Ao terceiro disco, surge o “#4”. Porquê a opção por este título?

Marisa Lis (M): Lançar um terceiro disco geralmente acusa uma pressão de confirmação, ou consagração, de uma banda. O primeiro disco é uma novidade; o segundo é um seguimento do primeiro, onde geralmente as bandas fazem uma coisa um bocadinho diferente; e o terceiro é aquele que no meio se costuma dizer 'ou vai ou racha'. Dita se a banda vai ser uma banda de sucesso durante a vida toda ou não. Há uma simbologia, no terceiro disco, para a qual nós não estávamos nada prontos. Não queríamos lançar agora o terceiro, então decidimos lançar o quarto. Depois daqui a uns anos lançamos o terceiro.

Dizias que se sente a pressão de o terceiro definir o sucesso de uma banda. Como se vocês até agora não o tivessem alcançado…

M: Obviamente que esta é uma pressão sentida, mas não ficamos sem dormir por causa disso. 

Mas sabiam que ia suscitar este tipo de perguntas?

M: Sabíamos, só não imaginávamos que teríamos de o explicar tantas vezes. Quando explicas uma vez ou duas até tem piada, quando explicas vinte já começas a pensar 'mas porque é que demos este nome ao disco?’. Estou a brincar, claro.

Tiago Pais Dias (T): Também tem um lado positivo. Se tivesse um nome banal, ninguém falava disso. 

O disco surge cinco anos depois de “(R)evolução”, de 2013. Porquê tanto tempo de intervalo? Foram estes últimos anos dedicados mais à estrada?

T: Na realidade não é assim um período tão grande de interregno de composição, porque pelo meio fomos lançando coisas. Felizmente a tournée do segundo disco foi longa, o que é muito positivo e sinal de que tivemos muitos concertos. No fundo, quando este disco surge, surge já com três singles [“Juntos Somos Mais Fortes”, “Sei” e “Procura por Mim”] conhecidos.

"Em relação ao 'Juntos'... acho que é a música mais descomprometida que fizemos. Fizemos com zero intuito de ser a música que é neste momento ou para ter essa conotação de hino."

Já haviam testado em palco os restantes temas que compõem o disco?

T: Apenas a versão do tema do Zeca Afonso, a "Canção de Embalar”. Os outros temas, acho que não. Foi tudo novidade até ao lançamento. 

Já voltamos mais à frente ao “#4". Falemos do “Juntos Somos Mais Fortes”. Têm noção que têm nele uma canção-hino, e temos poucas músicas no panorama musical português com essa força… Talvez o melhor exemplo, entre os poucos, seja "A Minha Casinha" dos Xutos. “O Juntos” foi entoado em momentos de emoções díspares como o Europeu de 2016 ou na altura dos incêndios de julho do ano passado. Como é que...

T: Antes de mais, a "Casinha" não é dos Xutos. 

Sim, é da Millu. Mas a versão que hoje conhecemos e cantamos é a dos Xutos.

T: Claro que foi imortalizada pelos Xutos e é a eles que a associamos. Em relação ao “Juntos”... acho que é a música mais descomprometida que fizemos. Fizemos com zero intuito de ser a música que é neste momento ou para ter essa conotação de hino. 

M: Foi uma música que fizemos antes do Natal e que o intuito da letra... pá, mais direto é impossível. Era realmente juntar as pessoas, uma canção à união. O Tiago fez a música e eu escrevi a letra um bocadinho dentro desse espírito. Depois percebemos que ela deixou de ser nossa, ganhou vida própria. 

T: Foram acontecendo uma série de coisas [em torno da música]. Mas tudo começou com a parte futebolística… [Euro2016].

M: Depois passou para os Jogos Olímpicos [foi o hino de apoio aos atletas portugueses nos Jogos Olímpicos Rio 2016].

T: Depois passou para a Académica. O treinador na altura ouviu-nos a tocar a música no The Voice e, numa conferência de imprensa, disse que gostava que fosse a nova música de apoio [à equipa], a que gostava que os jogadores ouvissem antes de entrar em campo.

