O guitarrista, conhecido como Filho da Mãe, estreia-se esta quinta-feira no Centro Cultural de Belém, em Lisboa. O espaço em si não o assusta.

"Já toquei em salas muito bonitas e antigas com aquele peso do 'já tocaram aqui maiores'. Não quero ser pirata, mas quando subo a um palco, sinto que ele é meu, sempre. Mas quando estou a tocar preocupo-me é com as pessoas que estão lá a ver. Portanto não sinto esse peso de tocar no CCB, embora fique feliz por tocar lá", conta ao SAPO24.

O concerto acontece quase dois anos depois do lançamento de último trabalho de originais, “Água-Má", mas, admite, não é um fecho de ciclo, "ainda apanha a mistura de uma coisa nova com uma coisa antiga".

"Falar em fim de ciclo talvez seja muito forte. Tenho três discos que têm a ver uns com os outros, apercebo-me muito mais disso agora do que quando os fui fazendo, então será fechar uma história e iniciar outra".

Depois de ter passado pelos If Lucy Fell e I Had Plans, Rui Carvalho aventurou-se a solo em 2011 com “Palácio”, a que se seguiram “Cabeça” (2013), “Mergulho” (2016).

Já lá vamos à história que se propõe a escrever, voltemos umas páginas atrás no tempo. Tempo, esse conceito tão abstrato que pode influenciar como Filho da Mãe se relaciona com as próprias músicas, sobretudo quando as toca. "É fácil sentir que nos estamos a repetir. E se calhar até não estamos. Mas na cabeça do guitarrista as coisas começam a soar antigas muito mais rapidamente", conta.

E como se contraria isso? "Já o tentei, e é cansativo. Tentei fazer sempre um espetáculo diferente, pelo menos para mim. Há pessoas muito mais ligadas ao improviso do que eu. Mas tentei fazer isso a certa altura. Começava os sets de forma estapafúrdia, começava do fim e ia para o início. É extraordinariamente difícil começar por aquilo que te sentes confortável. O resto do concerto ficava à rasca. Neste momento temos de contrariar a ideia de que as coisas são antigas".

"Hoje fala-se muito em inovar, o que é que há de novo. É razoável, por um lado. Por outro lado, parece-me aquela história do barril com um furo. Estamos sempre a encher o barril e nunca o conseguimos totalmente. Essa procura da novidade às vezes afeta um pouco as pessoas e afetou-me a mim também", conta Filho da Mãe.

E faz um mea culpa. "Há algo de especial em redescobrir as músicas, tocando-as mais lentas ou mais rápidas, pondo-lhes um efeito diferente. E eu sou um bocado culpado por abandonar as minhas coisas antigas com alguma facilidade. Estou a tentar contrariar isso, na verdade. E às vezes custa-me recuperar, parece que estou a enganar alguém".

O que vamos, então, esperar deste concerto no CCB. "Coisas novas", certamente, pelo menos numa parte do concerto. "Sinto que elas fazem parte do próximo disco, mas não sei até que ponto ainda vão mudar. Tenho algumas [coisas novas], mas não vou tocar todas", desvenda, levantando o véu sobre o que vamos ouvir hoje ou nos próximos meses.

Por falar a médio prazo, um novo disco "ainda está num processo embrionário". "Quase que tenho uma capa em mente, também tenho um vídeo já pensado. E, à medida que essas coisas vão sendo mais evidentes, as músicas começam a colar-se a isso", conta. Na base está um "ensaio visual",  uma ideia que o guia na procura de sonoridades e está relacionada com "a realidade".

"Ou melhor, com o saber se é real ou não. Aquele momento em que estás a sonhar, acordas e não percebes se o sonho se dilui. Veio de uma situação familiar, mas, de alguma forma, aplica-se ao presente. Coisas que antes pareciam falsas hoje são reais. Como se fosse um estado de confusão; vemos isso na política, por exemplo. Gosto graficamente da ideia de viver entre dois mundos. Isto é mais um ensaio visual, não é metafísica".

Rui Carvalho quer que este disco seja diferente. Mesmo que demore mais tempo, "desta vez quero bater um pouco mais com a cabeça nas paredes", atira. Mas na sua raiz "estará sempre a guitarra", sublinha.

"No essencial quero marcar alguma diferença entre os últimos três discos. Por isso prefiro perder-me um pouco mais no disco e surpreender-me com o resultado. Não o quero precipitar. Sei que amanhã, ou daqui a uma semana, se for para um sítio gravar venho de lá numa semana com o disco, sem sombra de dúvidas. Só não queria fazer isso dessa forma, queria que o processo mudasse. Às vezes quando mudamos o processo, o resultado reflete-o".

O concerto desta quinta-feira, 13 de fevereiro, no Pequeno Auditório do CCB tem início às 21h00. Os bilhetes variam entre os 12,5 euros e 15 euros e estão à venda nos locais habituais.

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