É plausível pensar que podemos encontrar vida em Europa?

Como toda a forma de vida conhecida é oriunda do planeta Terra, esta pergunta requer uma resposta cautelosa e, ao mesmo tempo, especulativa. Porém, caso venhamos a encontrar vida fora do nosso planeta, temos uma ideia de como essa vida poderá ser. Europa é uma das maiores entre as 79 luas de Júpiter, possuindo por volta de 3100km de diâmetro. Em síntese, um pouco menor do que a nossa Lua, e um pouco maior do que Plutão. Porém, mesmo sendo pequena, Europa é atualmente um dos melhores candidatos conhecidos para encontrarmos vida. O mais fascinante na hipótese de existir vida em Europa são os dados promissores que possuímos.

Baseado nas formas de vida que conhecemos, sabemos que todas as células precisam de água e uma fonte de energia. Europa muito provavelmente oferece os dois. Hoje possuímos dados convincentes de que Europa possui um oceano de água líquida sob a sua camada externa de gelo. Algumas linhas de evidência sugerem que esse oceano tenha algo entre 100 e 200 km de profundidade, algo em torno de onze vezes a altura do monte Everest, o ponto mais alto do planeta Terra. A título de comparação, essa profundidade armazenaria algo em torno de duas vezes mais água do que o planeta Terra.

Águas profundas

Quando falamos em profundidade, não podemos deixar de falar sobre pressão. 200 km de profundidade em Europa resultaria numa pressão por volta dos 200 MPa (megapascal). No nosso planeta, nem mesmo no ponto mais profundo do oceano, conhecido como “challenger deep” na Fossa das Marianas, encontramos tais pressões hidrostáticas. Por outro lado, devido a sua proximidade de Júpiter, a única explicação plausível para a presença de tanta água em estado líquido seria a presença de fontes de calor hidrotermais. Devido a sua distância do nosso Sol, a energia irradiada na superfície de Europa seria ínfima. Logo, irrelevante no processo de manutenção do estado físico da água. Porém, Júpiter é grande o suficiente para oferecer essa energia. Desta forma, podendo vir a aquecer Europa suficientemente.

Quando analisamos tais possibilidades, chegamos à conclusão de que Europa possui todas características necessárias para a emergência da vida, pelo menos da forma como a conhecemos aqui na Terra — visto que na Terra existem organismos evolutivamente adaptados para viver em ambientes semelhantes aos de Europa. Assim, podemos fazer algumas comparações do que poderia existir em tais ambientes.

O que esperar nos oceanos de Europa?

Devido à sua distância do Sol e à grossa camada de gelo de aproximadamente 22 km, a possibilidade de existirem organismos fotossintetizantes como plantas e cianobactérias é praticamente nula. Porém, assim como os organismos fotossintetizantes utilizam a energia do sol como fonte de energia para o metabolismo, outros organismos conhecidos como quimiossintetizantes, que utilizam fontes químicas como hidrogénio e enxofre, poderiam vir a existir. No planeta Terra, um desses organismos são os "tube worms" ou os “vermes-de-tubo”. Esses animais são moluscos bivalves que vivem da energia química de compostos de enxofre digeridos por bactérias incrustadas nos seus corpos. De facto, os vermes-de-tubo podem chegar a um metro e meio de comprimento e viver em grandes profundidades, um possível análogo para a vida em Europa.


Um outro animal fantástico que sobrevive a grandes profundidades e pressões é a lula vampiro. Esse molusco pode viver em profundidades de até 3 km e é um especialista em ambientes com ausência de luz. Devido a grande profundidade do oceano de Europa e à possibilidade de existirem organismos como os vermes-de-tubo, talvez existam também grandes predadores tal como a lula vampiro.

Thermarces cerberus
créditos: Wikipedia | Creative Commons

Um terceiro candidato marinho para Europa são os peixes da espécie Thermarces cerberus. Esses peixes são encontrados associados a fontes hidrotermais no oceano pacífico. Podendo viver em até 2.300 metros de profundidade, o T. cerberus possui uma incrível capacidade de suportar altas pressões hidrostática. Sendo assim, um dos poucos peixes conhecidos capazes de sobreviver a ambientes semelhantes aos oceanos de Europa.

A caminho de respostas

Estes são apenas alguns dos animais presentes nos nossos oceanos que poderiam hipoteticamente viver nos oceanos de Europa. Portanto, devido ao fenómeno de convergência evolutiva, podemos dizer que caso exista vida em Europa a mesma não seria tão diferente da vida aqui na Terra. Assim como há insetos e pássaros que voam, mas são distantemente relacionados na árvore da vida, os animais em Europa possuiriam características semelhantes aos animais dos nossos oceanos, mesmo não possuindo relação com os animais da Terra.

Apesar da possibilidade concreta da existência de um oceano líquido em Europa, qualquer especulação sobre formas de vida não passa de ficção científica. Mesmo que exista vida complexa, a mesma seria extremamente difícil de ser detetada. Fora a falta de informação, tal missão seria muito cara. E fora o facto de não possuirmos as tecnologias necessárias para a exploração extraplanetária nesta escala de complexidade. Ainda que décadas de planeamento fossem investidas para este tipo de missão, vários problemas éticos surgiriam pelo caminho, entre eles os possíveis distúrbios ambientais que poderíamos trazer para esse ecossistema.

De que Europa é um ambiente promissor para o surgimento de vida complexa não há dúvidas. O conjunto de factores associados a essa lua são tão intrigantes que em 2020 a NASA planeia lançar a sonda Europa Clipper com o objetivo de estudar a superfície de Europa. Grandes mistérios sobre a natureza geológica e química desta lua vão ser revelados, possivelmente abrindo caminho a outras missões futuras — podendo até mesmo culminar em missões que envolvam landers (veículos científicos que descem à superfície do corpo astronómico para estudos mais complexos). Dessa forma, podemos continuar a sonhar com oceanos alienígenas, fervilhando com formas de vida exóticas aos limitados olhos humanos.

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