Na edição especial que sairá a 2 de março, há um ‘cartoon' para o qual o proprietário do jornal, Lino Vinhal, chama a atenção: a Rainha Isabel, que, em vez das flores, mostra a D. Dinis as páginas do semanário de Coimbra.

"Manter um jornal durante 100 anos na província só mesmo por milagre", frisa Lino Vinhal, também administrador do grupo Media Centro, que entende que é a "ligação afetiva extremamente forte" que o jornal tem com os seus colaboradores e leitores que o tornam especial.

Há um colaborador que escreve de forma ininterrupta há 65 anos para o jornal, que em tempos foi bissemanário, e há leitores que compram O Despertar há 70 e há 50 anos.

Não é só uma questão de idade, disse à agência Lusa Lino Vinhal. O jornal "traz agarrado a si, acoplado a si, um património histórico de Coimbra e de pessoas que nenhum outro no grupo tem condições de reivindicar".

O jornal foi fundado em 1917 por João Henriques, tendo passado nos anos 1930 para as mãos de António de Sousa, funcionário da casa, que se entregou ao projeto e foi passando essa paixão pela família, com o jornalista e político socialista Fausto Correia a ser o último da família a assumir a direção do jornal.

Em 2008, após o desaparecimento de Fausto Correia (morreu em 2007), o jornal foi comprado pelo grupo Media Centro, também proprietário de outro semanário de Coimbra, o Campeão das Províncias.

"O compromisso, se [o jornal] me viesse a cair nas mãos, era de o levar até ao centenário. Deixou de ter prazo de validade. Eu pensava que o tinha, mas com o ânimo que sinto, sinto-me herdeiro desse legado obrigacional de prolongar o jornal até onde ele puder", conta Lino Vinhal.

A publicação nasceu muito ligada aos futricas e vincou sempre o seu cariz local - de defesa de Coimbra - e até hiperlocal, com um foco particular na Baixa e nos Olivais, freguesia da família que durante muito tempo foi proprietária da publicação.

A 2 de março, dia em que assinala os 100 anos, O Despertar vai para as bancas com uma edição especial de cerca de 70 páginas, que conta com colaborações de "amigos" do jornal, uma mensagem do Presidente da República e muitos carateres dedicados ao percurso do jornal.

Para as celebrações dos 100 anos, haverá também uma tertúlia, um almoço de convívio entre colaboradores e um lançamento de um livro sobre a publicação, entre outras iniciativas.

"Olhando para a história, é uma luta permanente para se chegar aqui", constata a diretora e única jornalista da publicação, Zilda Monteiro, que encontra nos 100 anos muitos episódios de "dedicação", motivados por "falta de dinheiro e até falta de colaboradores".

Zilda Monteiro, que está a trabalhar no jornal de forma efetiva há 15 anos, salienta que os assinantes são uma das forças do jornal.

"Há uma relação de afetividade enorme. Quando vêm pagar as assinaturas, contam histórias e vêm também partilhar memórias" do próprio percurso do Despertar, realça.

Lino Vinhal entende que é nesse mesmo património que está "a chave para a sua continuidade".

O Despertar tem uma tiragem de 5.000 exemplares e conta com cerca de 2.000 assinantes, "assinantes ativos, que são pagadores militantes", frisa, referindo que a publicação paga-se a ela própria "de uma forma minimamente confortável".

Manuela Fonseca, de 83 anos, já lê O Despertar há cerca de 70 anos, mantendo a assinatura do seu sogro, que escreveu em tempos no jornal.

Lê "por homenagem" ao familiar e por "ser diferente" dos outros que existem na cidade.

Manuel Bontempo, que escreve para O Despertar há 65 anos sobre os "mais variados temas", orgulha-se de não ter falhado até agora "um único número", enviando todas as semanas os seus artigos escritos à mão.

"Não é uma patologia, mas talvez seja afeição, um amor isolado que não sei explicar", conta o reformado, de 86 anos, viúvo duas vezes, que olha para a publicação como "uma noiva astral, cujo afeto nunca arrefeceu".

Zilda Monteiro nota que é difícil fazer projeções. Porém, socorre-se da primeira edição, a 2 de março de 1917, para vincar a postura do jornal em relação ao futuro: "Se sucumbirmos, procuraremos morrer com honra, se podermos caminhar é nosso intuito seguir sempre a áspera estrada do dever. Confiados no futuro, avante iremos".

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