Assim que a onda grunge se desvaneceu junto à costa, muito por culpa da morte de Kurt Cobain (figura maior do género e da subcultura, mesmo que ele não o admitisse), a juventude roqueira precisou de uma alternativa. Apostar no hip-hop e escolher um dos lados da rivalidade Este-Oeste, nem pensar. Ceder às tentações do trance ou do techno emergentes muito menos. Tinha que haver guitarras. Tinha que haver eletricidade, raiva, coração.

Se as escolhas que lhes eram proporcionadas pelo presente não lhes agradavam, havia que voltar ao passado – mesmo que esse passado soasse, inefavelmente, a presente. O punk, que já havia dado corpo ao grunge, voltava assim em força, mas desta feita sem o niilismo da sua congénere britânica. A ordem agora era a de nos divertirmos, bebermos uns copos, contarmos umas piadas e vivermos eternamente na adolescência. O sol está ali em cima e serve para nos iluminar e alegrar. E poucas pessoas gostam tanto do sol quanto os californianos.

Juntamente com bandas como os Green Day, NOFX ou Pennywise, os Offspring ajudaram o punk rock (musicalmente falado: três acordes e pouco mais) a voltar às bocas do mundo assim que o grunge passou praticamente a nota de rodapé na MTV, ocupando com sapatilhas, skates e atitude slacker (o lema geral: que se lixe) o lugar que antes pertencia à flanela e à depressão. Se o mote dantes era a seriedade, a literatura, o ativismo, havia agora que relaxar um pouco, lembrarmo-nos que há mais vida para além do medo e da tensão.

E fizeram-no através de uma dose cavalar de humor, juvenil e irreverente, sarcástico quanto baste. Meros três dias após a morte de Cobain, os Offspring editaram “Smash”, o álbum que os catapultou, nos anos 90, para o estrelato rock. A culpa foi das canções: simples, rápidas e eficazes. E de um single em particular, 'Self Esteem', que é basicamente a história do tipo que vê a sua namorada traí-lo, e que ainda assim não lhe consegue dizer que não. O tipo que ainda não criou a auto-estima suficiente para a ultrapassar, que ainda não conseguiu fazer desaparecer as borbulhas na cara, que ainda é forçado a aturar a escola e todos os brolhos que por lá habita.

'Self Esteem' foi só o começo dessa história; os brancos suburbanos aborrecidos de todo o planeta, os que procuravam um escape à anomia adolescente, encontrariam mais tarde o álbum que mais que lhes mudar a vida lhes oferecia uma espécie de punho erguido: “Americana”. Editado em 1998, o disco contém canções como o grande êxito 'Pretty Fly (For a White Guy)' (o conto eterno do puto branco que quer ser negro), 'The Kids Aren't Alright' (o outro conto eterno dos putos que não crescem), ou 'Why Don't You Get a Job?' (os casais eternos que secretamente se detestam mas que se resignam porque, francamente, não estão para se chatear).

Todas essas canções foram ouvidas esta noite, em Vilar de Mouros. Mas a história mudou; os fãs dos Offspring já não são os putos brancos suburbanos a quem se destinavam os seus principais álbuns, e sim os adultos que os quiseram reencontrar por nostalgia, porque ainda guardam na ponta da língua cada verso de cada canção. Não são os magricelas de antigamente; são os que, à semelhança do vocalista Dexter Holland, são hoje possuidores de um belíssimo dad bod.

Mas a nostalgia pode ser uma coisa muito séria. Pode ser também ela um escape, uma festa. E ao longo de uma hora e pouco não houve festa maior que a dos Offspring neste festival, tendo eles trazido consigo a boa disposição norte-americana, o humor pateta que todos tivemos a dada altura, e uma dúzia de canções certeiras, punk rock de chamada e resposta, onde cada riff e cada melodia soa a um potencial cântico de claque de futebol. Só eles fizeram com que a poeira se erguesse fina, e sobretudo eles levaram a que os bilhetes para este dia esgotassem nas bilheteiras. Se um velho amigo da adolescência nos liga para um reencontro saudável, que fazemos nós? Ignoramo-lo?

Claro que não; combinamos um café, corremos para um abraço e recordamos imediatamente todas as alcunhas e todos os momentos e todas as piadas palermas. Mesmo que esse reencontro se dê perto das duas da manhã, quando o corpo adulto e trabalhador já deveria estar dentro da caminha. Mas o jovem dentro de nós grita: que se lixe a caminha. E atirará a piada palerma: põe-te masé a caminho. Foi mais ou menos isto que disse Dexter Holland, à conversa com Noodles, guitarrista da banda: «Porque é que estas pessoas não estão na cama? / Porque sabem festejar!».

Sabem, mesmo que se tenham momentaneamente esquecido. Sabem, porque os Offspring, mesmo com várias décadas em cima do corpo, ainda têm a mesma voz e a mesma energia de antigamente, mesmo que as pausas entre canções tenham matado um pouco o espírito da coisa. Bastou-lhes entoar 'Original Prankster' e 'Staring at the Sun', qual sequência vencedora, antes de se atirarem a uma versão de 'Whole Lotta Rosie', dos AC/DC, e antes de atirarem bolas insufláveis para o meio da plateia em 'Why Don't You Get a Job?'.

