Jamie Cullum é um homem do jazz. Mas também o é do rock, do hip-hop, da pop, e do que mais vier à rede: é daqueles artistas para quem  um género é algo de indefinido, facilmente maleável e descomplexado, alheio a qualquer tipo de rigidez. O jazz é apenas a base, o mesmo jazz que levou até às massas a partir do lançamento do seu segundo álbum, “Pointless Nostalgic”, de 2002, e que deixou o público – e as grandes editoras – de queixo caído. A partir daí, saltar dos clubes para as grandes arenas foi uma questão de segundos, tendo para tal contribuído, e em muito, o espetáculo dentro do espetáculo que o músico britânico imprime às suas atuações ao vivo: salta do piano, faz beatboxing, conta piadas, apela ao êxtase e à diversão. Que, no fundo, são qualidades indispensáveis a qualquer concerto; caso contrário, não seriam concertos, seriam aulas.

A partir da Inglaterra onde nasceu, Cullum é tão pontual quanto o estereótipo britânico, e quanto o autor da entrevista; à hora marcada e nem um segundo a mais, eis que do outro lado e após receber a chamada das mãos do seu manager ele nos fala, com simpatia, mas sem abrir o jogo. Afinal de contas, Jamie Cullum já não precisa de contar tudo. A sua história já foi impressa uma e outra vez, a sua música já venceu prémios vários, os públicos que enchem os seus concertos já sabem ao que vão. Cullum é cool, na verdadeira aceção da palavra. Fala com interesse, não balbucia, não procura ser mais ou menos do que aquilo que já é. No início da sua carreira, a imprensa britânica escrevia que o músico voltava a fazer do jazz algo cool. Vinte anos volvidos após o lançamento do seu primeiro álbum, “Heard It All Before” (produzido pelo próprio e assinado como Jamie Cullum Trio, e limitado a 500 cópias, algumas das quais se vendem hoje por preços exorbitantes em plataformas como o eBay), o músico britânico é grande – e sabe-o.

Posto isto, é provável que nenhum festival em Portugal lhe assente tão bem quanto o EDP Cool Jazz, onde regressará este ano para aquela que será a sua sexta presença no evento (atua a 20 de julho no Hipódromo Manuel Possolo, em Cascais). “Não creio que seja possível ser-se cool se se estiver a pensar em sê-lo”, começa por atirar, antes de declarar o seu amor pelo festival em questão. Tudo certo: é talvez este o melhor conselho que se pode dar aos aspirantes à coolness. Mas, no que toca ao mundo do jazz, há um outro troféu prestigiante: a oportunidade de tocar no lendário Festival de Montreux, na Suíça, por onde já passaram (ao longo de mais de meio século) artistas como Bill Evans, Ella Fitzgerald, Chick Corea, Charles Mingus, Dizzy Gillespie, Art Blakey ou Miles Davis, entre outros gigantes. Jamie Cullum já lá tocou por cinco vezes. Caramba!

"Mesmo nos primeiros tempos da minha carreira, encontrei sempre comunidades jazz a prosperar. Elas sempre lá estiveram, a imprensa é que pode não ter reparado"

“É, definitivamente, o mais prestigiante”, confirma. “Tem um currículo invejável. É fantástico poder tocar nos festivais por onde passaram os teus heróis. Senti o mesmo quando toquei em Glastonbury; fui lá tantas vezes quando era adolescente... Tocar naquele palco foi algo de extraordinário”. Glastonbury não tem, no entanto, o que Montreux tem – uma série de álbuns ao vivo ali gravados e posteriormente editados (permitam ao autor do artigo salientar o incrível disco que João Gilberto ali gravou, em 1985). “Há um do Bill Evans Trio que adoro”, comenta. “E há muitas bootlegs. Há uma fabulosa, do Donald Byrd com os Blackbyrds, nos anos 70, que a Blue Note editou recentemente [em 2013]. Esse concerto foi extraordinário”.

