Terra de tradições e muita folia, é neste canto de Portugal que pode encontrar as mais variadas e inusitadas modas: os homens dançam com paus nas mãos e saias vestidas, ao som da gaita-de-foles. Digo e afirmo que não há como a minha terra.

Mas estando o espírito natalício tão próximo, vou descrever uma tradição que por sinal também é bastante peculiar — e, arrisco, única. Os festejos de Natal são sempre muito publicitados por todos os cantos do nosso Portugal, e aqui são no mínimo singulares.

Manda a tradição cá da terra que no dia 23 de dezembro se juntem os rapazes solteiros para iniciar os preparativos para a Fogueira do Galo, também conhecida em muitos locais por madeiro. Começa então a organização da jornada festiva, que se avizinha longa: são arranjados os carros de bois, os farnéis, as vozes, as boinas e os cantis.

Neste dia que antecede a consoada, a reunião da rapaziada conta também com a participação dos restantes habitantes da cidade. Depois de bem aconchegado e regado o estômago (e fígado), começa o aquecimento de vozes para os cantares que irão ter lugar de destaque no dia seguinte, durante a Missa do Galo. Logo após a alvorada, que tem direito a gaitas de foles, foguetes e outros tais que façam muito ruído, os rapazes solteiros saem da cidade para recolher a lenha que irá alimentar a Fogueira de Galo, mesmo em frente à Sé Catedral da minha, nossa cidade. Mas isso é só mais logo.

Nesta ida para o monte em busca de lenha para queimar começa a autenticidade de toda esta celebração, pois os carros de bois não são puxados pelos ditos animais de quatro patas, mas sim pelos animais racionais e ainda solteiros. Dizem que por lá se fazem alguns rituais de iniciação para os mais pequenos e para os estreantes em tais andanças, digamos que lhe chamam "barrelas" ou até mesmo as famosas "caças ao gambozinos", e sabe-se lá mais o quê. Não são permitidas solteiras, pelo que não posso afirmar mais do que testemunham as fotografias que comprovam os factos.

Pelas 15h30, que já se faz tarde, descem os carros de lenha do monte com rapazes a puxar, embalados por canções de Natal e rumo a uma cidade cheia de gente para os receber, gente da terra da nossa, da minha terra. Desfilam os carros animados pelas ruas, e os que compõe o cortejo vão recebendo aplausos pelas músicas e também pelas acrobacias protagonizadas pelos mais artistas ou mais entusiasmados — pois Baco está como é obvio presente em toda a jornada, e não deixa que falte o líquido dos deuses.

Seguem os carros a caminho da Sé, cheios de lenha puxada a braços pela geração de solteiros da terra. Mais uma paragem na praça, mais umas cantigas, até rumarem para o átrio em frente a igreja. Aí, a rapaziada solteira que vai dar voz ao coro da Missa do Galo neste dia de consoada faz o primeiro ensaio geral, em plena escadaria.

É agora é hora de recolher a casa para o jantar de família, o jantar de consoada, e com isto são as 18h00 horas, que por cá o frio aperta e muito.

Depois do jantar toda a cidade (ou quase) vai à Missa do Galo, para ver o menino Jesus e o coro que neste dia ganha outra dimensão e novas versões da música “Beijai o menino” — mas esta parte não conto, deixo o convite para lá passar, pois há coisas que só vistas, contadas ninguém acredita. Realmente, não há terra como a minha.

E agora, já sabem qual é? Presumo que alguns sim, outros nem por isso.

Depois de terminar a cerimónia religiosa, o ponto de encontro é na fogueira mesmo ali em frente à Sé e daí vamos festejar o Natal pelas ruas lá da terra, nas adegas, nos cafés, nos bares, até ser hora de tomar o pequeno-almoço, que pode variar entre alheiras, chouriças, salpicão, presunto ou afins, assados na fogueira, mesmo antes de se ir dormir uma soneca, que os almoços de família são logo passadas umas quatro horas.

É assim o Natal na minha terra. E agora, já sabem qual é? Miranda do Douro yê la mie terra!

E se só falei de três dias, podem imaginar o quanto há para contar sobre ela, pois não há terra como a minha!


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