Nunca em Angola se falou tanto de empreendedorismo como nos últimos quatro anos, ao longo do qual o país viveu uma crise económica e financeira. Ideias surgiram, ideias morreram, mas algumas vincaram e servem de motivação para novos empreendedores.

A desafiar o trânsito de Luanda, “motoboys” carregam às costas mochilas térmicas com o logótipo da Tupuca, startup angolana de entregas que ambiciona conectar compradores e vendedores de produtos e serviços diversos nas dezoito províncias do país, ao mesmo tempo que não deixa de prestar atenção às oportunidades que possam surgir no mercado africano, particularmente na região da Comunidade de Desenvolvimento da África Austral (SADC, em inglês), da qual Angola faz parte. Focada inicialmente na entrega de refeições, hoje a startup leva até aos clientes desde fármacos a ingressos para eventos e taxas de circulação rodoviária [documento para pagamento de imposto de circulação].

No domínio do empreendedorismo tecnológico, em que se despontam meia dúzia de startups, a Tupuca é já apresentada como um caso de sucesso, embora ainda tenha um longo percurso a fazer. Além de um futuro promissor, os números atuais da startup são animadores. Em três anos existência, o valor transacionado na App Tupuca já ultrapassa os 2,5 mil milhões de kwanzas (pouco mais de 5,5 milhões de euros), e o seu fundador e CEO assegura que o crescimento tem sido exponencial. “Em apenas um mês e meio de 2019, tivemos literalmente uma faturação igual à de todo o ano passado”, revelou Erickson Mvezi, que se mostra otimista em relação ao momento atual do empreendedorismo em Angola.

“Estou muito mais otimista do que há três anos. Atualmente, surgem em Angola várias startups e programas de empreendedorismo e inovação. Os bancos e as empresas de telecomunicações, particularmente, estão cada vez mais envolvidos nessas iniciativas, e acredito que contribuem para que os empreendedores acreditem cada vez nos seus projetos”.

Em linha com Erickson Mzevi está Joel Epalanga, CEO da KiandaHub (centro de inovação tecnológica e espaço de coworking no Bairro Vila Alice, em Luanda), que afirma que “nos últimos cinco anos se viveu em Angola a fase mais crítica para os empreendedores”, porém, simultaneamente, “foi um período de oportunidades, atendendo a uma série de problemas que precisavam de soluções, nem sempre dependentes de grandes investimentos”, reforçou o empreendedor, referindo-se, entre várias questões, à limitação de pagamento online a fornecedores exteriores verificada em Angola como sequência da crise financeira e cambial, o que levou vários empreendedores a criar soluções pagamento online em Kwanza.

Ou seja, no entendimento do empreendedor, sempre existiu uma classe empresarial angolana, mas é recente a criação do ecossistema de empreendedorismo. “O nosso mercado sempre foi anormal, mas com o ambiente social e económico mais estável que está a surgir, muitos empreendedores vão despontar. Agora é o momento da verdade, porque a concorrência é real e quem fizer melhor o seu trabalho de casa, com certeza que vai vincar”, defendeu Joel Epalanga.

Vanda de Oliveira, CEO da Bantu Makers – uma startup studio -, enumera iniciativas como a Tupuca, Appy Saúde (que há dois anos participa da Web Summit em Lisboa), a Soba E-store e, mais recentemente, a Kubinga (aplicação de táxi e de entregas) como exemplos de empreendedorismo tecnológico. No entanto, considera que o país vive ainda uma fase embrionária, “porque ainda não existem pelo menos dez startups que mostrem capacidade de escalabilidade e as poucas que existem estão focadas em Luanda. A falta de investidores ainda é um desafio, mas antes de chegarmos aí é necessário colmatar a carência de treinamento e orientação dos empreendedores. É isto que os novos empreendedores precisam”, defendeu.

Menos retórica, mais ação

Para o director-executivo da Habitec – empresa angolana que produz mobiliário escolar e coordena um programa de reflorestação na província do Huambo, no centro do país -, o empreendedorismo despertou grande interesse de jovens em Angola, no entanto, critica, muito do que se faz ainda não passa de retórica.

Felisberto Capamba é de opinião que ainda se passa “uma visão muito romântica do empreendedorismo” e há no mercado “um excesso de vendedores de ideias que não mostram aos novos empreendedores” o longo e tortuoso caminho do sucesso. Pelo contrário, acrescentou, “vendem sonhos que, infelizmente, deixam os sonhadores ainda mais impacientes”.

