Intitulado “1000 Anos de Alegrias e Tristezas”, e com capa desenhada pelo próprio, este livro será inicialmente traduzido para treze línguas e publicado a 2 de novembro, tarefa que em Portugal está entregue à Penguin Random House, através da chancela Objectiva.

A editora descreve-o como um livro “ambicioso e intimista”, que oferece “um conhecimento profundo” das várias forças que fizeram da China o país que é hoje, e que simultaneamente alerta para “a necessidade urgente de proteger a liberdade de expressão”.

“A ideia para este livro surgiu na minha mente durante os oitenta e um dias em que estive secretamente detido pelo governo chinês, em 2011. Ao longo dessas semanas intermináveis, pensei muitas vezes no meu pai, poeta, que tinha sido exilado no decorrer da campanha anti-direitista de Mao Tsé-Tung. Percebi que pouco sabia sobre o meu pai, mas que era grande a minha mágoa pela distância intransponível que acabou por nos separar”, conta Ai Weiwei, citado pela editora.

Ai Weiwei

Foi por não querer que o filho sentisse a mesma tristeza, que decidiu que, se fosse libertado, escreveria tudo o que sabia sobre o seu pai e contaria ao filho, “com honestidade”, quem é, o que é a vida, por que é tão preciosa e “por que razão a autocracia tanto teme a arte”.

Nas suas memórias, o artista plástico, considerado um dos nomes maiores da arte contemporânea, faz uma descrição “impressionante da China dos últimos 1000 anos” e, simultaneamente, reflete sobre o seu processo artístico.

“Além de explorar as origens da sua criatividade fora de série e das suas apaixonadas convicções políticas, Weiwei revela ainda a história do seu pai, Ai Qing, outrora o poeta mais influente da China e camarada próximo e íntimo de Mao Tsé-Tung”, revela a editora.

Durante a Revolução Cultural Chinesa, Ai Qing foi considerado de direita e condenado a trabalhos forçados, e toda a sua família foi desterrada para uma parte remota e deserta do país, conhecida como “Pequena Sibéria”.

Em “1000 Anos de Alegrias e Tristezas”, Ai Weiwei descreve essa infância no exílio e conta a difícil decisão de abandonar a família para ir estudar Arte nos Estados Unidos, onde se tornou amigo de Allen Ginsberg e encontrou, em Marcel Duchamp e Andy Warhol, uma inspiração.

“Com honestidade e sageza, descreve o seu regresso à China e a sua ascensão de artista desconhecido a estrela da cena artística internacional e ativista pelos direitos humanos – sem esquecer a forma como o seu trabalho tem sido moldado pela vivência sob um regime totalitário”, descreve a editora.

Numa entrevista concedida ao jornal The Guardian no início do ano passado, Ai Weiwei contou que, certa vez, durante um interrogatório, a polícia secreta lhe perguntou: “Weiwei, se não te pressionássemos tanto, nunca serias tão famoso, pois não?”. A esta pergunta, ele respondeu: “Sim, tens razão. É preciso um inimigo para fazer de mim um soldado. Se eu não tiver um grande monstro contra quem lutar, quem sou eu?”.

Com este episódio, Ai Weiwei sustentava a importância de ter crescido na China para se ter tornado um artista: “Eu não seria um artista, porque um artista não seria algo que eu classificasse como importante”.

As suas esculturas e instalações já foram vistas por milhões de pessoas em todo o mundo e um dos seus feitos arquitetónicos inclui uma contribuição no desenho do Estádio Olímpico “Ninho de Pássaro”, em Pequim.

O seu ativismo político pô-lo desde cedo sob a mira das autoridades chinesas, o que culminou numa detenção secreta em 2011.

Viria a ser libertado ao fim de alguns meses, sem qualquer queixa formal apresentada, mas teve o passaporte confiscado durante quatro anos e só em 2015, quando o devolveram, foi autorizado a sair do país.

Ai Weiwei viveu quatro anos em Berlim, na Alemanha, mudou-se para o Reino Unido, em 2019, e, desde 2020, está a residir em Portugal.

Atualmente com 63 anos, o artista e ativista chinês vive numa herdade no Alentejo, onde descobriu o fascínio por matérias primas portuguesas, como a cerâmica, a cortiça e o azulejo, e onde está a preparar o seu novo projeto expositivo, depois de ter levado exposições à Argentina, ao Chile e ao Brasil.

Trata-se de “Rapture”, uma exposição inédita - a primeira individual do artista em Portugal -, que juntará o lado terreno e o lado espiritual do autor, e que vai estar patente entre 4 de junho e 28 de novembro, na Cordoaria Nacional, em Lisboa.

As obras originais que vão constar desta mostra estão a ser produzidas no país, explorando técnicas tradicionais locais, revisitadas por Ai Weiwei.

Eleito o artista mais popular do mundo em 2020 pela publicação internacional The Art Newspaper, Ai Weiwei nasceu em 1957, em Pequim, e soma décadas de trabalho, sobretudo na área do documentário e das artes visuais, mantendo uma posição crítica sobre a China, em questões de direitos humanos.

Entre os seus trabalhos mais recentes está o filme “Coronation”, de 2020, que documenta os acontecimentos na cidade chinesa de Wuhan, durante a pandemia de covid-19, e como o governo e os cidadãos do país foram afetados e responderam ao surto.

Em outubro desse ano, numa conferência de imprensa em Lisboa, Ai Weiwei pronunciou-se quanto à forma como a China estava a lidar com a crise pandémica, considerando que o seu país estava a "controlar o vírus e a doença de forma muito eficiente".

E explicou porquê: "A China tem um sistema militar, e consegue exigir às pessoas que fiquem em casa e fechem as portas. Os chineses vão obedecer".

No ano anterior, Ai Weiwei filmara "The Rest", sobre a crise da migração, que se seguiu a "Human Flow", filmado em mais de 20 países, também sobre a temática dos refugiados, que exibiu em Veneza, em 2017.

Porque o seu tempo é precioso.

Subscreva a newsletter do SAPO 24.

Porque as notícias não escolhem hora.

Ative as notificações do SAPO 24.

Saiba sempre do que se fala.

Siga o SAPO 24 nas redes sociais. Use a #SAPO24 nas suas publicações.