Mallu Magalhães esperou a melhor altura para apresentar "Esperança", não fazia sentido colocá-lo no mundo "se eu estava vivendo um momento difícil, como todos nós, com perda de pessoas próximas, fronteiras fechadas, longe da família, parentes internados, um panorama tão ruim".

O álbum, que começou como um desejo de "Felicidades" e acabou por ser um disco de "Esperança", conta, pela primeira vez, com colaborações. "Afinal, dá para chamar pessoas? Nunca me tinha ocorrido chamar alguém, para nada", brinca. Mas também é um álbum onde a maternidade, ou melhor, Luisa, está muito presente. E o seu nome surge várias vezes ao longo da conversa. Assim como o Brasil.

A viver em Lisboa há quase uma década, Mallu Magalhães "vem de um lugar que se chama SP / mãe de uma linda menina / paçoquinha e picolé" — canta-o em "América Latina". Além deste "cartão de visita", Mallu é reservada na sua vida pessoal, "vive no mundo da lua", é mãe protetora e quer ser referência para Luisa, a quem gosta de lembrar que nesta vida temos de "sair sendo", ou seja, não esperar, mas fazer, ser.

Mallu Magalhães sobe ao palco de uma das mais emblemáticas salas de Lisboa, o Campo Pequeno, no dia 3 de dezembro, para o concerto de apresentação deste álbum. Antes do regresso à capital, tem espetáculos agendados na Casa da Cultura de Ílhavo, a 19 de novembro (esgotado), e no Cine-Teatro Avenida, em Castelo Branco, no dia seguinte.

Ao vivo poderemos ver uma Mallu que "explode" em palco. Não sabe explicar, mas diz que agora canta de forma diferente. "No primeiro show que fizemos depois da reabertura das salas, o Frédinho até falou para mim: 'nossa, como você cantou bem, está diferente'. É ver para confirmar.

"No momento que a gente estava vivendo, e ainda vive, nunca vai ter uma semana maravilhosa, um momento perfeito. Mas a gente pode se propor a ser a coisa boa, a ser o contraponto."

Entre "Felicidades", aquele que seria inicialmente o título do disco, e "Esperança", há uma pandemia pelo meio. Nesse período em que esteve guardado 'na gaveta' não ouvia uma voz a dizer-lhe "deixa o álbum ir"?

A espera foi natural. Recentemente, alguém perguntou-me se não foi difícil ter de esperar. Mas não... Acho que todo o mundo ficou, ou eu pelo menos fiquei, concentrada em vencer cada dia. Nem surgiu a vontade de lançar. O álbum ficou pronto em janeiro de 2020 e só um ano depois é que comecei a pensar: pôxa, já faz um ano que está pronto, preciso lançar. Aí sim, nesses meses de espera fiquei ansiosa, mas tudo bem. O cenário era tão atípico que nem foi especialmente doloroso esperar.

Além da mudança do título, também a capa e o alinhamento sofreram alterações. Quando decidiu lançar, sentiu que já não fazia sentido pô-lo no mundo como estava? A pandemia e a atualidade condicionaram essa decisão?

Houve uma resignificação natural. Quando faço um álbum, faço-o com a ideia de entregar uma mensagem, oferecer alguma contribuição para quem o ouve. Uma proposta, um convite... E eu sinto que o "Felicidades" era um álbum que celebrava as felicidades que temos no dia a dia, pequenas felicidades que, na verdade, representam um estado de espírito maior. Depois, com a pandemia, essa celebração deixou de fazer sentido. A gente ainda estava numa fase anterior a essa, uma fase de esperança. Estávamos perdendo amigos, parentes, eram tempos muito estranhos. Houve todo um trabalho de resignificar esse conceito.

Estranhamente, "Esperança" é meio irmão de "Felicidades". Mudou, mas não mudou tanto. Quando você tem esperança, você automaticamente assume que reconhece que a felicidade é possível. Ter esperança é saber que é possível ser feliz ou conquistar aquilo que você está almejando.

