Situado na província da Corunha, em Espanha, bem perto do norte do nosso país, há um sítio que todos os anos atrai milhares turistas pela sua beleza e cunho histórico de relevo: Santiago de Compostela. No foco das atenções está a imponente catedral, solene e altiva, cuja fachada ao estilo românico remonta aos tempos das cruzadas. Para lá chegar, há uma série de percursos possíveis. O Caminho de Torres, que começa em Salamanca, passa por Portugal, e termina neste marco geográfico do norte de Espanha, é uma das formas de, a pé, chegar à capital religiosa da Galiza.

Este caminho vale pela paisagem e pelas zonas classificadas como património da UNESCO. Partindo de Salamanca, uma das cidades patrimoniais, o trajeto castelhano leva-nos à fronteira com Almeida, já em Portugal. Daí segue-se para Pinhel, terra vinícola, até ao Douro, outro local com selo da UNESCO, e depois para Baião, onde é hora de subir ao Alto de Quintela, que traça a linha que separa o Douro e o Minho. Até que se veja a típica paisagem minhota, erguem-se cidades como Amarante, Felgueiras, Guimarães e Braga. É neste ponto que o Caminho de Torres se cruza com o caminho central português (o clássico para chegar a Santiago), passando por Rubiães, até à fronteira com Valença, que marca entrada em Espanha, por Tui. Por fim, as estradas galegas tratam de nos guiar até ao destino final.

É certo que fazer o Caminho de Torres até Santiago de Compostela está muitas vezes associado a questões religiosas. Contudo, nem só de fé se fazem os viajantes que atravessam o caminho a pé. “Todos os peregrinos de Santiago são diferentes entre si”, explica Paulo Fernandes, responsável científico pela definição do trajeto do projeto de valorização do Caminho de Torres. O professor de História da Arte da FCSH/Nova reafirma o cariz religioso deste percurso, mas refere que há outras motivações para o fazer, de natureza diversa.

“Eu já vi pessoas a fazer o caminho por motivação católica. Outras por uma motivação espiritual individual e já vi peregrinos a fazer o caminho por superação pessoal”, conta Paulo Fernandes, que frisa esta componente do desafio que é fazer quase 600 km, durante cerca de 24 dias. “O caminho é desafiante do ponto de vista físico, porque nós levamos uma mochila de 10 quilos às costas”, acrescenta.

Desafiante foi também para o espanhol Diego de Torres Villarroel. Este homem dos mil ofícios (escritor, poeta, dramaturgo, médico, matemático e professor) dá nome ao percurso – daí Caminho de Torres –, originalmente feito por si, em 1737, ao longo de cinco meses. Partiu de Salamanca com criados, mas chegou a Braga praticamente sem calças e descalço. No fim do trajeto, considerou que esta teria sido, sem dúvida, a prova mais penosa da sua vida e escreveu o livro Peregrinación al glorioso Apóstol Santiago de Galicia, onde descrevia todo o itinerário.

O motivo pelo qual Diego Torres Villarroel fez este trajeto não deixa de ser curioso. O catedrático da Universidade de Salamanca “teve um problema com a justiça espanhola e ficou exilado”, conta Paulo Fernandes. “E é nesse tempo do exílio, em que sofreu bastante em território português, que faz a promessa de ir em peregrinação até Santiago de Compostela. Quando volta ao seu antigo estatuto, quando consegue ter o perdão do rei e volta a ser professor na universidade, faz esta peregrinação”, esclarece o responsável científico pela definição deste trajeto.

O percurso de Salamanca a Santiago de Compostela que passa pelo nosso país pode considerar-se também uma viagem literária in loco. Não só pelo carimbo histórico que nos deixou Torres Villarroel, mas também pelas inúmeras referências aos vários escritores e poetas portugueses ao longo de todo o itinerário, seja porque nasceram em algumas destas terras ou porque estiveram ligados de alguma forma às mesmas.

“Alguns escritores foram mais longe nesta abordagem ao próprio Caminho de Santiago, escrevendo sobre o caminho” ou alguns pontos do mesmo, conta Paulo Fernandes. Veja-se o exemplo de Camilo Castelo Branco, Afonso Ribeiro, José Leite de Vasconcelos, Miguel Torga, Teixeira de Pascoaes, Gil Vicente, ou Aquilino Ribeiro que, nascido em Sernancelhe, já no santuário da Lapa, enquanto criança, é ensinado por um professor sobre este caminho e escreve sobre o mesmo.

Mais de dois séculos e meio depois de Diego Torres Villarroel fazer este percurso pela primeira vez, o Caminho de Torres é, para além de uma viagem espiritual, um percurso que passa por zonas naturais de tirar o fôlego e cidades pitorescas e que culmina na chegada a Santiago de Compostela.

Das planícies de Salamanca às subidas de Falperra e da Labruja, passando pela paisagem dos socalcos do Douro vinhateiro, o trajeto leva-nos ainda a vilas e cidades que servem de espaço memorial ao culto a Santiago. É nestas que se passa pela escultura mais antiga do apóstolo em Portugal, pela igreja matriz de Sernancelhe, pelo Pórtico do Perdão da catedral de Ciudad Rodrigo, ou pelo conjunto monumental de São Gonçalo de Amarante. Em Braga, as atenções estão viradas para a igreja e a fonte de Santiago. Estes são locais de peso na história ibérica, dos quais fazem ainda parte a ponte monumental de Ucanha, a cidade fortificada de Valença, ou a fonte de mergulho de Póvoa de Rei. Destaque ainda para a ponte Cavalar e o forte de Nuestra Señora de la Concepción.

O percurso está traçado, resta-nos apenas dar o primeiro passo.


Este artigo foi desenvolvido no âmbito do projeto de valorização cultural do Caminho de Torres que é levado a cabo pelas comunidades intermunicipais do Tâmega e Sousa, Douro, Ave, Cávado e Alto Minho, dinamizando, ao todo, 15 concelhos. 

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