Foi num dos quiosques do Príncipe Real, em Lisboa, que nos sentámos com Filipe Sambado.

Começou tímida a conversa, entre cafés, e à boleia de outros temas que estavam a marcar aquele dia. Ainda sem se estar a gravar falou-se de festivais, mais concretamente de um que chegará pela primeira vez a Portugal, a Portimão, em junho. Era a notícia daquele dia. "Ele é um bom conversador", tinha já dito um colega que o entrevistou várias vezes. Confirma-se.

“Revezo”, álbum editado no final de janeiro, foi o que deu o mote. Mas se as conversas são como as cerejas, esta entrevista não foi exceção.

Revezo, substantivo masculino "prado ou pasto para onde se muda o gado com o intuito de dar lugar a que o outro prado recrie pasto"

Começamos pelo título do álbum, uma palavra que “começa arranhada e acaba fofa" — talvez o contrário desta entrevista. Filipe Sambado nunca fez revezo, porque o avô não tinha gado para revezar, mas identifica-se com o termo porque, além considerar uma palavra "bastante poética", vê nela um "paralelismo metafórico com uma data de questões sociais”.

"Revezo" sucede a “Vida Salgada” (2016) e "Filipe Sambado & Os Acompanhantes de Luxo” (2018). Ao terceiro disco recorre ao folclore tradicional português como forma de provocação a uma sociedade conservadora. Não é por isso estranho que na sua audição nos lembremos de Fausto Bordalo Dias. E o músico explica porquê.

“O ‘Por Este Rio Acima’ esteve presente em vários momentos. Primeiro de forma inconsciente; depois ao nível da pesquisa. É um disco que me toca bastante, com muita responsabilidade geográfica e com muito cuidado com um lado mais folclórico. Quando comecei a fazer a parte dos arranjos e a produção, ele fez parte. Ia lá tirar dúvidas”.

E como é que se tira dúvidas a um disco, questionamos? “Há lados menos mágicos e menos interessantes da música em que consegues realmente tirar dúvidas ouvindo um disco. Percebes certos mecanismos ou como é que os instrumentos ajudam a transportar a voz. Quando queres uma coisa a correr nessa direção, ajuda”, responde.

Quase quarenta anos separam “Revezo” e “Por Este Rio Acima”, mas ainda há muito para aprender com a "última geração que fez uma coisa realmente significativa”. Geração essa, diz, que marca por "aquela qualidade, aquela pertinência” e da qual faz parte Fausto, mas também José Mário Branco ou José Afonso. Depois deles “foram aparecendo coisas interessantes, mas pontuais”, lamenta.”

“A canção de protesto e de resistência marcou muito o nosso cancioneiro esteticamente. As gerações que vieram a seguir tinham muita urgência em se distanciarem do que essa geração tinha feito. Queriam era fazer o punk, que vinha de fora, e o rock e a new wave, e uma data de outras coisas. A seguir ao 25 de Abril apareceram uma data de bandas a tentarem fazer aquilo que nunca tinha sido feito. E desligaram-se bastante do que estava a acontecer aqui [em Portugal]”.

créditos: Rita Sousa Vieira / MadreMedia

Para Filipe Sambado, hoje, “as graças à canção portuguesa são louvores muito fáceis”, isto é, de elogio fácil. “Aconteceram coisas boas”, “a malta aprendeu a cantar em português”, mas — há sempre um mas —, não há identidade, não há a preocupação "de criar uma ligação entre a música portuguesa e aquilo que criam”.

Só que nem tudo é mau. Dá como bons exemplos a editora Cafetra Records (Pega Monstro, Éme, Putas Bêbadas), que acredita ter dado continuidade ao trabalho da Flor Caveira (Samuel Úria, Pontos Negros, Alex D’alva Teixeira), B Fachada, Luís Severo ou Vaiapraia, "que têm um trabalho de identidade muito grande”.

Mas — outra vez o mas — lamenta que tal “não esteja a acontecer em todo o lado”. “Há pessoas que estão a fazer canções porque querem fazer canções. Isso é igualmente legítimo e bonito, desde que o façam com gosto. Mas não estamos numa fase ultra auspiciosa”, critica.

Os argumentos parecem retirados de uma conversa antiga com José Mário Branco, e assim trazemos a provocação para a mesa. “É a pop-xula”, reponde com um sorriso. E continua: “É verdade que as pessoas não têm cuidado com as palavras, há muita coisa que é dita sem a preocupação da repercussão que isso tem”.

E a métrica? “Este é o meu primeiro disco em que não tenho uma sílaba errada, mas o Zeca tinha muitas sílabas erradas. Metia tónicas ao lado assim à bruta. Mas ele tratava bem a palavra, não é só a métrica, há muitas coisas que resolvem a palavra”.

“E eu memo a ser de qualquer laia
E só com roupa de ir pa praia
Fazem de mim pitaia”

Filipe Sambado é um nos nomes do Festival RTP da Canção deste ano e vamos vê-lo (e ouvi-lo) já este sábado, na primeira semi-final do concurso.

A primeira pergunta que se impunha era se é fã do modelo. A resposta não é para ‘festivaleiros’ sensíveis: “É um formato que me repele e, de certa forma, onde não me sinto muito confortável. Até tinha dito à Cecília, a minha namorada, que se surgisse o convite para ela me dar uma belinha na testa e relembrar-me que não queria participar”.

