Chegado à sua terceira edição, o MIL mantém a sua aposta entre concertos e conferências, tendo como elo comum a música. Ao longo de três dias, nove salas de espetáculos e clubes situados no Cais do Sodré vão receber 70 artistas vindos de 16 países, apostando principalmente em valores emergentes, tanto nacionais quanto internacionais.

Um dos grandes destaques musicais do MIL recai no espetáculo de abertura do festival no dia 27, que inclui duas vozes situadas em campos diametralmente opostos. De um lado, Lula Pena, cantautora e poetisa portuguesa, dona de um percurso singular e rico entre o Fado e a World Music, com particular apetência pelas sonoridades brasileiras. Do outro, Letrux, nom de guerre assumido por Letícia Novaes num projeto de pop provocante e inspiração queer que levantou ondas no Brasil, tendo o seu álbum “Letrux Em Noite de Climão” (2017) sido granjeado com um Prémio Multishow.

Entre variadas performances, uma das mais esperadas é o regresso de Pongo. Depois de ter imortalizado a sua voz ao cantar o tema Kalemba (Wegue Wegue) dos Buraka Som Sistema em 2008, a cantora angolana voltou aos lançamentos com o EP Baia, editado no final do ano passado. É com temas como “Tambulaya” e “Kuzola”, aliando Kuduro as correntes contemporâneas da música eletrónica, que vai procurar meter o Musicbox a dançar.

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Falando em Angola, esta edição do MIL conta também com o retorno de Toty Sa’med a Portugal, depois de ter sido convidado por Salvador Sobral para partilhar consigo o palco no EDP Cool Jazz de 2018. O cantor e multi-instrumentista, parte integrante da geração da Nova Música Angolana, traz o semba do passado para o presente, de cara lavada e novas roupagens, no mais improvável dos locais para fazê-lo: o Viking.

Mantendo o foco na lusofonia, da Bélgica chega um exemplo da diáspora nacional espalhada pela Europa. Blu Samu foi o nome assumido por Salomé dos Santos para enveredar numa carreira gravitando entre o hip-hop e o r&b, apresentando esta junção no Lisboa Rio. Apesar de cantar em inglês, a rapper tem vindo a afirmar-se na cena de Bruxelas, cidade para onde emigrou, de tal forma que já foi convidada para cantar no influente canal de Youtube Colours.

Um pouco mais a norte, e trocando os beats pelas guitarras, os The Homesick vêm da Holanda para o Sabotage com uma abordagem bem humorada ao Post-Punk, ou não tivessem temas carregados de sarcasmo como “The Best Part of Being Young is Falling in Love with Jesus” ou “Gucci Gucci”. Não obstante a atitude despreocupada, a qualidade do trio, natural de Dokkum, não passou despercebida a publicações como o The Guardian ou websites como o The Quietus.

Outro espetáculo a manter debaixo de olho é o de Edgar, rapper natural de Guarulhos, cidade do estado de São Paulo. De esquema rimático pouco ortodoxo, por vezes desembocando no spoken word, o artista apresenta-se com uma visão singular, aliando uma postura política a temas futuristas, beats não menos invulgares e aos figurinos que constrói a partir de lixo para envergar ao vivo. A colaboração que assinou com Elza Soares em 2018 propalou-o para o mediatismo, lançando depois o seu álbum de estreia, “Ultrassom”, lançado em 2018, cujos temas vai apresentar no Musicbox.

Para além dos nomes acima mencionados, há um contingente de artistas nacionais que vale a pena prestar atenção nesta edição do MIL, do rock alternativo dos Cave Story e dos PAUS ao hip-hop carismático do Conjunto Corona, das descargas psicadélicas dos Solar Corona às demonstrações de virtuosismo acústico de Filho da Mãe, passando pela pop dançável e cosmopolita de Blaya e do inevitável e eurovisivo Conan Osíris.

Os concertos vão estar espalhados por nove salas de espetáculos e clubes noturnos no Cais do Sodré: Estúdio Time Out, Lisboa Rio, Lounge, Musicbox, Roterdão, Sabotage, Viking, Titanic Sur Mer, Tokyo e B’leza.

