Se hoje lermos a obra mais importante do romantismo português «Viagens na minha terra» de Almeida Garrett, escrita no século XIX, vislumbramos a personalidade única da cidade de Santarém, que mantém as marcas de um passado imponente num presente que procura essa identidade. Vítor Barreto, coordenador pedagógico da Universidade da Terceira Idade de Santarém confirma a atualidade do retrato de Garrett e acrescenta a contradição vivida pela cidade das sete colinas, «vive à custa da sua história, contudo expõe a decadência e pouca preservação desse património».

Santarém viveu períodos áureos, afirmando-se como uma marca importante na história da reconquista cristã em 1147. Situada num planalto, foi assumindo o seu valor estratégico de defesa militar fortificado por muralhas. O papel de relevo é evidente na I Dinastia, tendo sido aqui assinado o Tratado que estabelece a paz entre o Rei de Castela e D. Fernando I. O monarca, um amigo da terra, ficou conhecido como o rei protector de Santarém e após a sua morte, foi sepultado no Convento de São Francisco, ao lado da sua mãe, a Infanta D. Constança.

Um roteiro literário para inspirar uma visita a Santarém

Livros de um amigo da terra

  • Viagens na Minha Terra, de Almeida Garrett, edição: Porto Editora

Vou nada menos que a Santarém: e protesto que de quanto vir e ouvir, de quanto eu pensar e sentir se há de fazer crónica.

E assim nasceu a obra que viria a ser o marco do movimento romântico em Portugal. A narrativa de viagens (o percurso de Lisboa a Santarém) enreda-se na perfeição com a novela trágica de Carlos e Joaninha e ainda com todas as singulares e geniais divagações e reflexões de Garrett sobre o estado do seu país.

  • Frei Luís de Sousa, de Almeida Garrett, edição: Editora Guerra & Paz

O enredo da obra parece ter sido inspirado na vida do próprio escritor, mas a acção desenrola-se nos finais do século xvi, tendo como pano de fundo a resistência ao domínio filipino e a figura do próprio Frei Luís de Sousa, nome adoptado por Manuel de Sousa Coutinho. 

As escolhas da equipa Aqui Há Gato!

  • Uma aventura no ribatejo (Editorial Caminho)

Ainda haverá cavalos selvagens em Portugal? E touros bravos? As gémeas, o Pedro, o Chico e o João, no caminho para umas curtas férias de Inverno no Ribatejo, não falaram de outra coisa!
- Esta planície calha mesmo bem para uma boa cavalgada!
- E a galope desenfreado...
Os primeiros cavalos que avistaram corriam entre a margem e uma ilhota do rio Tejo, espalhando em redor nuvens de água luminosas. Aproximaram-se tão entusiasmados que o Faial nem ladrou! Mas o que descobriram deixou-os assombrados... Estariam a ver bem?

Chamo-me Pedro Álvares Cabral (Editora Didatica)

(Nota: Morreu em Santarém)

«El-rei deu-me instruções muito rigorosas, específicas e detalhadas num documento chamado regimento. No essencial, a minha missão era a de estabelecer laços diplomáticos firmes com o Samorim de Calecute, na sequência da primeira viagem de Vasco da Gama, e instalar um entreposto comercial (ou feitoria), regressando com o maior número e valor de mercadorias que pudesse. Mas, e isso será um mistério que nunca se revelará, havia a possibilidade secreta de oficializar a descoberta por parte dos Portugueses de terras que teriam descoberto anteriormente ou que delas já tivessem conhecimento: O Brasil.»

Ulisses (Porto Editora)

(Nota: escolhi este porque há uma lenda em Santarém que diz que Ulisses visitou o castelo de Santarém e apaixonou-se por Calipso, a filha de Gergoris)
«El-rei deu-me instruções muito rigorosas, específicas e detalhadas num documento chamado regimento. No essencial, a minha missão era a de estabelecer laços diplomáticos firmes com o Samorim de Calecute, na sequência da primeira viagem de Vasco da Gama, e instalar um entreposto comercial (ou feitoria), regressando com o maior número e valor de mercadorias que pudesse. Mas, e isso será um mistério que nunca se revelará, havia a possibilidade secreta de oficializar a descoberta por parte dos Portugueses de terras que teriam descoberto anteriormente ou que delas já tivessem conhecimento: O Brasil.»