O álbum saiu de surpresa.

Pois é. Naquela época era muito difícil estabelecer datas. O mundo estava completamente imprevisível. Todo o dia havia algo que era maior do que qualquer lançamento. E ficava aquela dúvida do 'será que vai ser o momento?'.

O não haver uma data fixa não trazia condicionamentos. Era quando a Mallu quisesse e não quando a atualidade o permitisse?

Exacto, é isso. No momento que a gente estava vivendo, e ainda vive, nunca vai ter uma semana maravilhosa, um momento perfeito. Mas a gente pode se propor a ser a coisa boa, a ser o contraponto. Acho que, por muito tempo, fiquei observando a atualidade e o panorama geral para não ser ofensivo. Não só para o próximo, mas também para mim. Não fazia sentido. Se eu estava vivendo um momento difícil, como todos nós, com perda de pessoas próximas, fronteiras fechadas, longe da família, parentes internados, um panorama tão ruim, não fazia sentido nenhum lançar um álbum. Era como se eu não quisesse oferecer isso nem para mim nem para o próximo. Realmente não tinha essa vontade.

Quando veio a vacina, virou uma página. As coisas começaram a abrir, abriu-se uma janela mínima, uma esperança qualquer, e senti que o álbum poderia ser uma contribuição positiva no meio de um cenário terrível.

Rita Sousa Vieira / MadreMedia

A maternidade está muito presente neste álbum, verdade?

O "Vem" já tinha alguns temas, por exemplo, o "Casa Pronta" era para Luisa. Mas nesse tem realmente a presença dela como indivíduo. Como já fala e já faz coisas, as referências passam a ser mais sobre ela do que sobre a entidade maternidade. Ela é o centro da minha vida, acho que é natural isso na vida das mães e dos pais. Todos os assuntos, toda a motivação que a gente tem acaba sendo sempre para com o nosso filho.

"A minha filha não é minha propriedade, é uma criança. Vai ter as suas vontades e opiniões, e eu tenho de estar aqui para dizer: 'atenção a isso'"

Que idade tem a Luisa?

Faz no mês que vem seis anos.

Já entrou na escola primária?

Está.

Foi uma grande mudança?

É diferente, há uma responsabilidade maior. Até com a tournée. Antes tinha uma flexibilidade muito grande. Ela ia comigo e tudo certo. Agora já é um pouco mais difícil, então tento ser muito organizada. Tudo a gente adapta, mas sim, foi uma grande mudança.

Até na maternidade, ela já não é mais um bebé. Eu vejo que existe uma influência enorme nela do que eu faço ou digo. Ela acaba por imitar a gente, n'é? Então a educação está também em quem você é. Isso me faz rever muitas coisas. Exemplo: mau humor. Tenho evitado ficar de mau humor porque vejo que é um mau exemplo [ri-se]. O trânsito... Assim, é uma coisa que irrita. Então, eu tento ligar uma música, ir devagar e fingir que está tudo bem. Mas por dentro eu estou querendo... sei lá. Essa revisão de quem eu sou é algo intenso e profundo.

Como é que vai reagir aos novos desafios que lhe farão frente nesta nova fase? Por exemplo, ao aprender a ler, todo um novo mundo abre-se para a Luisa. Como é que o seu instinto protetor, que assume noutras entrevistas e está bem patente no tema "Deixa a Menina", irá lidar com isso? Já pensou?

Engraçado isso. Mas como temos uma relação muito transparente, eu imagino que consiga manter esse canal aberto com ela. O que posso fazer de melhor, eu tenho feito. Que é realmente fazer o meu máximo e estar presente em todos os aspetos, emocionalmente, no meu tempo... Virão desafios muito mais sofisticados dos que já enfrentei até agora, mas acho que a nossa relação é muito franca. Muito embora seja muito protectora, o mundo está aí. E a verdade é que ela não é minha propriedade, é uma criança. Vai ter as suas vontades e opiniões, e eu tenho de estar aqui para dizer: 'atenção a isso'. Acho que também ganho aí, como não a chateio muito com qualquer coisa, quando é perigoso e não pode, eu digo. Tem que escolher bem, se diz muito não, perde a força.