A dada altura, Noodles pergunta como se diz sexy em português – e leva com essa mesma palavra. «É universal!». Sim, é. Assim como a festa. Assim como a nostalgia. Assim como a felicidade. Para o encore estavam reservadas 'You're Gonna Go Far, Kid' e 'Self Esteem', e não houve ninguém que não houvesse saído com um sorriso nos lábios, talvez praguejando apenas contra o facto de ter sido um espetáculo tão curto (mas as canções também o são: punk rock, afinal de contas). Os reencontros são bonitos. Os amigos também.

Mas a festa não foi grande só por isso; foi-o, também, porque destoou do ambiente geral que se viveu ao longo do dia, onde o charme e negrume góticos dominaram. Aqui e ali era possível observar vários indefetíveis dessa mesma cultura, a maioria armada com t-shirts do nome mais sonante dentro desse género que, hoje, atuou em Vilar de Mouros: os Sisters of Mercy, que há anos que vivem da trilogia (fenomenal) de discos que editaram em finais da década de 80: “First and Last and Always”, “Floodland” e “Vision Thing”.

A banda de Andrew Eldritch (que não se deixou fotografar) sofreu, no entanto, para se fazer ouvir – ou então foi propositado, uma tentativa de manter na sombra aquilo que nasceu na sombra. Ao contrário do que se havia testemunhado com os concertos anteriores, o som de palco estava escandalosamente baixo, obrigando a esforços redobrados para perceber o vocalista por entre clássicos como 'No Time To Cry', 'Marian' ou 'Dominion/Mother Russia'. Houve quem desistisse e aproveitasse para marcar lugar numa das muitas filas que povoavam a zona de restauração, chegando mais tarde a tempo de escutar o épico 'This Corrosion' como ele merece ser escutado: alto. Bem alto.

Pouco antes, os Nitzer Ebb levavam o gótico a um outro patamar: o da eletrónica, agressiva, industrial. Começando com ruído e graves distorcidos, os igualmente britânicos não conseguiram, no entanto, vender o seu peixe a quem não se assumia já pescetariano. Douglas McCarthy, impecavelmente vestido de preto como tantos outros ali presentes, foi dançando e gritando o mais que pôde, mas as palavras de ordem (como em 'Blood Money' ou 'Join in the Chant') e a batida quase techno afastaram mais pessoas que aquelas que conquistaram. O tema fabuloso que é 'Murderous', no final, também não conseguiu puxar, sedutora e fetichisticamente, pelas ancas do público. Foi pena. Mereciam muito melhor.

Sobre o merecer, os Clan of Xymox mereciam se calhar um outro horário; um final de tarde não é o melhor período para apreciar devidamente (algumas das) canções melodramáticas que ajudaram a editora 4AD a criar fama nos anos 80. A banda, que se disse «honrada» por estar presente no festival e que se assumiu como «uma banda pequena» (uma falsa humildade: é sabido o quanto valem discos como “Twist of Shadows”), foi mostrando temas novos (como 'Your Kiss') e antigos (como 'Louise'), ao mesmo tempo que garantia não ser «uma banda gótica» e sim «uma banda pop/rock». Claro que sim, claro que sim.

Fora do espectro gótico, os House of Love regressaram a Portugal para mostrar uma pop harmoniosa e melódica, completa com alguma distorção, como em 'Christine', sucesso alternativo do início dos anos 90. O ruído, aliado ao groove, fez despertar corações – e alguns fãs mais acérrimos puderam ser vistos junto às grades, à espera que a banda acedesse a discos pedidos ou se permitisse dar autógrafos em discos. A suavidade de 'Plastic' dá lugar a 'Fisherman's Tale', 'I Don't Know Why I Love You' e à magnífica 'Love in a Car', antes da despedida do palco de uma banda que tem, urgentemente, de regressar em nome próprio.

Nome – e grande – é o dos Skunk Anansie, que foram uma espécie de corpo alienígena na medida em que não os poderemos colar a quaisquer subculturas musicais, sejam góticos, punks ou indies da velha guarda. “Alienígena” é, também, a figura da vocalista Skin; não pelo físico, mas pelo facto de nos parecer humanamente impossível alguém ainda possuir aquela voz maior que o mundo e aquela energia inesgotável quando se passam já 25 anos desde o início da sua carreira.

Sem disco novo para apresentar (houve um single novo, 'What You Do For Love', apesar de tudo), os Skunk Anansie viram-se obrigados a recorrer ao seu arsenal de êxitos antigos. Não que o público de Vilar de Mouros quisesse outra coisa... Tal como Skin não quis mais que surpreendê-lo e abraçá-lo, descendo por várias vezes do palco para cantar junto à grade metálica que o separa da audiência, por entre a qual chegou a passear-se, como uma Rainha de Sabá ou um Cristo negro, após a mandar sentar-se e calar-se.

O público respeitou-a, porque não há como não respeitar alguém que parece dar tudo de si a cada um dos temas que vai discorrendo. De 'Weak' a 'My Ugly Boy', passando por 'Secretly' e 'Hedonism', duas canções essenciais para perceber a que soava a rádio no final dos anos 90, não existiu um momento que fosse em que se pensasse que a pilha iria acabar. E Skin ainda arranjou espaço, no meio da conquista, para lançar um apelo: cuidemos dos imigrantes e dos que são “diferentes”. «Vamos triunfar sobre os fascistas!», exclamou. 

O EDP Vilar de Mouros termina este sábado com concertos de Prophets of Rage, Linda Martini e Gogol Bordello, entre outros. Os bilhetes estão à venda nos locais habituais, pelo preço de 35 euros.

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