Como reagir quando os críticos não apreciam a sua obra? Uma hipótese é ignorá-los, continuar a trabalhar com as mesmas convicções e considerar apenas opiniões de pessoas que lhe interessam. Outra via pode passar pela recriminação e adaptação ao estilo vigente. Eric Hebborn foi mais longe: quis arrasar o circuito artístico que o rodeava. Como? Falsificando obras durante anos a fio, vendendo-as a galerias e museus sem que estas tenham percebido a fraude.

As falsificações nasceram por vingança

Uma das razões da vingança é contada no livro "The Art of Forgery", de Noah Charney. Dos mais de sessenta falsificadores presentes no livro, Eric Hebborn é o que desperta maior fascínio ao escritor. “É o único que está ao nível dos autores originais”.

A história começa quando um negociador londrino compra a Eric um desenho seu e o vende, passado pouco tempo, por um valor muito superior. Ou seja, as suas obras originais não despertavam grande interesse da crítica mas, feitas as contas, eram valiosas. Sentiu-se enganado e decidiu vingar-se. O ponto era: se enganasse os “supostos” especialistas, Hebborn provaria que estes não percebiam nada do assunto, justificando assim que não gostassem do seu trabalho.

Hebborn estudou na Royal Academy of Arts, de Londres, onde ganhou vários prémios, entre os quais uma bolsa para Escola Britânica em Roma, cidade onde viria a morar mais tarde. É em Londres que faz os primeiros restauros - primeiro a compor desenhos estragados e, mais tarde, a replicar pinturas a partir de telas em branco. Depois, trabalhou numa tipografia, o que o ajudou a conhecer melhor os vários tipos de papel. Nas falsificações, para além de imitar a técnica, usava também os mesmos materiais das obras originais. Papel, tintas, pincéis. Este foi um dos grandes segredos que levaram ao sucesso das falcatruas.

Ninguém ousou processá-lo

Nem todos compradores terão sido verdadeiramente enganados, mas, porque as relações no mercado de arte dependem em grande medida do capital de credibilidade, se os especialistas admitissem o engodo estariam a estragar a sua reputação. Os clientes, por outro lado, na opinião de Noah Charney, estão mais preocupados com o prestígio de ostentar uma obra de arte do que propriamente em apreciá-la. Nunca ninguém apresentou queixa, nem Hebborn foi condenado, porque as cópias eram tão verosímeis que era muito difícil provar-se judicialmente a fraude. Era mais fácil que quem fizesse a queixa fosse condenado por difamação.

É o próprio Eric que explica, na sua autobiografia, "Drawn to Trouble" (1991), a facilidade com que enganava os especialistas, movidos pela ânsia de ganhar dinheiro rapidamente. O livro foi publicado numa altura em que algumas falsificações já tinham sido descobertas, mas, ainda assim, Hebborn garante que várias pinturas que ainda eram tidas como genuínas eram, de facto, suas. Falamos de obras de mestres como, por exemplo, Anthony van Dyck, Nicolas Poussin, Peter Paul Rubens, Giovanni Battista Tiepolo, referências nos seus estilos.

Falsificar por uma questão de princípio

Para além de que, sem confissão, nunca seria possível que grande parte do talento lhe fosse atribuído, Hebborn fez questão de se acusar para ridicularizar o circuito de críticos, historiadores e vendedores de arte. Brian Balfour-Oatts, que trabalhou com ele nos últimos anos de vida, mostrou ao The Guardian uma cópia manuscrita do livro que Hebborn estava a escrever antes de morrer, em 1996. Em “The Language of Line”, cujos excertos o jornal publicou, lê-se que, para ele, os especialistas não conseguem ir além de observações superficiais. Quando têm de se alongar para lá da ficha técnica (o tema, quem desenhou, quando, com que materiais), ficam-se por termos básicos como “belo, poderoso e magnífico” para elogiar; ou “feio, fraco e pobre” para reprovar. Hebborn comparava os críticos, que julgavam perceber de desenho sem saber desenhar, a quem pensa que sabe como funcionam os aviões só por voar neles.

Chamava-os de presunçosos, por saberem tudo sobre desenho… menos desenhar. Este livro foi leiloado por 3.600 libras, talvez por se pensar que continha pistas para descobrir as falsificações, mas para Brian Balfour-Oatts é sobretudo um manifesto político, como que uma denúncia da podridão do mundo da arte.

O crivo da National Art Gallery de Washington descobriu uma falsificação em 1984, mas o nome de Hebborn nunca foi mencionado. Há oito quadros dele inscritos no Art Loss Register, um banco de falsificações. Número muito modesto comparado com as mais de mil que diz ter vendido. O que quer dizer que muitas das obras continuam ainda expostas.

Dentro de toda esta mentira há, contudo, um princípio. Hebborn garante não vendia as obras por dinheiro, e só as vendia a especialistas, não queria enganar mais ninguém. Morreu em Roma em 1996, presumivelmente assassinado com um golpe na cabeça, ainda que a morte esteja envolta em mistério. No obituário publicado pelo Independent, o jornalista e poeta Barry Cole descreve-o como uma pessoa generosa, leal e, “contra todas as evidências”, honesta. Na mesma página, Geraldine Norman, jornalista e crítico de arte, avisa que Hebborn deixou algumas pistas muito subliminares nas obras falsificadas. Escreve que Hebborn agiu por “ressentimento”, mas que tinha um conhecimento brutal sobre a história da arte e fez corar de vergonha muitos estudiosos.

A título póstumo, publicou "The Art Forger's Handbook" (1997), e este sim, revelava com detalhe alguns dos truques e segredos das falsificações. Não se iluda, não é minimamente fácil. Quem o garante é o jornalista do Telegraph Henry Porter, que imitou todas as técnicas descritas - que incluem processos com calor, água, chá, café, azeite, pão, manteiga e leite - mas nem assim foi além do total fracasso. Para além da falta de técnica, o que distinguiu Hebborn foi, na opinião do jornalista, sobretudo a paciência.

Em 2014 algumas peças de Hebborn foram leiloadas, agora já sem enganos, por mais de 50.000 libras.

Veja aqui alguns trabalhos de Hebborn.

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