"Afinal, dá para chamar pessoas? Nunca me tinha ocorrido chamar alguém, para nada"

Voltando ao disco, como foi trabalhar com o Mario Caldato (Beastie Boys ou Jack Johnson)?

E ele é, pôxa, um amigo. Uma pessoa doce, no estúdio todo o mundo o adora, é uma excelente companhia. Tudo muito tranquilo e calmo, sem nenhum conflito ou problema. Eu valorizo muito um bom ambiente, é fundamental.

Ele tem um método de trabalho que é muito bom e muito funcional. Deixa o álbum nascer em estúdio, parece que vai só pastoreando a música [ri-se]. Agora um pouco mais por aqui ou por ali... Ele vai guiando de uma maneira muito ampla para que lado é que a música deve... Vejo que ele se dedica em pontos que são muito fundamentais e deixa solto em momentos que a música precisa de espaço para surgir. Depois, a mixagem dele muda completamente o jogo. Ele põe elementos, tira elementos, limpa muito a música. Tira o melhor som de cada elemento, o que faz com que a música fique muito natural e ao mesmo tempo muito agradável. É como se ele atuasse para que o disco crescesse da maneira mais natural possível e da maneira mais produtiva. Ele tira o melhor de cada música.

No disco há pela primeira vez colaborações, de Preta Gil ("Deixa a Menina") e Nelson Motta ("Barcelona").

Pois é [ri-se]. Descobri. Afinal, dá para chamar pessoas? Nunca me tinha ocorrido chamar alguém, para nada.

Porquê?

Não sei, acho que vivo muito... No mundo da lua... [canta]. Estou sempre numa ideia e vivendo essa ideia muito intensamente. Às vezes as coisas fundamentais passam-me ao lado e eu nem reparo. Eu faço álbum, ponto. Nem penso. E dessa vez estava comentando com o Marcelo... [referindo-se a "Deixa a Menina"] "Nossa, engraçado, nessa música escuto a Preta cantando". E ele diz para a chamar para cantar. "Nossa, é verdade, existe essa possibilidade" [ri-se].

Fiquei pensando, será que ela vai topar? Pensei menos, fiz mais e mandei mensagem pelo Instagram. Ela respondeu logo que sim e eu fiquei tão feliz. Aí abriu a porta... No estúdio, quando estávamos a gravar a "Barcelona" fiquei pensando a mesma coisa. Na hora que terminámos o arranjo já imaginava aquele vozeirão do Nelson. Aí já tinha aprendido que dava para falar com as pessoas, já sabia como fazer. Mandei uma mensagem, também pelo Instagram, e ele ficou animado. Foi engraçado porque a gente estava gravando aqui em Lisboa e ele respondeu que estava por cá. Ele veio para o estúdio, a gente cantou, fez um dueto, só com um microfone, os dois cantando, foi tão divertido. Deu tudo certo, vamos ver se o próximo disco vai ser inteiro de feats [ri-se].

"A Luisa percebeu que nem todo o mundo toca um instrumento ou sabe cantar. Então perguntava: "que instrumento você toca?". Se lhe respondiam que não tocavam nada, ela ficava: "nada? como assim?"

Que outros nomes estariam em cima da mesa ou isso depende do processo e do momento em que o tema nasce?

É como você disse. A música é um conceito, é uma ideia. Então é difícil pré-determinar. Mas claro, tenho vários amigos com os quais tenho vontade de trabalhar. Faria isso primeiro pela amizade. Então, de repente, faria ao contrário: pegava nesse amigo e fazia uma música com ele.

Mas tenho várias pessoas com as quais gostava de trabalhar. Por exemplo, o Branko, adoraria repetir a colaboração [em "Sempre"], e o Frédinho, que agora tem o projeto a solo. Do Brasil, o Tim Bernardes, a Vanessa da Mata, muita gente... A lista é longa.