Acredito que tenham feedback da importância de músicas vossas em momentos da vida de quem as ouve. O que é que vos dizem?

M: Acho que é aí que o teu trabalho chega a algum sítio. Houve uma ideia, uma mensagem que era para ser passada e ela chegou lá. Pode chegar de formas bastante diferentes e cada um recebe aquilo que precisa. A música mudou a minha vida, desde criança. E passou-me mensagens que me deram bastante força. É emocionante perceber que a [nossa] música faz isso a alguém. A música foi a minha melhor amiga durante muitos anos. Rever isso nas pessoas com uma música que criámos não dá para explicar muito bem. Temos muitos casos de pessoas que passaram por doenças gravíssimas, por exemplo, e que levavam o nosso disco para as sessões de tratamentos. Tivemos pessoas que vieram ter connosco só para nos darem um abraço, porque tinham ultrapassado algo e acreditavam no poder da música. Obviamente não foi a música que os salvou, mas disseram-nos coisas como: ‘o disco deu-nos a força, nem que fosse para ir’. Para ir, para estar lá, para aguentar. Este é um dos casos, há uns mais tristes, outros mais felizes. Há malta que já se casou ao som de Amor Electro ou que já foi pedida em namoro. Já aconteceu tudo…

T: Já houve pedidos de casamento em palco.

M: Já houve pessoas que passaram uma gravidez inteira a ouvir os nossos discos. Quando o bebé nasceu só podiam ouvir Amor Electro ou a criança não adormecia. O que  também é inspirador, ter um bebé que se acalma a ouvir a nossa música.

T: Isto acaba por ser um bocado cliché, a história de que a música move montanhas e a vida das pessoas. Mas na realidade é exatamente isso. Tenho a certeza que a música é um rastilho para determinados eventos. Nós estarmos aqui, a falar, deve-se a uma música, que não era nossa. Era a “Cantaloupe Island”, do Herbie Hancock. Houve um rastilho, que foi uma música, que fez com que eu conhecesse a Marisa e ela a mim. E que hoje fizéssemos música.

E foi por essas histórias que fizeram questão que os fãs fizessem parte de um dos mais recentes videoclipes?

M: Não só de um dos videoclipes como de uma das letras do disco. Há muitos anos havia uma tendência de o artista criar uma distância em relação às pessoas. De ser colocado num pedestal, diferente, acima do resto da humanidade ou qualquer coisa assim. E eu acho que as coisas começaram a estreitar um bocadinho mais. Começou-se a encurtar essa distância e a promover a partilha como uma coisa positiva. Porque quando fazes música — obviamente que a fazemos para a poder ouvir e porque curtimos muito aquilo que fazemos — se não tiveres ninguém com quem partilhar isso, não é tão bonito. Não é tão entusiasmante. Essa é a nossa intenção: fazer música em que nós acreditemos para a passar a alguém, e que haja alguém no mundo que entenda aquilo que nós andamos aqui a fazer. E que goste, e que a deixe feliz. Este videoclipe, o "Procura Por Mim", fala de uma relação, seja ela qual for — pode ser até de uma pessoa com o seu animal de estimação. Fala de um sentimento de proteção, de amor, de amizade, de segurança... Podíamos ter feito um videoclipe que representasse isso tudo de forma falsa, com acting. Mas o tema teve um percurso tão peculiar para nós… Não foi fácil desde o início, foi uma música que saiu, que demorou a apaixonar-se por nós. Porque nós apaixonamo-nos logo por ela, mas ela demorou a apaixonar-se por nós. E a certa altura apercebemo-nos que faria sentido que o video fosse composto por histórias reais. Porque é que vamos montar uma coisa quando podemos mostrar histórias reais, que na verdade são muito mais inspiradoras? É vida das pessoas. Fizemos esse convite à malta e foi assim a loucura.

A loucura em números é o quê?

M: Epá, não sei, foram mais de quatro mil entre vídeos e fotografias.

Como foi fazer essa escolha, viram tudo?

