Livro: A Conspiração Contra a América

Autor: Philip Roth

Convidado: Bernardo Pires de Lima

Jornalista: Francisco Sena Santos

Moderadora: Elisa Baltazar

Data: 15 de outubro de 2020

Ouça aqui a conversa sobre "A Conspiração Contra a América":

Para quem assistiu à sessão, que decorreu no dia 15 de outubro às 21h30, e para quem não conseguiu estar presente, este é um roteiro do que podemos aprender  - ou pelo menos compreender melhor - com o livro e com o debate que teve como convidado o analista de relações internacionais Bernardo Pires de Lima numa conversa moderada por Francisco Sena Santos e, como habitual, por Elisa Baltazar, anfitriã do clube de leitura.

Foi uma sessão com um número recorde de inscrições e participações – o que além de nos deixar felizes com a casa cheia, também significa que este é um tema em que os livros são, provavelmente, um dos melhores fios condutores.

Sobre o autor

  • Nasceu em 1933, o ano em que Adolf Hitler subiu ao poder, em Newark, New Jersey, segundo filho de uma família judaica
  • Tem uma obra marcadamente autobiográfica
  • “Goodbye, Columbus” (1959) é o primeiro livro premiado (National Book Award for Fiction)
  • “A Pastoral Americana” recebeu o Pulitzer em 1997 e é um dos livros de um personagem âncora de Philip Roth, Nathan Zuckerman (também personagem em “Casei com um Comunista”, “Mancha Humana”. “O Fantasma sai de Cena”, entre outros)
  • Roth morreu em 2018, com 85 anos, e nunca recebeu o Prémio Nobel

Sobre a história de “A Conspiração Contra a América”

  • “A Conspiração Contra a América” decorre em 1941 e é protagonizada por uma família judaica que vive em New Jersey
  • Uma das personagens principais tem 7 anos e é o filho mais novo da família central na narrativa. Chama-se Philip, como o autor do romance, e o pai é um agente de seguros (tal como o pai de Roth, na vida real)
  • O livro apresenta um retrato alternativo dos Estados Unidos, com a premissa de as eleições de 1940 terem sido ganhas por um aviador que se tornou herói do povo, Charles Lindbergh, que em “A Conspiração Contra a América” derrota Franklin D. Roosevelt
  • Charles Lindbergh, que existiu efetivamente, é na história contada por Roth um presidente com simpatias com o regime nazi e que inicia uma política de segregação nos Estados Unidos visando os judeus
  • O mayor de Nova Iorque nos anos 40, a quem Philip Roth dá voz, chama-se LaGuardia como o aeroporto, e pertence-lhe uma das frases emblemáticas do livro quando afirma que a conspiração contra a América é impulsionada pela força da histeria, da maldade, da ignorância, da estupidez, do ódio.
  • Também se encontra disponível em série, exibida na HBO.
A Conspiração Contra a América
créditos: DR | HBO Trailler

“A Conspiração contra a América” foi um livro premonitório?

  • “Acho forçado o paralelismo, embora os números de violência antissemita estejam no pique dos últimos 40 anos nos Estados Unidos. Mas a dimensão do ódio étnico-racial é anterior a Donald Trump. O presidente é um promotor e não um apaziguador das feridas abertas na América”, considera Bernardo Pires de Lima
  • “Não tenho grande apetência para teorias de conspiração, não acho que Trump seja um player no bolso do Putin ou outro qualquer como o livro do Roth faz crer na parte final com o desaparecimento do avião do Lindbergh e que faz pensar que podia ser um player do regime nazi”.

Alguns dados:

  • 70% do voto judaico está com os democratas, há atualmente uma transição do voto judaico dos republicanos para os democratas
  • O voto evangélico substitui a linha dura do voto judaico – “sem esse voto Trump não tinha ganho em 2016”, recorda Bernardo Pires de Lima
  • O papel do vice-presidente Mike Pence, “que é indestrutível aos olhos da base evangélica, até porque o próprio Donald Trump não abona muito ao voto evangélico”, é muito importante neste contexto ou xadrez.

"Americanah" - O próximo livro que nos ajuda a entender a América

Durante este mês de outubro, no clube de leitura "É desta que leio isto" estamos a discutir livros que nos ajudam a entender a América. Em parceria com a Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento, vamos ler e conversar sobre quatro livros que nos ajudam a perceber um país que se prepara para uma das mais importantes eleições da sua história. E vamos também oferecer livros a quem participar - no total, teremos 500 livros para distribuir por quem participar nas sessões.

Para participar nos próximos encontros inscreva-se através dos formulários listados abaixo:

22 de outubro, 21h: Americanah, de Chimamanda Ngozi Adichie (inscreva-se através deste link)

29 de outubro, 21h: Correções, de Jonathan Franzen (inscreva-se através deste link)

2 de novembro, 21h: Viagem ao Sonho Americano, de Isabel Lucas (inscreva-se através deste link)

E se a América estiver do lado errado da História, como é a premissa do livro?