Por falar no Fred Ferreira, para quando o regresso da Banda do Mar?

Cada um seguiu o seu caminho, mas a gente sempre se encontra. Não tem outro jeito. Um dia a gente ainda faz de novo. Temos um grupo no WhatsApp, e de vez em quando vou lá para ver se alguém diz: 'bora'.

Aproveitando que falamos no Instagram, a Mallu ganhou popularidade no Myspace. Como é que é a sua relação hoje com as redes sociais?

Eu já passei por muitas etapas, e acho que todos nós n'é? Todo o mundo já teve uma maior proximidade e depois viu com um sentido mais crítico. Hoje tenho noção de que é uma empresa, de que os meus dados estão ali, que acabo por ser um recurso. Por mais que receba uma coisa legal em troca, que é o contacto com os meus fãs e com os meus amigos, existe uma espécie de moeda de troca. Assim, vejo com crítica mas gosto.

O vídeo do "Quero-Quero" nasce dessa ferramenta.

Exato. Acredito que é uma ferramenta maravilhosa, as redes têm muito para oferecer de bom, mas tenho uma visão crítica, de autopreservação. Entre o que pertence a todos e o que pertence só a mim, sou um pouco seletiva. São opções de vida, eu evito mostrar muito da minha intimidade. Juro, eu admiro quando vejo alguém que não deixa de mostrar nada, mostra tudo e não se importa. Eu ainda não cheguei nessa fase, ainda tem coisas que prefiro manter só na minha memória e para os meus amigos e familiares.

Mas já li que diz que a sua memória é, digamos, muito curta.

É terrível, é. Muito ruim. Mas é o funcionamento da minha cabeça, que é muito criativa, o que é excelente para o meu trabalho. Mas quando preciso de exigir atenção, foco, memória, nossa, é difícil. Tenho dificuldade em memorizar números e até factos. Anoto tudo, tudo o que não posso esquecer fica anotado.

É pessoa de fazer listas?

Mais do que listas, faço Excel. Com prazos e às vezes até coloco lá quais são os passos que preciso para efetuar uma tarefa. E vou tentando cumprir um passo de cada vez. Acho que criei os meus mecanismos para lidar com essa dificuldade de memória. Na verdade, essa coisa de dificuldade de memória, no meu caso, parte também de uma escolha. Eu escolho me entregar e viver com calma, uma coisa de cada vez. Isso tem um benefício muito legal, que é... Por exemplo, chego em casa, depois de pegar a Luisa na escola, deixo o celular de lado. Vivo aquele momento. Mesmo trabalhando, quando estou no estúdio, estou focada. É uma coisa de cada vez, é meu método de vida.

Rita Sousa Vieira / MadreMedia

A Luisa tem noção de que a profissão dos pais é fazer música?

Tem, tem. Quando descobriu as profissões, tinha aí uns dois anos e meio, e que toda a gente tem um trabalho diferente, ela percebeu que nem todo o mundo tocava um instrumento e que nem todo o mundo sabia cantar. Como achava tudo muito estranho, então perguntava: "que instrumento você toca?". Se lhe respondiam que não tocavam nada, ela ficava: "nada? como assim?". Hoje em dia, quando surge aquela coisa do 'o que é que você quer ser quando crescer', sempre digo que não precisa de crescer para ser nada, tem de sair sendo.

O que é que a Mallu queria ser na idade da Luisa?

Acho que veterinária, talvez. Eu gostava muito de bicho.

A gente meio que esquece mas é preciso lembrar, a criança olha para o profissional no dia normal de trabalho e idealiza esse dia. A criança não coloca todo o lado ruim. Vejo crianças que gostariam de ser cantoras e vêm falar comigo e dizem: "queria ser cantora para poder cantar num palco para muita gente". Eu não vou falar para ela, olha não é só isso, você tem que entender que há um trabalho por trás que é muito difícil. Não, a gente tem estimular o sonho delas. Eu via o veterinário e pensava que ele salvava os animais, então era isso que queria ser.