M: Eu não, confesso. Mas o Tiago esteve muito mais atento a essa parte. Quando o vídeo é montado vai-se percebendo: ‘Gosto deste plano, não gosto deste, isto tem de estar aqui, isto faz sentido que esteja aqui’. Foi um trabalho do Tiago e do Ricardo [Vasconcelos]. Mas todos os vídeos que ali estão foram realmente gravados para nós. Mesmo. Até o vídeo de África, que há quem pense que é de um banco de imagens. Não, mandaram-nos mesmo esse vídeo. Mas não dava para colocar tudo porque eram muitos.

Podiam, com esse material, fazer um filme.

M: Sim, um filme do "Procura Por Mim". Com a música como pano de fundo. Em repeat. Mas as pessoas também sabiam que iria haver uma edição e uma seleção. 

T: São três minutos e meio de música, não há espaço para tudo.

M: O mais engraçado nisto tudo é que, independentemente de o vídeo enviado aparecer no videoclipe ou não, isto foi um exercício pessoal para cada um. Porque houve muitas pessoas cujo vídeo não apareceu e que nos enviaram mensagens a dizer: 'Não apareceu, mas por causa do vosso convite eu não me via com cinco anos há quarenta anos', ou 'Não via as imagens da minha filha quando ela nasceu desde esse momento'. A questão era 'qual foi o momento da vossa vida', seja o mais triste ou o mais feliz. Ou 'qual é a pessoa da vossa vida, com quem é que querem partilhar isto'. E as pessoas tiverem de ir pesquisar, ir aos álbuns de fotos, ao arquivo do computador e do telemóvel, pediram à família... Para contar uma história através da história real das pessoas. Depois fizemos um passatempo, dirigido aos nossos fãs, para quem quisesse e gostasse de escrever, que nós iríamos musicar a letra. E foi o que fizemos. 

"Porque só quando tu és desafiada é que mudas, é que avanças. Portanto, se fosse fácil, nós não evoluíamos de todo."

Vocês têm uma ligação muito especial com o público.

M: Há várias formas de responder a isso. A politicamente correta e a verdadeira.

A verdadeira.

M: Acho que temos uma relação muito especial com o público, mas nem sempre é uma relação fácil. Nós temos a sorte de 99,9% das pessoas, quando nos abordam, quando têm alguma coisa a dizer sobre nós ou sobre a nossa música, serem coisas positivas. Como é que posso explicar... Quando digo que nem sempre é fácil é porque é uma relação que tu tens de te habituar ao outro. É quase como se tu não tivesses namorado a tua vida toda. E, de repente, não só tens namorado, como vais viver com ele no dia a seguir, casaste, tens filhos e já tens três casas, quatro carros... já é uma família. E é preciso tempo para esses sentimentos se irem acalmando e tu perceberes como é que as coisas funcionam. Digo já que o amo, não digo... Sabes, tem de haver uma gestão de sentimentos em relação àquilo que te está a acontecer. Porque nenhum de nós, e não estou a falar só de mim e do Tiago, nenhum de nós no mundo está preparado para uma coisa destas. Fazes música e tal, e tocas nuns sítios, há um grupo de pessoas que gostam da tua música mas não é um país — quando digo país não quero parecer arrogante, estou a pôr isto num caso geral. E essa relação também é trabalhada. E é este misto entre 'que felicidade, que bom termos estas pessoas a apoiarem-nos e à nossa música' e o outro lado em que às vezes não sabes bem como lidar com isso e tentas arranjar a melhor forma de o fazer. Como todas as relações... as melhores, as melhores... também não são fáceis. Porque só quando tu és desafiada é que mudas, é que avanças. Portanto, se fosse fácil, nós não evoluíamos de todo.

A banda com os fãs no final de um concerto em Viseu créditos: Facebook Amor Electro

E quando é que são desafiantes?

M: São desafiantes em alturas em que podes não estar num dia tão bom, por exemplo. É desafiante ires buscar dentro de ti uma energia que se calhar não é aquela com que tu acordaste.

Em palco ou...?

M: Em palco e fora do palco. A nossa profissão passa muito por dar. Tu estás a dar de ti. Principalmente quando estás a falar de tudo o que seja artístico, quer seja pintura, dança, teatro, cinema, música. Tu estás a dar. É uma parte de ti, da tua essência. É quase como se fosse uma parte do corpo que tu estás a emprestar a alguém. E algumas tu não emprestas, algumas tu dás para sempre. "É tua! Já utilizei, não preciso mais dela. É tua".