As conferências

Mas nem só de música se faz o MIL, ou melhor, de música ao vivo. Procurando afirmar-se cada vez mais como uma cimeira de discussão sobre as mais variadas vertentes da indústria musical, o MIL vai organizar mais de 30 debates, masterclasses, workshops, debates e keynotes a acontecer em diferentes espaços do Palacete dos Marqueses de Pombal, localizado na Rua das Janelas Verdes em Santos.

Uma das conversas seguramente a ter em conta é a que José Mário Branco vai ter com Gonçalo Frota, jornalista de música que escreve para o jornal Público. Figura maior da canção nacional e, em particular, da música de intervenção portuguesa, o cantautor vai não só falar sobre a sua extensa carreira, como também partilhar as suas visões sobre o atual panorama artístico e musical do país.

No plano internacional, outra importante personalidade a marcar presença no Palacete dos Marqueses de Pombal é Pete Kember. O britânico possui um legado que tanto pode ser avaliado enquanto músico em bandas como os Spaceman 3, os E.A.R. ou o seu projeto a solo, Sonic Boom, como enquanto produtor de vários álbuns da cena indie, como “Congratulations” dos MGMT, “Panda Bear Meets the Grim Reaper” de Panda Bear e “7” dos Beach House. É com este acumular de bagagem que vai dialogar com Joaquim Quadros, radialista na Vodafone.fm.

Contudo, não são apenas músicos aqueles que vão partilhar experiências, havendo importantes contributos de quem ajudou a formar o atual panorama musical. Esse é o caso de Pena Schmidt, produtor musical brasileiro de importância fulcral na cena rock de São Paulo, tendo trabalhado com Os Mutantes e produzido álbuns para os Titãs, Ira! e Ultrage a Rigor. Para além disso, trabalhou como diretor de palco e como executivo na Warner Music, fundou a editora Tinnitus e foi presidente da Associação Brasileira da Música Independente. Por conhecer os meandros da indústria como poucos, vai revelar os seus conhecimentos junto de Henrique Amaro, jornalista da Antena 3 e responsável por vários projetos de âmbito musical em Portugal, entre os quais a fundação da plataforma digital NOS Discos.

Sendo também um certame destinado a discutir sobre o panorama musical da atualidade, haverá também algumas conferências centradas nos mais variados aspetos da indústria, desde o merchandise até como ter a melhor alimentação possível quando se anda em digressão. Duas das mais prementes relacionam-se com o futuro desta arte. Em "Why Are Playlists More Important Than Ever", o assunto vai ser a playlist nas plataformas de streaming enquanto meio privilegiado de promoção e a importância do curador neste processo, que está a mudar a forma como se consome, distribui e cria música. Já em "European Copyright Reform: What’s Going On?", o painel - que inclui Christine Nitsch, VP Strategy & Analytics da plataforma Soundcloud, e Sofia Alves, Chefe de Representação da Comissão Europeia em Lisboa - vai tentar clarificar de que forma é que a questão dos direitos de autor, prevista no controverso artigo 13º, pode afetar o ecossistema musical.

Mais do que conversas, o MIL também vai dispor de várias masterclasses, salientando-se aquela que Simon Reynolds, crítico musical de renome, vai dar sobre o jornalismo associado a esta área. Aliando análise musical a crítica cultural, o britânico iniciou a sua carreira nos anos 80 na revista Melody Maker e, desde então, colaborou com meios como a Pitchfork, o The New York Times, a Rolling Stone ou a The Wire, construindo também uma sólida bibliografia. Reynolds virá então partilhar ferramentas e métodos que aprendeu na área, comentando também o atual estado da profissão.

De realçar que apenas o bilhete Pro dá acesso às conferências e workshops ao longo dos três dias, tendo um custo de 70 euros. Já o bilhete de Festival, que garante entrada nos concertos, fica a 20 euros. Contudo, se quiser comparecer no espetáculo de abertura protagonizado por Letrux e Lula Pena no dia 27, terá de optar pelo bilhete Festival Gold, cujo preço são 30 euros. Consulte os horários dos concertos neste link e das conferências aqui.

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