Com os pontos nos i’s continua: “Mas, quando o convite surgiu, surgiram uma data de situações a avaliar. A montra que significa o Festival. Poder ir lá e dizer qualquer coisa sobre o próprio Festival”. Esse, assume, foi mesmo o ponto mais importante. Filipe Sambado aceitou e decidiu que “podia ir meter um grãozinho de areia na engrenagem” do Festival.

O convite, como ditam as regras, é feito primeiro aos compositores. Estes podem escolher outro artista para interpretar o seu tema ou dar-lhe voz. Sambado escolheu a segunda opção. “A partir do momento em que decidi fazer uma canção com este propósito achei logo que tinha de ser eu a cantar”, conta.

A canção com a qual participará, “Gerbera Amarela do Sul”, está também em “Revezo”. Decidiu incluí-la porque acredita que o seu nome "não faz mossa à dimensão do Festival”.

“Ter um disco a sair na mesma altura que o Festival da Canção ia tirar-lhe espaço de antena. Ia dar mais espaço de antena só à canção. Incluí-la no disco iria potenciar a sua promoção.

Depois da participação de Conan Osíris, que venceu a edição anterior, não tem medo de ser o excêntrico deste ano. “Já sou a pitaia. Já vou vestido só com roupa de ir para a praia, já sou o exótico”, responde com recurso aos versos do seu tema. E o que quer dizer com isto? É uma crítica? “A crítica que faço com esta canção é muito maior que o Festival. Fiz esta canção para o Festival porque ele enquadra-se perfeitamente nela”, responde.

No entanto, o intérprete assume que não está “à espera que toda a gente perceba o intricado do poema” e que, "faça o que fizer, não interessa até onde é que passa”. Isto porque não tem certeza se quer representar o país caso ganhe: “Continuo a ter sérias dúvidas sobre isso. Não quero representar ninguém. Não quero representar nem um Festival nem um país. São coisas que me atormentam”.

Sobre a atuação apenas diz que está “a pensar enterrar o país”.

“Terá um lado consciente. Vou fazer uma performance com uma premissa funerária. Não será uma coisa tão movimentada como o Conan porque não tenho o João. E eu, ao contrário do Tiago, não tenho tanto espaço nas minhas canções para dançar. Mas vai ter um lado cénico cuidado, com uma expressão também cuidada".

créditos: Rita Sousa Vieira / MadreMedia

O chega para lá ao Hard Club

Filipe Sambado foi notícia por ter cancelado o concerto que tinha marcado para 14 de fevereiro, no Hard Club, no Porto, por o espaço ter acolhido um encontro do Chega. O espetáculo aconteceu, nessa data, mas noutro espaço da Invicta, nos Maus Hábitos.

A sua posição foi conhecida no final de janeiro, através de uma nota divulgada nas suas redes sociais. “O Filipe, a sua banda e a Maternidade não se podem mostrar coniventes com um espaço que se permite a compactuar com um encontro de ideologia de extrema direita, contando com membros que manifestam uma agenda e um programa racista, xenófobo, homofóbico, transfóbico, misógino e tantos outros adjetivos depreciativos de opressão e intolerância, contra os quais nos posicionamos, expressamos e lutamos”, pode ler-se na publicação.

Não podíamos terminar esta conversa sem abordar a questão, que considera já resolvida: “não vou ficar de birra quando as coisas se resolvem”.

Filipe Sambado diz que já falou com os responsáveis da sala e que estes lhe “confessaram que não tinham noção” do que se iria passar. “Não tinham noção e o seu repúdio ao evento é real”, acrescenta.

Quanto à decisão de mudar de sala adianta que esta foi tomada antes do comício do Chega, “assim que soube [este] que ia acontecer”. “Só vi o vídeo [de um apoiante do partido a levantar o braço direito no ar, em saudação nazi, enquanto era cantado o hino nacional] depois da decisão ser tomada”, acrescenta.

Sobre a mediatização da sua posição diz que não era uma coisa que, na sua “ingenuidade”, esperava.

“Queria só tomar uma posição bastante clara. Não fazia a mínima ideia de que o meu nome ia ter impacto ao ponto de o André Ventura ter o trabalho de comentar no Twitter. Esperava algum ódio, naturalmente, mas não estava à espera desse impacto. Não sinto que tenho uma dimensão política assim tão grande”.

O músico diz ainda que não fez nem faz questão de ir ver as reações, nomeadamente nas caixas de comentários. Sambado não quer “perder demasiado tempo com isso” porque, reconhece, só está preocupado em “defender a inclusão”.

“Se o próprio espaço [o Hard Club] se define como um clube inclusivo, só estava a fazer um alerta e a dizer que não estavam a ser inclusivos. Foi só isso”, diz.

Porém, na sequência da sua decisão houve quem  o acusasse de o ter feito para “chamar a atenção” e “vender bilhetes”. Com isso Filipe Sambado termina:

“Já dei mais concertos do que o Chega deu comícios, já cantei e já falei para mais pessoas do que o Chega alguma vez fez. Não estou preocupado em defender-me seja do que for. Não é importante para mim. Vou ao Porto e normalmente o número de pessoas que levo, estando em crescendo, porque a minha carreira tem vindo a crescer, varia entre as 100 pessoas e as 200 pessoas. Não ia ter a casa cheia no Hard Club e não estava preocupado com isso. Não ando a encher os bolsos com a música”.

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