E às vezes tu nem sempre estás preparado ou num dia bom para dar. Todos nós. Acontece com toda a gente. Para mim, esses são os desafios maiores: é a aceitação de que eu não estou num dia bom para dar, mas, quando o começo a fazer, a coisa torna-se mais fácil. Mas nem sempre foi assim. Tivemos todos de aprender com isto. Como é que geres as situações, as expectativas das pessoas. É normal criarem-se expectativas sobre aquilo que tu vais fazer, sobre aquilo que tu és, a forma como tu vais falar. Somos todos seres humanos. Nenhum de nós é um ser especial, somos todos iguais. Todos temos as nossas inseguranças, temos dias mais cansados. É como toda a gente faz na vida: é tentar ultrapassar desafios e seres feliz ao fazer isso. Eu estaria a mentir se dissesse: "A nossa relação com o público são só coisas espetaculares". 99,9% é espetacular. Ter pessoas que gostam da nossa música, que faz sentido para elas, que até pode ajudá-las a mudar a vida delas, teres abraços constantes e teres pessoas que nos dão palavras de apoio, de carinho. Mas às vezes até é um desafio ouvir isso tudo de tanta gente. Às vezes é complicado tu pensares assim: "Eu ouço isto de tanta gente, mas, espera, eu sou normal". É gratidão misturada com o desconhecido, com coragem, com força e com amor. Só fazes e só consegues dar de uma forma sincera e honesta quando sentes aquilo que estás a fazer. Eu acho que a relação mais brutal que nós criamos com o público é quando estamos em palco: não estamos a fazer sozinhos, estamos a fazer juntos.

Voltando ao “#4”. O que é que diferencia este dos dois primeiros? A nível de sonoridade, letras... Qual é a grande diferença?

T: Sucintamente, eu acho que diferencia a altura em que foi composto. As nossas influências e aquilo que nós vivemos. Felizmente, fazemos a música que nos apetece. Temos essa regalia. Dada não só pelo nosso público, mas também pelas pessoas que trabalham connosco, nomeadamente a editora, agências, todo o mercado. Temos essa regalia de fazer exatamente aquilo que nos apetece e que nos vai na alma. Como é óbvio, a vida evolui, nós evoluímos enquanto pessoas e enquanto músicos.

M: Pelo menos, é essa a nossa intenção.

T: A evolução pode não ser sempre positiva, pode ser negativa também.

M: Achas? Agora entrávamos aqui em filosofias, mas sim.

T: Aquilo que nós pensamos agora... há muita coisa que há cinco anos pensaríamos de outra forma. A maneira como vives a tua vida é de outra forma. Vais ficando mais sábio numas coisas, menos sábio noutras. Mais paciente numas, menos paciente noutras. E isso no fundo influencia diretamente a tua criatividade e a tua maneira de fazer música. Acho que é isso que acontece: o primeiro disco surge de um lado se calhar mais naıf da nossa parte, porque não havia conceito, não havia nada, nós criámos uma coisa do zero. Não havia nada por onde tu pudesses pegar. Nós fizemos aquilo que achávamos que era fixe. E que sentíamos e que curtíamos. No segundo disco já há um trabalho feito. Continuas obviamente com esta vibe de criares na mesma, sem preconceitos, mas existe um histórico. Então, tentas criar um meio termo entre o histórico que tu tens e que queres dar a mais, e que consegues dar a mais e que achas que é pertinente. E este terceiro disco acaba por ir um bocadinho mais às raízes outra vez, se calhar.

Às vossas influências?

T: É voltarmos a perder os conceitos todos. A Marisa até referenciou isso ao início da conversa. Não consigo dizer "neste disco, musicalmente, queremos ir para ali".

M: Fomos buscar várias influências. Se o primeiro disco é muito mais pop, o segundo é mais rock, este disco é mais...

"Nós não quisemos fazer um disco pop, nem um disco rock ou eletrónico."