Embora reconheça uma grande apetência da nova geração de angolanos para as TIC, Felisberto Capamba alerta que “o empreendedorismo é não apenas tecnologia”, mas consiste, acima de tudo, em resolver problemas concretos, sendo que, para o caso de Angola, onde ainda há províncias com baixo nível de desenvolvimento, numa primeira fase a solução pode ser encontrada sem recurso a meios muito sofisticados.

“Paciência e foco na solução de problemas reais de uma comunidade para nós foi a chave do sucesso. O primeiro passo foi dado exatamente lá onde nós estamos [no Huambo]: identificámos um problema local, com possibilidade de solução local e envolvendo a comunidade local”, recordou, referindo-se à Habitec, projeto que começou a ser pensado em 2006, mas apenas quatro anos depois conseguiu o primeiro financiamento.

“Efetivamente, só em 2012 arrancámos com processo produtivo, depois da captação de um investimento de 700 mil dólares. Chegámos a ter um património acima dos quatro milhões de dólares, porém, esse valor decaiu devido à depreciação da moeda nacional [Kwanza]” em mais de 30% nos últimos dois anos.

Por sua vez, José Carlos Santos, CEO do Hub Acelera Angola, entende que, através das plataformas digitais, “é possível, numa primeira fase, desenvolver-se negócios sem grandes encargos de custos infraestruturais, além de haver uma vasta possibilidade de escolher com quem e para quem fazer negócio”, ao contrário do contexto anterior em que “o Estado o único grande cliente”.

Na sua opinião, o papel dos jovens empreendedores angolanos na economia e na vida social do país será ainda mais notável, num futuro próximo, na medida em que a nova geração traz consigo influências de outros mercados onde já se fez a curva de aprendizagem.

“Nós somos pouco mais de 30 milhões de habitantes, o que nos oferece um potencial enorme de escalabilidade de mercado. Outro fator importante é que os empreendedores angolanos são muito jovens, têm outro tipo de influência e forma de olhar para vida e para os negócios, o que é bom, porque são jovens que dominam as TIC e, por exemplo, se tiver que abrir uma loja, não pensam em alugar espaço num shopping, mas sim em abrir uma loja virtual”.

“Arrastar” os decisores públicos

As políticas de incentivo ao empreendedorismo em Angola ainda não tiveram o impacto desejado, adiantam empreendedores contactados pelo The Next Big Idea, sendo que normalmente o governo vem atrás dos empreendedores.

Para o CEO da Tupuca, Erickson Mvezi, à medida que os políticos falam sobre empreendedorismo, mais visibilidade o assunto ganha. “Cabe a nós, empreendedores, começarmos a influenciar a agenda política, a regulamentação dos financiamentos e a abertura a investidores externos, que precisam de garantias concretas para arriscar investir em projetos”.

Joel Epalanga, por sua vez, aponta o Angotic - evento sobre tecnologias de informação e comunicação lançado pelo presidente angolano, João Lourenço, em 2018, como sendo uma manifestação do interesse do governo em fomentar as startups tecnológicas.

“Fomos convidados, recentemente, pelo Ministério do Ensino Superior, Ciência, Tecnologias e Inovação para uma mesa redonda onde abordámos temas como a inovação nas instituições de ensino e defendeu-se, com o apoio da ministra, a criação, dentro das universidades, de incubadoras e centros tecnológicos. Isto fez-nos sentir que não estamos sozinhos”, afirmou o CEO do KiandaHub, cuja atividade está focada na incubação e aceleração de startups, além de oferecer um espaço de coworking.

“A ideia é, num mesmo espaço, conseguirmos promover novos talentos, dar-lhes espaço e condições de trabalho para arrancar ou desenvolver os seus projetos. Embora reconheçamos que nem todos chegam a evoluir a esse ponto, o importante é que o aprendizado fica”, afirmou.

Ainda sobre o papel do governo no desenvolvimento do empreendedorismo no país, o CEO do Acelera Angola, José Carlos Santos, considera que os empreendedores são, muitas vezes, obrigados a andar ao ritmo dos políticos e gestores públicos. “Normalmente, quem movimenta o mercado são os empreendedores, e o governo vem atrás para regulamentar e criar infraestruturas. Entretanto, tanto o primeiro grupo, quanto o segundo, devem ser parceiros. Não sentimos que haja falta de apoio, e achamos que é necessário que do lado dos empreendedores haja massa crítica, para que se façam recomendações aos decisores públicos. Não podemos pensar que as coisas mudam porque temos vontade que assim aconteça, mas sim porque estudamos mecanismos que permitam que isso aconteça”, defendeu.

