Ao início da tarde de hoje um grupo de jovens de várias escolas ouvia atentamente numa das salas do Palácio de Belém uma explicação simples e bem encadeada que foi uma espécie de ‘estado da arte’ sobre um dos temas mais complexos da ciência atual: a inteligência artificial.

Arlindo Oliveira, cientista, investigador e presidente de uma das maiores escolas científicas nacionais, o Instituto Superior Técnico, captou a atenção das dezenas de jovens que o ouviam sobre o processo que pode vir a dotar as sociedades de supermáquinas, donas de uma superinteligência, eventualmente capazes de superar os humanos em muitos aspetos, e que já está presente no nosso dia-a-dia em tecnologias como um aparentemente simples sistema de reservas para restaurantes, um computador capaz de se ensinar a si próprio a jogar determinado jogo ou na condução autónoma, este último exemplo ainda em aperfeiçoamento e muito controverso.

Mas vão as supermáquinas dotadas de inteligência artificial ser melhores do que os humanos em alguns aspetos ou em todos? Vão dominar-nos? Virar-se contra nós? Substituir-nos? Ficar-nos com os empregos? E vão evoluir ao ponto de terem consciência? Como as devemos tratar então? Serão máquinas com direitos? – foi uma sucessão de perguntas do lado da audiência, muito participativa, para as quais Arlindo Oliveira nem sempre teve respostas definitivas ou concretas, simplesmente porque elas ainda não existem.

Sobre os empregos foi mais fácil tranquilizar os mais novos: não está para breve uma sociedade em que as máquinas ficam com o trabalho todo, ainda que isso não fosse necessariamente mau, desde que as pessoas continuassem a ser pagas, brincou Arlindo Oliveira, que alertou, no entanto, que será mais fácil a curto e médio prazo não ter o emprego em risco se se apostar em áreas criativas e não em trabalhos de caráter repetitivo.

“Por exemplo, conduzir um camião”, disse o cientista, numa provocação ao Presidente da República, que assistiu a grande parte da ‘aula’ e que na segunda-feira acompanhou dois camionistas numa viagem de Lisboa ao Porto para conhecer os problemas do setor e dos profissionais.

Este será um tipo de trabalho para o qual a inteligência artificial poderá revelar-se como uma alternativa a mais breve prazo, apesar de a condução autónoma ser um campo problemático, com questões morais e de valores envolvidas na decisão, por exemplo, sobre quem salvar em caso de um acidente que o carro não consiga evitar.

A economia e o crescimento económico, ao serviço dos quais parece estar toda a inovação científica e tecnológica, como notou uma aluna, não poderão continuar a ser o único objetivo das sociedades, desde logo porque a rota de crescimento não pode ser eterna e constante, referiu Arlindo Oliveira, mas também porque é uma “medida incompleta da felicidade da sociedade, porque não mede as assimetrias”.

Ou seja, crescer, muito ou pouco, pode apenas significar que está a aumentar o fosso entre os mais ricos e os mais pobres, não que estamos todos a viver melhor.

Mais do que as alterações sociais inevitáveis, às quais teremos que nos ajustar e para as quais teremos que procurar constantemente novas qualificações – começando logo no reforço da computação e da programação nos currículos do básico e secundário, defendeu Arlindo Oliveira – o que deverá preocupar-nos realmente é que a inteligência artificial esteja sempre alinhada com o nosso sistema de valores.

Isto, porque, continuou o cientista, em nova provocação ao professor de Direito e Presidente da República, poderemos um dia chegar ao ponto de ter um sistema assente na inteligência artificial capaz de legislar sem qualquer intervenção humana, o que o próprio Arlindo Oliveira considerou não ser desejável, tendo em conta os princípios da democracia.

Em resposta, numa pequena intervenção perante os alunos, Marcelo Rebelo de Sousa não deixou passar em claro a provocação e disse que para os que elaboram leis – não ele, que apenas as promulga ou veta, como fez questão de sublinhar – “o grande desafio é o problema dos valores”.

“A grande dificuldade que já hoje quando se faz uma lei e quando se pretende encontrar qual é a consciência coletiva dominante, qual é o sentimento social dominante – e é difícil em muitas matérias – é no futuro encontrar a tal determinação de valores para a inteligência artificial atendendo à evolução dos valores na inteligência humana […]. Leis feitas a pensar em prazos muito curtos – e são cada vez mais por causa dessa mudança de valores – ainda assim, se demoram muito tempo na sua feitura, aquilo que eram os dados à partida muda até ao fim do processo legislativo”, disse, trazendo a problemática para atualidade, citando o caso do ‘Brexit’.

“Um dos debates que existe é: faz sentido questionar os resultados de um referendo realizado há dois anos e meio quando as sondagens mostram que a maioria já mudou? É possível estar a mudar de dois anos e meio em dois anos e meio? Ou é preciso parar e esperar um determinado tempo? […] Não é solução pensarmos: vamos travar o processo, aquele processo é perigoso, travemos”, disse Marcelo Rebelo de Sousa.

O encontro entre Arlindo Oliveira e alunos do ensino secundário fez parte do Programa Cientistas no Palácio de Belém, já na 2.ª edição e promovido pela Presidência da República para estimular o interesse dos jovens pela ciência.

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