É um processo cíclico. Todos os anos, ainda meia nação está indecisa entre sair de calções à rua ou encasacar-se até mais não, já os jingles de Natal começam a ecoar (ou poluir, dirão alguns) pelas ruas e demais espaços públicos.

Excluindo os êxitos do cancioneiro tradicional da quadra, há dois clássicos modernos que se destacam dos demais: “All I Want For Christmas is You”, de Mariah Carey, e “Last Christmas”, dos Wham!, duo onde George Michael originalmente se popularizou. Não é o objetivo deste desvio especificar qual das canções é a melhor, mas apenas referir que só uma delas é que vai ter de carregar o lamentável fardo, de agora em diante, de ter servido de inspiração a este filme.

Não tendo pretensões de ser um “Miracle on 34th Street”, (“De Ilusão Também Se Vive”, 1947) ou “It's a Wonderful Life” (“Do Céu Caiu uma Estrela”, 1946), esta obra almejou ser uma comédia subversiva da quadra ao estilo de “Bad Santa” ("Bad Santa - O Anti-Pai Natal", 2003), mas errou redondamente o alvo.

“Last Christmas” é, na melhor das hipóteses, uma tentativa falhada de misturar sensibilidades modernas de comédia — com doses de sarcasmo, cinismo e metacomentários sobre as “romcoms” — com o travo sentimental dos melhores exemplares britânicos do género — como "Notting Hill" (1999), não tivesse este filme sido integralmente rodado em Londres — e da quadra natalícia. Já na pior dos cenários, é uma tentativa de monetizar um filme medíocre a partir do legado musical de um cantor imensamente popular.

Título: Last Christmas

Título Original: Last Christmas

Realizador: Paul Feig

Argumento: Emma Thompson e Bryony Kimmings

Elenco: Emilia Clarke, Henry Golding, Michelle Yeoh e Emma Thompson

Data de Estreia: 5 de dezembro

Duração: 1h 43 minutos

Rotten Tomatoes (críticos): 47%

Na teoria, o filme tinha tudo para resultar. Ao leme da realização esteve Paul Feig — dono de um currículo respeitável, onde se inclui uma das melhores comédias românticas da última década em "Bridesmaids" (“A Melhor Despedida de Solteira”, 2011) —, trabalhando um guião co-escrito por Emma Thompson, que, recorde-se, ganhou inúmeros prémios pelo guião de "Sense and Sensibility" (“Sensibilidade e Bom Senso”, 1995) — um deles, um Óscar, por amor de Deus —, adaptado a partir do romance homónimo de Jane Austen.

Para além disso, a própria Thompson, atriz de prestígio, enfileira em "Last Christmas" um elenco de qualidade onde entram Michelle Yeoh (“O Tigre e o Dragão”) e o par romântico de Henry Goulding (“Asiáticos Doidos e Ricos”) e Emilia Clarke (“Game of Thrones”). Ou seja, havia aqui muito potencial, mas não há talento que salve uma história mal concebida e com personagens pouco empáticas.

O filme começa com Katerina (Emilia Clarke) enquanto criança a cantar no coro de igreja na Jugoslávia, de onde era natural, antes de a sua família ser forçada a refugiar-se no Reino Unido. Desse flashback partimos para a mesma personagem, agora mulher que apenas responde por “Kate” por renegar as suas origens, despojada dessa inocência, a cantar sozinha num bar londrino.

Cantora frustrada, a quem as audições para entrar em musicais acabam frequentemente em desastre, a vida de Kate é uma sucessão de erros e más decisões, motivadas por um problema de saúde do qual nunca psicologicamente recuperou. Nutrindo uma péssima relação com a sua família, a personagem de Clarke não tem onde dormir, saltando de casa em casa dos amigos, que vai progressivamente alienando com o seu comportamento inapropriado, enquanto coleciona encontros amorosos com tipos imprestáveis que atrai como um íman nos bares onde se embebeda.

Last Christmas
créditos: Universal Pictures

Para sobreviver, Kate trabalha numa loja onde o Natal dura em perpetuidade. Sim, é uma loja de souvenirs onde tem de se vestir de "elfo", nome pelo qual a sua patroa (Michelle Yeoh) a trata com desdém. Esta sua vida de caos rotineiro é subitamente abalada quando vislumbra um estranho do lado de fora da loja a olhar para o céu. Trata-se de Tom (Henry Goulding), futuro interesse amoroso, que divide o seu tempo entre fazer estafetas e ajudar num albergue para os sem-abrigo.

O filme estrutura-se nesta relação estilo “os opostos atraem-se”, entre o comportamento errático de Kate e a vida estruturada de Tom, tentando ele que ela comece a corrigir o seu caminho. Mas é aqui que recai um dos problemas desta película, o facto de nenhuma das personagens ser particularmente apelativa.

