática e uma estrutura horizontal. Graças a isto, todos se reuniram como um só, sem hesitação e sem esperar por tarefas ‘de cima’", refere o cofundador da Sigma Software.

"A primeira prioridade foi o transporte para a operação de evacuação e a procura de locais de alojamento temporário. Foi imediatamente decidido que seriam retirados membros da família e animais de estimação. No final, a nossa empresa fez um esforço incrível para deslocar mais de 2800 pessoas (na sua maioria mulheres, crianças e animais de estimação) para trabalhar para o bem do país e ajudar os nossos defensores", diz.

Mas nem todas as pessoas quiseram ou puderam sair. "Por exemplo, os homens com idades compreendidas entre os 18 e os 60 anos não estão autorizados a abandonar o país. Estas pessoas ainda precisam de apoio, tendo necessidades humanitárias e de segurança", relembra.

"Alguns dos nossos especialistas começaram a entregar alimentos e medicamentos e alguns até se juntaram ao exército e às forças de defesa territorial"

Assim, a empresa decidiu "utilizar um fundo de caridade" que tinha sido criado "para outros fins", mas que agora é necessário para "fornecer ajuda orientada para o transporte, alojamento, medicina, alimentação e meios de protecção, com enfoque nas regiões de Kharkiv e Poltava".

Mas o apoio não fica por aí. "Mesmo quando a maioria dos nossos empregados e respetivas famílias está a salvo, muitos precisam de ajuda para lidar com a tensão nervosa e o stress. Alguns deixaram entes queridos em cidades onde ainda há combates, alguns dos nossos especialistas começaram a entregar alimentos e medicamentos e alguns até se juntaram ao exército e às forças de defesa territorial", adianta.

Apesar de toda a agitação no terreno, o negócio não podia parar. Por isso, seguiu-se um plano de contingência que "inclui uma série de ações essenciais para a continuidade do serviço em situações de emergência", que foi incorporado nos processos e rotinas regulares.

"Embora a manhã de 24 de fevereiro tenha sido um choque completo para toda a equipa, em termos de negócios estávamos preparados"

Assim, desde novembro de 2021 que a Sigma Software olhava para a "avaliação regular do risco", apercebendo-se de que algo estaria a mudar na Ucrânia — mas todo o plano estava delineado desde 2014, pela altura da anexação da Crimeia. "Iniciámos ações preparatórias que incluíam atualizações regulares do estado de evolução dos funcionários, investigação profunda e elaboração de planos de apoio, planeamento, bem como a realização de ações preventivas destinadas a minimizar o impacto de possíveis hostilidades", é apontado.

"Embora a manhã de 24 de fevereiro tenha sido um choque completo para toda a equipa, em termos de negócios estávamos preparados e tínhamos um roteiro claro que mostrava quais as ações que deveriam ser tomadas", explica Volodymyr Chyrva. "Os colegas que se encontravam nos locais seguros concentraram-se na recolocação e apoio dos membros da equipa e das suas famílias, no equilíbrio da carga de trabalho entre os membros da equipa disponíveis e na garantia da estabilidade das nossas infraestruturas".

Com a guerra a decorrer, no início a empresa teve "interrupções temporárias porque as pessoas tinham saído do país ou sido deslocadas e precisavam de tempo para caírem em si, para organizarem tudo o que precisavam para trabalhar e viver, particularmente para as suas famílias".

Contudo, havia uma vantagem: "como a infra-estrutura e os servidores da empresa estão localizados na UE e 95% dos especialistas trabalham em computadores portáteis", foi possível "regressar rapidamente ao trabalho".

"Apesar da gravidade da situação, 70% dos empregados regressaram ao trabalho no prazo de uma semana após o início da guerra. Em duas semanas e meia estivemos de novo totalmente operacionais", remata.

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