Duplicar número de entregas até final de 2019

Até final de 2019, a Tupuca pretende superar as vinte mil entregas mensais, atingindo a fasquia das cinquenta mil. Segundo Erickson Mvezi, tal será possível, primeiro, através da exploração de novos segmentos de negócio e, segundo, através da exploração de mercados fora capital angolana, Luanda. “Cada vez que evoluirmos num segmento, tentamos perceber se podemos replicar os métodos noutros. No final, o que o cliente quer é conveniência e a rentabilização do seu tempo”, esclareceu o empreendedor que lidera uma equipa 215 colaboradores, incluindo estafetas.

“Estamos num mercado que tem muito a oferecer, e por isso fazemos um esforço de para melhorar a gestão dos recursos humanos, atendendo ao grande potencial de crescimento".

Otimista, Erickson Mvezi recorda que a Tupuca vem trazer a conveniência de economias desenvolvidas aos angolanos, primeiro, e depois aos países da SADC e a toda a África.

“Criámos um modelo de negócio win-win [em que todos ganham]. O fornecedor sai a ganhar porque tem um vendedor externo que não eleva o seu custo operacional, os nossos estafetas saem a ganhar porque fazem o seu próprio salário e quanto mais entregas fazem mais ganham. Queremos continuar a romper barreiras e a mostrar que não se trata apenas de histórias de Silicon Valley ou da Nigéria, mas que em Angola também é possível”, manifestou.

Infelizmente, admitiu, as infraestruturas rodoviárias ainda são o grande calcanhar de Aquiles, pelo que a expansão a mercados fora de Luanda continua a ser estudada criteriosamente. “A condição das infraestruturas é um problema crítico, porque o nosso serviço acaba por ser transporte e logística. Ou seja, de um lado temos App, e do outro lado o fornecedor, mas no final os produtos têm de sair de um ponto para o outro, e aqui as vias de comunicação devem ser acessíveis”, afirmou Erickson Mvezi.

Uma carteira escolar para cada criança

A ausência de mobílias escolares, principalmente carteiras, é uma realidade em muitas escolas no interior de Angola, onde ainda há crianças que assistem às aulas sentadas em pedras. Contrapor essa realidade foi a principal motivação por detrás da Habitec, revelou Felisberto Capamba. “Deparámo-nos com o problema de carência de carteiras nas escolas nacionais, mas também aproveitámos o facto de o governo, na altura, ter definido uma política de recuperação e apetrechamento das escolas”, lembrou.

O diretor-executivo da Habitec adiantou que o envolvimento da comunidade ocorreu em duas fases. “A primeira foi o treinamento, através de especialistas que capacitaram os nossos técnicos e a própria comunidade em tarefas que não requerem muita engenharia e para as quais fomos buscar as famílias que já se ocupavam dessa atividade, tornando-se nossos fornecedores, porque a Habitec não vai à floresta cortar madeira”, informou, tendo acrescentado que a segunda fase de envolvimento da comunidade foi no programa de reflorestação de eucaliptos, a matéria-prima que a empresa usa produzir as carteiras escolares.

“A condição para as famílias serem nossos fornecedores é terem um programa de reflorestação. As famílias não andam grandes distâncias para ir ao serviço, resolvem um problema e têm um rendimento pelo seu trabalho”, esclareceu Felisberto Capamba, que garantiu que a empresa que fundou e gere é parceira incondicional do governo. “Ajudamos a resolver problemas de falta de carteiras nas escolas, fornecendo produtos ao Estado mesmo quando há pagamentos atrasados. A nossa causa social é garantir que não haja crianças a sentar-se em pedras e latas para assistir às aulas”.

Ainda em fase embrionária, e a enfrentar uma série de desafios que vão desde a carência ou ineficácia de infra-estruturas e meios de trabalho à formação dos empreendedores, o ecossistema de empreendedorismo em Angola vai-se compondo e fortalecendo a cada ano. Ao mesmo tempo que atrai a atenção do Governo, várias entidades internacionais escalam o país para descobrir o que de mais relevante se está a criar para o futuro em termos de negócios e serviços. A Seedstars Luanda, por exemplo, já levou à Suíça as startups Jobartis, Tupuca e Kubinga, enquanto a The Chivas Venture levou, em 2015, a Habitec a partilhar a sua história com empreendedores sociais de vários cantos do mundo. Ao nível nacional, a Unitel, a Total EP, a Embaixada dos Estados Unidos da América em Angola e, mais recentemente, a NetOne, vão promovendo iniciativas para distinguir as ideias mais empreendedores, as apps mais inovadoras e os negócios com maior escalabilidade. Erickson M’vezi, Vanda Oliveira, Joel Epalanga, Felisberto Capamba e José Carlos Santos são apenas cinco dos muitos jovens angolanos que não querem ficar para trás na desafiante tarefa de moldar o futuro do país resolvendo problemas reais das populações.

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