Segredo do Rio
À inquietação de um dos filhos em saber por que é que as estrelas não caem do céu, Miguel Sousa Tavares escreveu este "O Segredo do Rio", uma história sobre a amizade entre um menino e um peixe. Sem uma vertente moralista, esta é uma obra de aprendizagem da vida e dos seus mistérios, das relações humanas e da descoberta de sentimentos.

Aqui Há Gato Ed Orfeu Negro

(eh eh eh...não fomos nós que escrevemos, mas escolhi pelo nome)
El-rei Dom Chato calçava sempre a bota direita antes de calçar a esquerda, penteava-se sempre à mesma hora e fazia sempre o risco para o mesmo lado.
Um dia, a Dona Cristina, farta de tanta rotina, disse: BASTA!
Colando, desenhando e inventando a partir de simples códigos de barras, Renata Bueno ilustra esta divertida cantilena sobre virar a rotina de pernas para o ar.

Gozando de uma localização central e de um clima ameno, Santarém atraiu vários monarcas, evidenciando-se como cenário para as cortes do reino. Hoje, é também um cenário imperdível, “a chegada pela Ponte D. Luís I à noite, olhando as muralhas da Porta do Sol da cidade iluminada, que intensificam uma ideia poética combinando o medieval e o romântico», concordam Vítor e a sua sobrinha, Catarina Galveias Almeida. Inaugurada a 17 de Setembro 1881, a Ponte de Santarém como é designada, retoma a hegemonia da cidade, depois de ser elevada a essa categoria em 1868, pelo decreto de rei D. Luís I assinado pelo Marquês de Sá da Bandeira, nascido lá.

Cidade que ao viajarmos pela A1 é identificada como a “Capital do Gótico” português. O nosso guia esclarece «há quem ache que vamos ver grandes catedrais de um gótico flamejante como Notre Dame e pode sentir alguma desilusão. O património demonstra a riqueza arquitectónica de um gótico mendicante e é o pioneiro das primeiras linhas do românico para o gótico». Em pleno centro histórico da cidade, situa-se um dos monumentos mais exemplares do gótico no país, a Igreja de Santa Maria da Graça, onde se encontra sepultado o descobridor Pedro Álvares Cabral.

A cidade acolheu um vasto número de conventos, hoje muitos deles em ruínas ou mantendo apenas parte de algumas dependências conventuais, como é a Igreja de Santa Clara, que figura como um símbolo do gótico mendicante de Santarém a par com o Convento de São Francisco, que foi recuperado e é um exemplar completo. Catarina recorda que se contava em segredo que existiam ligações subterrâneas de vastos túneis que uniam o Convento de Santa Clara e o Convento de São Francisco.

Parece próximo do que Garrett referia em pleno século XIX, sobre a degradação do património e da urgência na intervenção. Exemplo disso é o Presídio Militar de Santarém, prisão militar «construída com as pedras do antigo Convento de São Domingos, objeto de demolição para um projecto de uma Praça de Touros», conta Vítor. Acrescenta que «o edifício é lindíssimo, a arquitectura e cúpula são de uma beleza magníficas, para além da história associada à sua função de prisão política». Aqui esteve Otelo e também estiveram inúmeras equipas de produção de filmes e telenovelas que escolhem este edifício pelo seu estado de envergonhada ruína ainda mantendo os traços da sua individualidade arquitéctonica.

Que o Presídio não tenha o mesmo fim da Escola Prática de Cavalaria de Santarém, é a opinião unânime de tio e sobrinha, à qual se junta Sofia Vieira, fundadora da Livraria Aqui Há Gato, eleita este ano como a livraria preferida dos portugueses. Todos recordam que foi daquela Escola, que saiu a chaimite de Salgueiro Maia em direção a Lisboa.