Também pensava no circo, em artes circenses, em ser pintora. Não tinha essa coisa de ser cantora, gostava mais de artes.

Algo que ainda hoje está presente na sua vida, como a ilustração.

Às vezes a gente coloca essa cilada para a gente mesmo. Tipo, se eu não faço isso profissionalmente, eu não faço isso de todo. Não, podemos fazer o que gostamos. Nem precisa de chamar hobby, é uma profissão que tem outra relação com a remuneração.

"Em todo o lugar gente acaba escolhendo o que é que incomoda menos e o que faz mais diferença"

A Luisa já nasceu cá. É mais lisboeta ou paulista?

É um meio-meio. Porque quando ela está lá, ela diz que nasceu em Portugal, mas também é brasileira. Quando está aqui, o mesmo. Ela entende que é uma coisa e a outra. Por exemplo, ela não gosta quando falam mal de São Paulo. Lembro-me de umas meninas terem falado para ela que São Paulo era perigoso e ela ficou uma fera, até chorou. "Não é nada, São Paulo é um máximo", defendeu com unhas e dentes. Nunca aconteceu alguém falar sobre Portugal quando a gente está lá, mas ela defenderia também. Então acho que ela tem a visão que é dos dois lugares.

O que é que mais lhe perguntam sobre Portugal nas entrevistas no Brasil?

Acho que é sobre como é a minha vida cá, como é a rotina, pelos shows, as vantagens e as desvantagens. E as respostas são muito simples. Sim, dá para fazer muito show. Vantagem: é que é lindo, é calmo. Desvantagem: frio, a distância da minha família. Em todo o lugar tem uma realidade com prós e contras e a gente acaba escolhendo o que é que incomoda menos e o que faz mais diferença.

Vou muito ao Brasil porque a minha profissão o permite, acho até que se tivesse outra profissão não teria tido como opção emigrar. Ainda para mais tenho ainda um lugar para voltar, que é a casa dos meus pais. É como se não tivesse saído. Chego até a ficar mais de metade do ano lá. Agora com a escola da Luisa terei de ir mais vezes por menos tempo. Mas tudo bem, a gente organiza-se.

O facto de a Luísa já estar na escola cá adia alguma possibilidade de regresso definitivo ao Brasil?

Acho que é tranquilo, são currículos muito parecidos. Além do facto de ser o mesmo idioma. Na época que a gente queira ficar lá de novo, não vai haver problema. Ela tem fortes referências lá, tem os avós, tem os amigos. Tem toda uma rede. Tanto que fazemos duas festas, para os amigos de aqui e para os amigos de lá.

Tem direito ao pastel de nata e ao brigadeiro, o melhor de dois mundos para uma criança.

Exato. E ela diz que tem um aniversário no inverno e outro no verão [ri-se].

"Não me irrita, só é triste. Não queria que esse fosse o assunto quando falo do meu país, não queria que fosse uma espécie de lamento. Do estilo, olha que pena, o Brasil está passando por este momento"

Agora, a pergunta ao contrário. O que é que mais lhe perguntam cá sobre o Brasil?

Sempre falam sobre a questão política.

Isso irrita-a?

Não, não. É simples e evidente. Não acho que seja irritante porque é uma realidade que existe. O Brasil está vivendo uma crise muito grave, tanto política como socialmente. O gap social está crescendo de forma assustadora, uma coisa que o Brasil tinha conseguido aliviar mas que agora está voltando. Além da pobreza, da miséria, a falta de oportunidade para as pessoas que estão em posição vulnerável sempre foi o problema maior.