Pois é: Cullum possui uma qualidade imprescindível a um qualquer músico ou jornalista musical, que é o facto de gostar de música, de a ouvir, de falar sobre ela. Só assim se explica que tenha dedicado boa parte da sua carreira a fazer versões de temas de outros artistas, como os Radiohead, os Portishead ou até mesmo Rihanna. Mas não só; também já colaborou com muito boa gente, incluindo com a portuguesa Luísa Sobral, em 2016, antes do sucesso eurovisivo de 'Amar Pelos Dois'. “Ela é uma artista maravilhosa. Adorei a música dela assim que a ouvi”, confessa o músico. “Foi uma experiência fantástica. Estou satisfeito por a ter encontrado antes de ela ter conquistado o mundo”. Os Soil & “Pimp” Sessions, coletivo japonês dono de uma sonoridade jazz mais virada para a energia do rock n' roll, também fazem parte do seu leque de colaborações. “Já gravei e toquei com eles em Londres, no Japão... São um ótimo exemplo de alguém que cumpre com o que promete: são grandes músicos de jazz, e levam uma música jazz difícil de tocar a sítios onde ela normalmente não entraria”, explica. “Têm um espírito punk. A energia deles em palco é imensa. Sabem bem o que fazer”.

Também Jamie Cullum o fez: levou o jazz a sítios onde, provavelmente, o jazz não entraria antes de ele o ter apresentado de uma forma tão enérgica. Persiste a ideia, em alguns quadrantes, de que esta música pertence aos intelectuais ou académicos – e esses, muito provavelmente, desdenham de morte o que Cullum faz, que é levá-lo às massas. “Sinto que quebrei com esse estereótipo, mas ao mesmo tempo nunca notei que ele existia!”, atira. “Mesmo nos primeiros tempos da minha carreira, encontrei sempre comunidades jazz a prosperar. Elas sempre lá estiveram, a imprensa é que pode não ter reparado... De momento, é impossível entrar num clube de jazz em Londres: estão sempre cheios. Especialmente de jovens. Não há pretensiosismo, nem há um vazio. Nunca procurei pelo lado mais pretensioso do jazz, e sim pelo lado vivo”.

"Associo uma ida a Portugal a públicos fantásticos, que adoram a minha música. Sinto-me um sortudo"

A vivacidade no jazz voltou a ser tema de discussão nos últimos anos, especialmente após o rapper Kendrick Lamar ter editado aquele que é considerado como um dos álbuns mais importantes desta década, “To Pimp a Butterfly”, em 2015. No disco, Lamar conta com a colaboração do saxofonista Kamasi Washington, que também tem sido apontado como um dos nomes mais entusiasmantes do jazz atual. Cullum, que descobriu o jazz através do hip-hop, está bem ciente do seu conterrâneo norte-americano. “O que é interessante é que o jazz que ele toca não faz quaisquer concessões ao mainstream”, argumenta. “É muito sofisticado. É uma área de nicho, à qual se chama de jazz espiritual. É um nicho dentro de um nicho. Ele conseguiu tornar-se popular não só porque é um músico incrível, mas porque traz imenso carisma para os palcos. Lembra-me os anos 60, quando pessoas como o Charles Lloyd ou o Miles Davis tocavam no festival da Ilha de Wight. Ele leva a música para outras paragens, é quase como que uma viagem a acontecer nas nossas cabeças”.

Montreux Jazz Festival, Suíça (2019) EPA/JEAN-CHRISTOPHE BOTT

Sobre viagens, Jamie Cullum já fez muitas, por todo o mundo. Portugal já o acolheu por diversas vezes, a primeira das quais em 2004, ano de celebração redonda do 25 de abril. O músico britânico atuou ao vivo na loja Fnac do Centro Comercial Colombo, existindo para a posteridade um relato no jornal Público que menciona “um rapaz que toca jazz com uma atitude pop”. Porém... “Acho que não me lembro desse concerto!”, confessa, a rir. “A minha memória preferida no que a concertos em Portugal diz respeito tem a ver com um espetáculo que aí dei, após uma digressão no Reino Unido que correu mesmo muito bem - grandes públicos, ruidosos, a adorar cada momento, a aplaudir... E no Coliseu de Lisboa, fizeram mais barulho que todos esses públicos juntos!”, afirmou, provavelmente referindo-se ao concerto que deu no Coliseu dos Recreios, em 2006. “Foi fenomenal. Associo uma ida a Portugal a públicos fantásticos, que adoram a minha música. Sinto-me um sortudo”.

