Contactado pela agência Lusa, o presidente da Fundação D. Luís I, Salvato Teles de Menezes, membro da comissão paritária responsável pela atividade da Casa das Histórias Paula Rego (CHPR), em conjunto com Nick Willing, filho da pintora, confirmou que foi este o resultado das negociações com a família da artista plástica, falecida em junho deste ano.

A proposta da aquisição de “The Exile” (“O Exílio”) à família da pintora — por 240 mil euros — foi apresentada pelo presidente da autarquia, Carlos Carreiras, na reunião de câmara de terça-feira, e “aprovada por unanimidade”, indicou a mesma fonte à Lusa.

De acordo com Salvato Teles de Menezes, “houve uma evolução muito mais positiva nas negociações [desde agosto], e foi aprovada a compra do quadro “The Exile”, enquanto os outros dois serão uma doação da família à Câmara Municipal de Cascais”, ficando todos no acervo da Casa das Histórias.

“Durante o processo de negociação, a família manifestou o interesse em fazer uma doação desse díptico, e nós mostrámos interesse na compra de ‘The Exile’, que tem particular importância, porque possui uma dimensão fortemente política”, e está entre “as obras fundamentais da criação artística de Paula Rego [1935-2022], na década de 1960”, justificou.

Quanto à doação do díptico — que chegou a ser pensado para compra, pela autarquia, durante as negociações, iniciadas antes da pandemia –, também foi aprovada por unanimidade na reunião de câmara anterior, há duas semanas, acrescentou à Lusa.

Por outro lado, foi ainda concretizada a compra – por um colecionador privado que quis manter o anonimato – da pintura intitulada “The Circus” (1961/1962), da coleção da família, e que irá ficar em depósito na Casa das Histórias durante dez anos.

“As obras vão ser todas apresentadas na próxima grande exposição da obra de Paula Rego”, na CHPR, sob o título “Histórias de Todos os Dias: Paula Rego — Anos 70”, que incluirá outras 36 obras da pintora, provenientes de Londres, a juntar a uma seleção do acervo do museu, em paralelo com outra mostra, de diálogo com obras da artista Salette Tavares (1922-1994).

De acordo com o presidente da Fundação D. Luís I, a CHPR “tem recebido, entretanto, ofertas de outros colecionadores privados, para deixar em depósito obras de Paula Rego”, e “pelo menos cinco” vão concretizar-se, avançou.

“Aquilo que fizemos foi uma negociação demorada, com o impedimento da pandemia, e a câmara de Cascais, como qualquer entidade publica, tem os seus procedimentos de contratação pública que é preciso respeitar”, disse, sobre a duração do processo até ao desfecho.

“The Exile” e o díptico vão ser as primeiras obras de pintura adquiridas pela autarquia para o acervo da CHPR, inaugurada em 2009 para acolher, preservar e divulgar a obra da artista plástica portuguesa, composto atualmente por cerca de 600 gravuras e desenhos, contando com o universo inicial e doações posteriores da pintora – um acervo protegido pelo protocolo fundador, renovado até 2029.

Contactado pela Lusa em agosto, Nick Willing tinha confirmado a negociação com a Câmara Municipal de Cascais, e sublinhava que as duas obras em causa, “de grandes dimensões, criadas nos anos 1950, são emblemáticas” do percurso de Paula Rego.

Disse ainda que, embora tenham sido pintadas em Londres, estiveram expostas nas paredes da fábrica do pai da artista, em Lisboa.

“O nosso interesse é vender algumas obras a preços mais acessíveis ou doá-las a instituições que as acolham com as melhores condições, e que nos garantam que serão expostas ao público. Esse é o nosso principal objetivo”, disse o realizador, acrescentando que a família de Paula Rego – que possui cerca de 120 pinturas e 2.000 desenhos da criadora – quer “tentar também, sempre, que as obras vendidas sejam expostas na Casa das Histórias”, dedicada à divulgação da obra da artista.

Paula Rego morreu a 08 de junho, em casa, rodeada pelos filhos e, nesse mesmo dia, o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, depois de manifestar pesar pelo desaparecimento da pintora, destacou a importância da compra de obras da artista realizada pela Fundação Calouste Gulbenkian, pedindo ao Estado e privados que completassem essa iniciativa.

Em janeiro deste ano, a Gulbenkian tinha anunciado a aquisição das obras de Paula Rego “O Anjo”, de 1998, e “O Banho Turco”, de 1960, duas das mais emblemáticas do percurso da pintora, tornando-se a instituição privada com “o maior e mais significativo acervo da artista, constituído por 37 obras”, sublinhou, na altura.

Ao longo dos anos, a CHPR tem recebido vários pedidos de cedência de obras de Paula Rego para exibição em exposições, nomeadamente na Europa e nas Américas.

Entre os pedidos, estão instituições de referência no estrangeiro como a Pinacoteca de S. Paulo, no Brasil, o Museu de Arte Contemporânea de Monterrey, no México, a Tate Britan e a House of Illustration, em Londres, Reino Unido, o Musée d’Arts Contemporaines, em Marselha, e o Musée de L’Orangerie, em Paris.

A Fundação D. Luís I é a entidade responsável pela gestão dos equipamentos culturais da Câmara de Cascais, um conjunto que também inclui o museu dedicado a Paula Rego, cuja área artística é da responsabilidade da coordenadora da Casa das Histórias, Catarina Alfaro.

Cabe à curadora preparar a programação e as exposições, e de apresentar o seu plano a uma comissão paritária composta por Nick Willing, filho de Paula Rego, e do próprio presidente da Fundação D. Luís I, Salvato Teles de Menezes.

Nascida em Lisboa, a 26 de janeiro de 1935, numa família de tradição republicana e liberal, Paula Rego começou a desenhar ainda criança, um talento que lhe foi reconhecido pelos professores da St. Julian’s School, em Carcavelos. Partiu para a capital britânica com 17 anos, para estudar na Slade School of Fine Art.

Foi bolseira da Fundação Calouste Gulbenkian, para fazer pesquisa sobre contos infantis, em 1975, e, em Londres, conheceu o futuro marido, o artista inglês Victor Willing, cuja obra Paula Rego exibiu por várias vezes na Casa das Histórias.

A Casa das Histórias, que abriu em Cascais em 2009, num edifício construído de raiz, com projeto do arquiteto Eduardo Souto de Moura, tem vindo a realizar uma programação de exposições do trabalho da pintora e de outros artistas, sobretudo portugueses, com quem a pintora tinha afinidades.

Na sua obra, Paula Rego abordou temas políticos, como o abuso de poder, e sociais, como o aborto, entre outros do universo feminino.

O seu trabalho foi influenciado pelos contos populares e pela literatura, nomeadamente a escrita de Eça de Queirós, que a levou a pintar quadros inspirados em livros como “A Relíquia” e “O Primo Basílio”.

Em 2010, foi ordenada Dama Oficial da Ordem do Império Britânico pela rainha Isabel e recebeu, em Lisboa, o Prémio Personalidade Portuguesa do Ano atribuído pela Associação da Imprensa Estrangeira em Portugal.

Paula Rego recebeu, em 1995, as insígnias de Grande-Oficial da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada, em 2004, a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada e, em 2011, o doutoramento ‘honoris causa’ pela Universidade de Lisboa, título que possui de várias universidades no Reino Unido, como as de Oxford e Roehampton.

Em 2019, foi distinguida com a Medalha de Mérito Cultural pelo Ministério da Cultura.

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