Eu também não tenho resposta, do lugar onde estou, para oferecer. Não tenho uma solução. Mas ao mesmo tempo acho que é até bom e útil que isso seja falado. Quanto mais se falar sobre os problemas sociais, melhor. Chama mais atenção e desperta maior preocupação. Então não me irrita, só é triste. Não queria que esse fosse o assunto quando falo do meu país, não queria que fosse uma espécie de lamento. Do estilo, olha que pena, o Brasil está passando por este momento. Eu queria poder falar das belezas do Brasil. Continuamos sendo uma potência, trabalhadores, sonhadores, vivos. O Brasil tem uma vida, uma esperança, uma força muito grande. Tenho confiança que este é um momento que vai ser ultrapassado da melhor maneira. Talvez nos faça ver certas políticas de forma mais crítica e eventualmente mudar um pouquinho a maneira como o país tem sido conduzido.

Além disso, perguntam sempre se sinto falta da minha família e amigos. A maneira que tenho para lidar com as saudades é ir loucamente, com muita frequência.

"Coisas que me permitia fazer antigamente hoje já não me permito. Não tenho mais tanto espaço para viver as emoções como antes, então isso fez com que reservasse as emoções para o momento da arte."

Este período da pandemia foi o que esteve mais tempo sem ir ao Brasil?

Foi, as fronteiras fecharam e não tinha o que fazer. Vivemos momentos muito difíceis, como todo o mundo. Imagina, parente internado e a gente aqui sem poder fazer nada. Quando conseguimos, fomos, mas sempre com medo de não poder voltar. Foi um período ruim para todo o mundo.

Tem um vulcão tatuado no braço, quando é que explode? É em palco?

Tento guardar toda a energia para esse momento. O meu calo, o gatilho que me faz explodir é quando não consigo fazer o melhor trabalho. Fico muito ansiosa por fazer o melhor e quando sinto que não estou conseguindo, fico brava. Quando sinto que tem algo me impedindo entre a minha ideia e objetivo, a explosão acontece. Mas explosão de sentimento é muito no palco. Acho que é a hora que abro a porteira....

Como a matéria da maternidade também envolve ser uma referência, eu passei a ser uma referência para uma criança. Isso é uma coisa que levo muito a sério, procuro ser uma boa base. Coisas que me permitia fazer antigamente hoje já não me permito. Não tenho mais tanto espaço para viver as emoções como antes, então isso fez com que reservasse as emoções para o momento da arte. Foi uma mudança enorme na minha vida. No primeiro show que fizemos depois da reabertura das salas, o Frédinho até falou para mim: 'nossa, como você cantou bem, está diferente'. E eu não soube explicar, eu sinto que está diferente, a maneira como canto, como componho, está diferente mas não sei dizer porquê. Outro dia fiz uma reflexão sobre isso. Na minha vida eu diluía mais a minha relação com as emoções, agora reservo para aquele momento. É como se nos momentos da música desse tudo. Vou guardando, guardando, guardando. E uma hora eu páro e vssssss [faz o som da explosão].

Quer ser uma referência para a Luisa, mas quem ou quais são as suas?

Primeiro, o meu pai, a minha mãe e a minha irmã.

A Ana, que fala no "América Latina"?

Sim, é ela.

Essas são as minhas referências naturais. Artísticas tenho várias, estéticas ou de profissionalismo. Cada setor, a gente tem uma referência. Vejo a Maria Callas como uma referência de poder de voz. Nossa, eu queria colocar o meu coração como a Maria Callas fazia ao cantar. Ao mesmo tempo, vejo a Alexandra Moura como uma referência estética, admiro a visão dela de futuro.

Nos meus pais vejo uma noção de normalidade.

Por falar na "América Latina", o tema é um pouco um cartão de apresentação? "Here I go, I must go..."

É curioso, mas acho que sim. Quando fiz a música, a intenção era exclusivamente fazer uma música. Mas quando fizemos o vídeo, olhei e pensei que era um cartão de visita, como se o tema resumisse... Essa sou eu, ponto. Se tivesse de me resumir para uma pessoa que não me conhece, esse tema sou eu, fala de onde vim e de como olho para o futuro. Acabou virando um retrato sem intenção.

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