E é com Lisboa que Santarém comunga a importância do Tejo e a sua ligação ao rio, ao nível económico e social. A Ribeira de Santarém chegou a ser o segundo porto de comércio de Portugal e é na atual capital que encontramos a Rua de Cais de Santarém, a lembrar a hegemonia da cidade escalabitana, com os seus grupos sócio-profissionais dedicados a mostrar a preponderância económica dos minérios, produtos agrícolas e do rio bem como a dinâmica e movimento nesta zona do Ribatejo.

A chegada do comboio impactou a paisagem bem como o modo de vida das populações, cortando o laço económico com a ribeira e caracterizando Santarém com um estilo de vida profundamente agrícola, fechado sobre si mesmo. Contudo, a Porta do Sol abre para um dos quadros mais idílicos em Portugal, a lezíria e o Tejo.

Aliás, diz-se que a unicidade desta cidade do Ribatejo explica-se ao combinar um espaço ribeirinho que dá a mão ao Tejo e o planalto, a zona alta. Sim, e «é para cima que me diziam para olhar para conhecer Santarém», recorda Catarina. A sobrinha de Vítor recorda que, ao palmilhar as ruas na sua infância, insistiam que olhasse para os beirais, os ferros forjados e os varandins, sempre lá no alto.

Habituado a organizar visitas pela cidade, o professor desvenda que «a magia de Santarém reside em descobrir cantos e recantos, calcorreando as ruas, de manhã e especialmente à noite, para nos perdermos no silêncio da história que se conta a cada esquina». Esta abertura à história, ao recolhimento da sua antiguidade estão presentes na morfologia do centro histórico «que mantém a traça original desde o século XII ou até antes».

Centro histórico que é motivo de orgulho para Sofia, é onde nasceu, vive e trabalha. É também aqui que se localiza a Livraria Aqui Há Gato, que convida todos a caminharem e brincarem, seguindo as patinhas de um miau que se terá deslumbrado pelo centro histórico e o terá dominado com orgulho. A fundadora sempre soube que a Aqui Há Gato teria de ser mais do que uma livraria, «não podia ser só o livro o motivo da visita, o livro fechado é um mundo a descobrir», diz com um entusiasmo contagiante. É um projeto cultural com as suas oficinas de teatro de fantoches, teatro da luz negra, hora do conto, para nomear alguns. Estabelece as rotinas da cidade e do mundo. Sim, em tempo de confinamento, a hora do conto abriu-se ao mundo fazendo uso das novas tecnologias e hoje, a Aqui há Gato é mais do que uma livraria em Santarém, é um mundo de alegria na dedicação e na doçura da missão.

O Vale de Santarém é um desses lugares privilegiados pela natureza, sítios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situação, tudo está numa harmonia suavíssima e perfeita

E é também a doçaria que deixa rendida Sofia com os arrepiados, as celestes e os pampilhos que fazem as delícias dos visitantes e dos residentes. Catarina também diverge para a gastronomia que chama muitas pessoas à cidade para confortar a curiosidade da barriga. É também conciliando a gastronomia, a história e a literatura que Vítor organiza jantares temáticos. O último foi queirosiano, onde os pratos servidos são inspirados e referenciados nos textos de Eça de Queiroz, que também acompanham a refeição com a sua leitura. O conhecimento do professor combinado com a originalidade dá balanço a um programa comemorativo dos 100 anos do dramaturgo Bernardo Santareno planeado para novembro.

Terminamos como começamos, com Garrett que descobriu a beleza desta cidade do Ribatejo e de como em silêncio pelas ruas já se ouviam as histórias que as pedras guardam: «O Vale de Santarém é um desses lugares privilegiados pela natureza, sítios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situação, tudo está numa harmonia suavíssima e perfeita: não há ali nada grandioso nem sublime, mas há uma simetria de cores, de sons, de disposição em tudo quanto se vê e se sente, que não parece senão a paz, a saúde, o sossego do espírito e o repouso do coração devem viver ali, e reinar ali um reino de amor e de benevolência. As paixões más, os pensamentos mesquinhos, os pesares e as vilezas da vida não podem senão fugir para longe. Imagina-se por aqui o Éden que o primeiro homem habitou com a sua inocência e com a virgindade do seu coração.»

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