É que, se ela se comporta como um monstro de egoísmo, que o filme tenta justificar com os seus problemas de vida, ele é ainda pior. Arrastando Kate pela cidade como um guia turístico presunçoso, Tom é aquele moralista que não usa telemóvel, diz sempre as coisas certas na altura certa, nunca está errado, faz dancinhas pela rua, toca em cicatrizes em locais demasiado íntimos e é desconfortavelmente inconveniente — apesar de o filme querer passar a ideia de que é um tipo às direitas, desejável até. Todos os insultos que ela lhe reserva — desde ser “esquisito”, armar-se em “Bono Vox ou Madre Teresa de Calcutá” ou ter “masculinidade assética” — são supostamente formas de relevar as falhas de Kate, mas na verdade são todos eles inteiramente merecidos.

Apesar da dificuldade em endireitar personagens que já nasceram tortas, Goulding e Clarke demonstram alguma química, especialmente a segunda, pela mera força do seu carisma. Aqui, na verdade, está um dos grandes trunfos do filme. Tal como na inspirada decisão de escolher Yeoh — mais conhecida pelo seu trabalho no cinema de ação do que em comédias — para o papel de uma patroa rígida mas com coração de ouro.

Já no pior, Emma Thompson, fazendo de “Petra”, mãe de Kate, é um boneco de todos os preconceitos das mulheres de leste, “babuskha” superprotetora com um sotaque carregado, que a atriz deve ter achado que bastava para ter piada.

Falando em piadas, não há assim tantas a colar ao longo de pouco mais de hora e meia de filme. Salvo a honrosa exceção da relação entre a “Mãe Natal” de Yeoh com um amante nórdico sentimentalão que lhe oferece árvores de Natal feitas com ingredientes que podiam figurar numa sopa, é um filme que se traduz em esgares de satisfação, mas poucas gargalhadas.

Este, porém, não é o maior problema do filme. Esse recai na conclusão desta narrativa. Na tentativa de subverter os padrões da comédia romântica e de transmitir uma mensagem de que a regeneração pessoal passa por ajudar os outros, "Last Christmas" acaba por degenerar num final melodramático, com uma reviravolta tão incompreensível quanto passível de insultar a inteligência de qualquer um. Quanto a isso, nem todas as piadas chegariam. Quando um bolo já está estragado, não há açúcar polvilhado que valha para salvá-lo.

Veja-se, por exemplo, a forma como o filme trata o Brexit. Apesar de ser gravado numa Londres assética e de “postal”, “Last Christmas” tem mudanças de tom drásticas quando tenta pôr o dedo da ferida, mas que deixam o filme parado a meio caminho entre ser uma simples comédia ou atacar “os grandes temas”.

A abordagem começa numa cena em que a mãe de Kate vê apoiantes do Brexit a protestar nas ruas a pedir que se honre o resultado do referendo — desesperando e dizendo à filha: “eles querem-nos daqui para fora” e “é assim que começa” — e termina num jovem encantador a gritar para os viajantes de um autocarro para voltarem para a sua terra. Tudo isto, na verdade, é só um veículo manipulador para fazer Kate reconectar-se às suas raízes — ela apresenta-se como "Katarina" a duas pessoas dos Balcãs (sim, “dos Balcãs”, porque o filme também não faz questão de especificar) visadas no ataque ao autocarro.

Last Christmas
créditos: Universal Pictures

Falando de temas martelados no filme, a própria fonte de inspiração do filme — George Michael — é mal servido por esta história. Apesar de, antes de morrer (em 2016), ter autorizado que as suas músicas fossem utilizadas para esta obra, a relação da película com o cantor é apenas tangencial, podendo considerar-se até problemática.

Embora tenha o quarto de infância repleto de posters do cantor (subtil, sim) e de ter um autocolante a declarar o seu amor pela estrela, Kate apenas refere George Michael logo no início do filme, numa conversa com um futuro “one night stand” num pub. Nesta interação, fica declarado que ela e o cantor são “almas gémeas” que passaram a sua vida “incompreendidas”, afirmação algo descabida tendo em conta que Michael, apesar de todos os seus demónios pessoais, foi um dos cantores mais bem sucedidos de sempre e provavelmente não alguém que fosse desafinar terrivelmente numa audição de "My Favorite Things".

O envolvimento — exceto uma atuação de Kate de “Last Christmas” no final do filme — de George Michael na narrativa fica-se por aqui, sobrando um conjunto de cenas em que as suas músicas são marteladas para dar algum contexto emocional e justificar o preço do bilhete. Se Kate e a mãe vão beber shots de aguardente para os mercados de Camden Town, toca a passar a “Freedom”. Já se a protagonista está a passar um mau momento, segue a “Praying for Time” para puxar a lagrimita. É uma utilização do seu legado que faz parecer o Mamma Mia uma iniciativa honesta.

Há uma cena durante o filme que sintetiza a sensação do espectador quando os créditos começam a passar. “Peço desculpa, George”, diz Kate no seu pequeno inferno natalício ao ouvir a enésima versão bastardizada de “Last Christmas” a brotar de um souvenir de cinco libras. Nós também, nós também.

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