A sorte protege os audazes, e Jamie Cullum decidiu dar ao seu novo álbum um título também ele audaz no sentido atrevido da palavra: “Taller”, ou “mais alto”, que é nada mais nada menos que uma referência à sua estatura, 1,62m. O disco será editado no próximo dia 7 de junho, e sucede a “Interlude”, lançado em 2014. Durante as gravações, uma mudança: pensou primeiro nas letras que na música. “Este álbum nasceu das palavras”, explica. “Queria muito escrever algo com significado, algo que soasse honesto. E fiz isso com as letras antes de começar a trabalhar na música. Quando ouvirem o álbum como um todo, irão senti-lo, espero”. Foi provavelmente por isso que, em comunicado, escreveu sobre “Taller” que era este o primeiro disco em que “se sentia, primeiramente, como um songwriter”. “Sim”, confirma. “Não estava a pensar em ser pianista, em ser músico de jazz, em ser isto ou aquilo. Pensei em deixar que as canções me dissessem o que queriam ser, que é o mais importante”.

"Este [novo] álbum nasceu das palavras. Queria muito escrever algo com significado, algo que soasse honesto"

Filho de pai judeu e mãe birmanesa, Jamie Cullum obteve de ambos algumas influências que “se foram impondo, de forma dissimulada” na sua própria criatividade, até porque tanto um como o outro se viram “forçados” a ser ingleses desde tenra idade, tendo emigrado para o país após a II Grande Guerra. “Encorajaram-nos, a mim e ao meu irmão [Ben Cullum, também ele músico], a sermos criativos”, diz, deixando no ar a ideia de que os seus pais não o puderam ser devido ao preconceito – o mesmo que voltou em força ao Reino Unido, após o referendo pela saída do país da União Europeia. Juntamente com muitos outros músicos britânicos, Cullum é decididamente anti-Brexit, até por uma questão económica. Qualquer músico ali nascido, e que queira ir em digressão pelo continente europeu não terá, a partir do Brexit, tarefa facilitada.

“É uma confusão”, lamenta. “Não sou político, nunca estudei política; sinto que sou uma pessoa inteligente. Não sou do tipo de pessoa que diz que todos os outros estão errados e que não percebem nada disto, que são estúpidos, racistas, e por aí fora”, continua. “Acho que o Brexit é uma decisão errada - até porque estás a falar com alguém que é produto de uma nação que abre as suas fronteiras, e não que as fecha... A cada dia que passa acredito mais que é um erro, mas também acho que há muitas pessoas que terão as suas razões para querer deixar a União Europeia. E acho que a campanha [pela saída] não foi honesta”.

"Acho que o Brexit é uma decisão errada - até porque [sou] alguém que é produto de uma nação que abre as suas fronteiras, e não que as fecha..."

A confirmá-lo, estão as notícias recentes que dão conta de que Boris Johnson, ex-ministro dos Negócios Estrangeiros britânico, irá a tribunal por ter “mentido” durante a campanha para o Brexit. “Acho que as pessoas não sabiam aquilo em que estavam a votar”, alega. “Ao mesmo tempo, talvez isso seja condescendente em relação às pessoas que votaram pela saída. Não queria que isto acontecesse, mas acho que teremos que viver com isso”, desabafa. “É isso que significa viver em democracia”.

Para lá desse caos político no qual mergulhou o Reino Unido, Jamie Cullum não pode senão ser um homem feliz. Em 2010, casou com a modelo Sophie Dahl, de quem tem duas filhas, sendo que Dahl é neta do escritor britânico Raodl Dahl, autor – entre outros – do clássico “Charlie e a Fábrica de Chocolate”, livro que já foi adaptado por diversas vezes para a televisão e o cinema. Pelo que a pergunta só poderia ser esta: se Cullum fosse uma personagem do livro em questão, qual seria? “O avô, Joe”, remata. “Não sei porquê, sempre gostei dele”. Mal nenhum: também teria oportunidade para se passear pela fábrica mágica. Assim como os portugueses terão oportunidade, uma vez mais, de o ver a ele.

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