  • “O partido republicano está refém do Trump. Foi barriga de aluguer em 2016, e em 2018 Trump conquistou-os. O partido de Lincoln morreu” – é esta a visão de Bernardo Pires de Lima
  • E sobre o partido democrata? “É um conjunto de tendências muito diferentes, mas Joe Biden conseguiu juntá-las, porque é um homem de centro, mas de classe média e a sua história não é de herança como a de Donald Trump. Vem do Delaware, não é da Ivy League, fala bem com os trabalhadores do Midwest como com os idosos da Florida ou estudantes da América profunda ou da costa leste”
  • Dependendo do resultado das eleições de 3 de novembro, pode assistir-se a endurecimento legislativo no campo dos costumes, com uma dimensão mais autoritária. “A proposta, por exemplo, de introduzir uma lógica patriótica nos currículos que vai dar ao mítico excecionalismo americano, de um país sem paralelo na história”, exemplifica o convidado do "É Desta Que Leio Isto", sublinhando, no entanto, que esta ideia “não é exclusivo da América”.
 “O pesadelo terminou, Lindbergh desapareceu, os nossos pesadelos terminaram” - Philip Roth

No final do livro, Roth escreve “O pesadelo terminou, Lindbergh desapareceu, os nossos pesadelos terminaram”. O pesadelo - ou o desamparo - da América terminou?

  • “É uma boa pergunta, com um ângulo muito europeu”, respondeu Bernardo Pires de Lima, acrescentando: “há muitos milhões americanos que estão completamente amparados”. “O nosso desamparo é o nosso desamparo”.
  • O que pode mudar neste contexto? “Há muitas transformações migratórias, sobretudo do norte para o sul, que são anteriores à pandemia”, lembrou Bernardo Pires de Lima. “Gente que vem de Nova Iorque, de New Jersey, Pensilvânia e que pode alterar a linha de voto em estados como a Georgia (Atlanta)”.
  • Trata-se, explicou, sobretudo de votos afro-americanos, protagonizados por segundas ou terceiras gerações, pessoas que estudaram, singraram em empresas tecnológicas e agora procuram melhores locais para viver, não apenas por causa das rendas elevadas da costa leste, mas por querer um modo de vida mais saudável. Por isso, mudam para estados como a Georgia ou o Texas e Arizona, onde podem alterar o perfil de um voto que tem sido dominantemente republicano.
  • Porque é que isso é importante na América? Porque, face às regras eleitorais do país, alguns milhares de votos podem fazer a diferença. Em 2016, a vitória do Trump na cintura industrial foi por 80 mil votos (Michigan, Minnesota, Pensilvânia).
  • Por outro lado, nos Estados Unidos houve quem tivesse sofrido mais com a covid-19 e quem tivesse sofrido mais com os incêndios / questões climáticas. A migração interna nos Estados Unidos atingiu 100 milhões de pessoas (1/3 da população)
  • “Os Estados Unidos são 50 realidades diferentes, porque cada estado tem problemas diferentes e olha para estas eleições de forma diferente. Washignton é a cidade mais influente do mundo, mas é uma bolha – mais paroquial do que Lisboa, tem menos habitantes do que Lisboa. Tem muitos fluxos de pessoas e é uma espécie de microcosmos cosmopolita, mas depois toda a gente se conhece. Fascinante e claustrofóbico”.

“Com Deus do nosso lado”: os americanos sempre do lado bom da história como cantaram Bob Dylan e Joan Baez? 

  • Nativistas vs cosmopolitas – “se calhar temos de aceitar que a América vai ser sempre uma mistura de perfis de vários grupos, que em alguns momentos da história é possível apaziguar e que noutros é uma panela de pressão” (Bernardo Pires de Lima)
  • Uma pergunta que se impõe com o atual cenário: quem foi presidente que mais fez pela coesão de um país com tantas divisões internas? “O patinho feio dos presidentes americanos é Lyndon Johnson. JFK e Obama foram a pedrada no charco, mas JFK foi assassinado e tudo o que Obama fez foi destruído por esta administração. Biden pode ser para Obama o que Lyndon foi para JFK”
  • Quem foi Lyndon Johnson? Um senador experiente (esteve na génese nos anos 60 do Medicare e da legislação de direitos civis em parceria com aliados republicanos)
  • Um facto que tende a ser esquecido (1): No sul dos Estados Unidos, o partido mais afeto ao segregacionismo era o democrata e não o republicano. É a partir da legislação dos direitos civis que os republicanos se implantam no sul.
  • Um facto que tende a ser esquecido (2): O muro na fronteira com o México começou a ser construído com Clinton mas só com Trump é que houve mais propaganda em torno disso. “A diferença é a narrativa do ‘inimigo’. O tema foi lançado inicialmente como uma questão decorrente do tráfico de droga – que é real”.

*With God on our side | Joan Baez

Outros autores e livros de que se falou a propósito desta conversa

“Há muitas Américas lá metidas nos livros”

Patti Smith – “O Ano do Macaco”

Bruce Springsteen – “Born to Run”

Anthony Bozza e Slash – “Slash”

John Steinbeck – “As vinhas da ira”

Flannery O’Connor - “A Good Man Is Hard to Find and Other Stories”, “Everything That Rises Must Converge”

John Williams – “Stoner”

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