Há uma grande disparidade musical no disco…

M: [risos]

T: Sabes qual é a cena? Nós, quando compomos músicas, as músicas estão despidas de produção. São músicas simples, são o esqueleto da música. E a música pode ir para qualquer lado. Podes levar a música para qualquer lado. Pode ser bom, pode ser mau, mas podes levá-la para qualquer lado. Nós fomos um bocadinho atrás do que a música nos dizia. Não quisemos levar a música para um outro sítio. No fundo, deixámos a coisa fluir e quase que ficámos espantados com o resultado final da música.

M: É quase sermos leais à música, em vez de estarmos a puxar a música para o meu canto. Não, ela é que se dirige.

T: O nosso ADN é a forma como nós fazemos música. Não é a forma como ela está vestida.

Porque uma é pop a outra não tem de ser.

T: Não tem de ser. Nós não quisemos fazer um disco pop, nem um disco rock ou eletrónico.

Quiseram fazer um disco "Amor Electro”? São vocês.

T: É. Nós quisemos fazer uma conjunto de canções à nossa maneira. Mas depois, quanto à roupagem delas, quisemos ser também um bocado libertos nesse aspeto, e darmos um bocadinho mais azo à nossa imaginação.

M: E buscarmos influências que não utilizávamos há muito tempo.

T: Felizmente, somos um grupo de cinco pessoas. Todos completamente diferentes uns dos outros. Aquilo que nos une é a música, mas não é nenhum estilo.

M: E mais coisas.

T: Estou a dizer a nível musical. O que nos une é a música em geral, mas cada um tem as suas influências.

M: Os nossos estilos são diferentes.

Que influências são essas de cada um?

M: São várias.

T: Eu vou desde o Quim Barreiros aos Iron Maiden. Não tenho grandes... Claro que há estilos de que gosto mais, mas...

M: Se calhar, o estilo do Tiago e aquilo que ele traz mais para os Amor Electro é a parte anglo-saxónica e a parte do rock e a parte mais pesada e a parte mais “torta". Eu acho que nós todos ouvimos um bocado de tudo. Mas depois há uns que se concentram mais num caminho. São raras as músicas que um ouve e de que os outros não gostam. Mas já aconteceu, mais do que uma vez.

Como é que isso se resolve?

M: Não se resolve. É "tu gostas e eu não gosto".

T: Mas já aconteceu.

M: Músicas nossas? Já aconteceu já. E não vão para a frente. Basta um não gostar que não vai para a frente.

Porque se um não gostar, vai-se refletir no todo.

M: Vai-se refletir, claro.

T: Isto tem de fazer sentido para todos. É mais desafiante até. Se fores um artista a solo é muito mais fácil. Aceitares a música é mais fácil porque não são cinco pessoas a aceitar a mesma coisa. É só uma pessoa a pensar "gosto, gosto; não gosto, não gosto; entra, não entra". Quando são cinco pessoas há toda uma democracia embutida.

M: Mas geralmente é muito fácil.

T: É muito raro haver alguma música de que alguém não goste. Ou ninguém gosta ou geralmente toda a gente gosta. Somos um bocadinho unânimes nesse aspeto.

M: Como partilhamos bastantes influências, acabamos por perceber e sentir a música mais ou menos da mesma forma.

No “#4” têm ainda alguns convidados na composição, um deles o Fernando Tordo.

M: Sempre convidámos pessoas para escrever para os nossos discos, porque independentemente de sermos nós a fazer ou não, aquilo que a gente quer é ter o melhor disco possível. E acho que essa sempre foi a nossa intenção. Em vez de estares agarrado a uma coisa "é meu, fui eu que fiz tudo, sou o maior”. Nos outros discos, tivemos sempre a participação do Jorge Cruz. Portanto, neste disco, teríamos que ter novamente e está aí, no "De candeias às avessas”, e é uma pessoa com quem nós vamos gostar de trabalhar para sempre. Para nós, é dos melhores letristas que existe no nosso país. Neste disco, o Mauro começou a escrever - ainda não tinha escrito para outros. Houve algumas letras em conjunto, minhas com ele. Houve outras que ele fez sozinho. No último tema do disco, a letra tem uma participação do Fernando Tordo.

Como surgiu o convite?

M: Ninguém estava à espera. Fiz o convite de uma forma meio inocente. Nem foi bem um convite. Foi assim a ver se ele não percebia, percebendo. Ele pelos vistos percebeu e quis fazer. E foi espetacular. Há muita composição que é do Tiago, há muita produção em que as bases e a produção toda é do Tiago, mas depois as melodias são minhas, ou algumas melodias são do Mauro. Outros temas o Tiago faz do início ao fim, tudo sozinho. Mas a nossa forma de compor geralmente começa por uma ideia do Tiago e toda a base é feita na cabeça dele. Depois há alturas em que fazemos a melodia em conjunto, há outras em que ele faz sozinho, há outras que fez o Mauro... Obviamente que aqui o capitão, e quem nos leva a bom porto, é o Tiago. Ele é que produz o disco e é quem consegue encontrar no meio dos cinco, no meio de todas as nossas influências, algo em que todos nós estejamos ali representados. Seja musicalmente, emocionalmente... Somos uma banda, trabalhamos como tal, como um todo. Agora, tem que haver uma direção, tem que haver uma liderança. E isso é da parte do Tiago.

Marisa Liz em estúdio com João Tordo créditos: Facebook Amor Electro

E ao vivo, o que muda com o “#4”?

T: Nós estamos a apresentar um espetáculo novo. Na tour do “#4” mudámos toda a parte cénica. Transformámos completamente o conceito ao vivo. Nós se calhar até somos um bocadinho old school nesse aspeto. Old school se calhar não é a expressão certa… Para nós, faz sentido ser mais do que um concerto de música. Tentamos que o lado cénico ou o lado mais teatral da música também esteja representado. Portanto, tu vais ver um espetáculo e é um todo. A música obviamente é o principal, mas está envolvido num conceito, numa estética.

M: Até pelas roupas. Por tudo.

Isso é uma coisa que se foi perdendo nos últimos anos.

T: Exatamente.

M: Era tu conseguires definir. Daqui a dez anos, olhares para uma roupa nossa desta tour e saberes: "Isto foi no disco ‘#4', foi naquele período.

T: Por isso é que eu disse que é um bocadinho old school. Apesar de que há muitas bandas que também o fazem hoje em dia. Mais lá fora.

M: Acho que são bandas mais rock.

T: No fundo, a aceitação do público tem sido excelente. Para nós não podia estar a correr melhor. As músicas estão a correr bem, as pessoas estão a gostar das músicas, estão a gostar dos concertos.

"Porque música portuguesa não é só fado, nem é só música pimba, nem é só música tradicional"

Referiste a expressão "lá fora". Qual é a ligação dos Amor Electro com o mercado internacional, se é que há ligação?

T: O mercado internacional, para nós portugueses - pelo menos é essa a nossa realidade -, está dividido em dois: em emigrantes e depois o mercado internacional, propriamente dito. A parte de ir tocar lá fora para os portugueses já aconteceu várias vezes,  obviamente, e continuamos a fazê-lo. Está nos nossos horizontes eventualmente fazer qualquer coisa [no mercado internacional], tentar brincar um bocado lá fora. (risos) Mas para já estamos concentrados no “#4" e em estarmos bem no nosso país, porque também não é fácil. Apesar de sermos um país pequeno, é isso que torna também o país difícil. Porque há muita coisa. Felizmente há muito boa música, mas o país é pequeno para consumir tudo e mais alguma coisa. Portanto, torna-se também desafiante perceber como é que chegas às pessoas. Todo esse lado que não deixa de ser pertinente e bastante importante. Podes ter a melhor música do mundo, mas se não a conseguires transmitir ou se ninguém a ouvir, é a melhor música do mundo para ti. Está-se bem na mesma, mas não vai passar daí. Há todo esse trabalho que também é preciso ser feito. Agora lançámos o disco há muito pouco tempo, há muito trabalho ainda para fazer, muita estrada para fazer, muitos concertos. Mas quem sabe...

M: O futuro está em aberto.

T: Está tudo em aberto. É aquele sonho de criança.

M: De qualquer artista. Acho que o sonho, quando fazes música, é levares a tua música ao maior número de pessoas possível. Qualquer música que tu faças. Nós temos a juntar ainda o facto de que gostávamos de levar a nossa língua o mais longe possível. E que não fosse só no fado. Porque música portuguesa não é só fado, nem é só música pimba, nem é só música tradicional. Há música que se faz cá que pode ser ouvida no resto do mundo como é o fado e como é a música tradicional e como é a música ligeira.

T: Eu acho que é uma questão de mercado, mesmo. Não é uma questão de barreiras. As barreiras, supostamente, existem nos países todos. Qualquer banda que vá cantar na sua língua vai ter sempre esse preconceito, o de ir com a sua língua materna para fora do país. Mas isso acontece com vários países. Felizmente ainda não acontece connosco. Nós consumimos desde música alemã, a francesa, italiana...

Islandesa…

T: Islandesa… Sigur Rós, Rammstein - ninguém percebe o que eles estão a dizer.

M: Mas a malta ouve. Porque há uma coisa na música que é universal.

T: É. Essas barreiras foram quebradas. E agora aí vem todo um trabalho bastante importante do próprio mercado do país que consegue exportar a sua música.

M: Acho que aí também é necessário... Tinha de haver também uma intenção do nosso país de vender a nossa música lá para fora.

T: O que é que aconteceu com o Salvador Sobral?

M: De uma forma diferente.

O trabalho não é só feito pelas bandas. Tem de haver...

T: …tem de haver estruturas. O que é que aconteceu com o Salvador Sobral? Vamos imaginar que o Salvador Sobral e a música "Amar pelos dois" não tinha concorrido ao Festival da Canção. Alguma vez o mundo inteiro ia ouvir aquela música? Nunca. Como há imensas músicas fantásticas e maravilhosas, portuguesas, que nunca vão conseguir furar, porque ali usufruiu-se de uma plataforma que é mundial. Inevitavelmente, as portas estavam abertas.

M: Mas essas plataformas têm que existir de outras formas, de outras maneiras. Até porque a língua nunca foi entrave nenhum — até pelo que se vê com o caso do Salvador. Zero. Mais de metade do mundo não sabia o que é que ele estava a dizer e sentiu cá dentro aquilo que ele estava a fazer. Tal como nós irmos tocar.... É como teres quinhentos macaenses que não falam português a ouvir a tua música e no final do concerto dizerem-te: "Eu não sei do que é que tu estavas a falar, mas estavas a falar de amor". E que adoraram o concerto.

Onde é que foi?

M: Foi num teatro, agora não me lembro do nome. É muito bonito. Quando vais a outro país tocar, geralmente tocas para as comunidades. E é uma coisa de que nós gostamos muito, porque queremos mesmo mostrar a nossa música ao nosso povo, no mundo inteiro.

T: É um lado mais saudosista.

M: Até é muito estranho. Pelo menos a mim acontece-me. Eu nunca vi aquelas pessoas na minha vida, mas parece que estou à frente da minha família. É muito estranho. "Então, tio?", mas não é teu tio. Tu nunca viste aquelas pessoas. Mas há uma ligação. Somos do mesmo sítio. Depois fazem-te perguntas do género: "O Barbas ainda existe?" ou coisas que transportam para uma casa. Nós vivíamos na mesma casa. Nós não somos da mesma família, mas somos da mesma casa. Portugal é uma casa. Isto para dizer que é muito bonito quando há culturas e países que estão abertos a sentir, ponto. Sem barreiras. Independentemente da língua, independentemente do estilo. E é muito bom tocar para as comunidades portuguesas. Mas é inspirador quando vês alguém entrar no concerto ou no anfiteatro e quando dás por ti começas a ver várias pessoas que não falam mesmo a tua língua. Mas que quiseram estar ali, quiseram comprar bilhete para perceber o que é que se faz no resto do mundo. "Isto é uma banda portuguesa. 'Bora ver que tipo de som é que eles tocam'”.

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