Todos os conceitos padecem de um certo grau de complexidade, e a lusofonia não é exceção. A noção de que existem vários países espalhados pelo mundo onde a língua oficial é o português pode ser entendida como o símbolo de um passado conturbado e não inteiramente resolvido de aculturação forçada através do domínio cultural. Contudo, também pode ser encarada como uma mesma via de reconciliação, diálogo e partilha entre povos que facilmente podem comunicar entre si. Mas será que essa via está a ser bem explorada no panorama musical?

Foi nessa questão que um dos painéis deste primeiro dia do MIL se decidiu focar. Na Talks Room 1 do labiríntico Palacete dos Marqueses de Pombal, Luís Oliveira, jornalista e diretor de música da Antena 3, moderou uma conversa juntamente intitulada “Lusofonia: Uma Língua Que Pouco Ou Nada Colabora”.

Para discutir este assunto estiveram presentes quatro personalidades de naturalidade ou origem de diferentes países lusófonos: do Brasil veio Fabiana Batistela, diretora do festival SIM São Paulo, a representar Angola esteve o escritor e ex-Buraka Som Sistema Kalaf Epalanga, Selma Uamusse foi a voz de Moçambique, ao passo que Wilson Vilares, português filho de pais angolanos, trouxe a sua experiência a trabalhar com artistas lusófonos através da editora CelesteMariposa.

O título da conversa denunciou aquilo que acabou por ser a toada geral desta conversa com pouco mais de uma hora de duração: que sim, a lusofonia tem potencialidades imensas, mas tem sido uma ferramenta de aproximação descurada. Contudo, também não foi possível descortinar uma grande solução, antes apontar possíveis causas e arriscar algumas respostas às mesmas.

Kalaf, por exemplo, apontou para persistência de alguma ignorância e desconhecimento intercultural entre os países lusófonos, mas lembrou também que parte do problema passa por não haver renovação. Centrando-se no caso português, o escritor disse que “quando se tem pessoas ligadas a um centro de decisão que não estão expostas a uma cultura contemporânea, a coisa torna-se complicada” no que toca a estabelecer laços com as culturas lusófonas, lamentando a falta de “sangue novo” num país onde se recicla “muito devagar”.

Mas o ex-membro dos Buraka Som Sistema apontou também para o caso brasileiro, recordando que o conjunto de que fez parte teve uma projeção mundial que nunca foi verdadeiramente sentida nesse país. A explicação para tal, disse Fabiana Batistela, é que não só o Brasil foi tradicionalmente dominado pelo sertanejo - algo que defende estar a mudar dada a incapacidade do género musical de se renovar - como também é um país é “muito grande, onde cada região é um país diferente”, sendo difícil até para os artistas brasileiros obter aceitação global por todo o território.

Por ter um mercado interno tão forte e tão complexo, a diretora do SIM São Paulo disse que “o Brasil não comunica com os vizinhos latino americanos nem com os países lusófonos”, e esse fechamento teve repercussões. Com a iniciativa, essencialmente privada, de olhar para os outros mercados, Fabiana disse ter ficado “completamente apaixonada com a música portuguesa”, que “não conhecia de todo porque não tinha acesso”. Usando um termo de comparação com a atualidade, admitiu que “que uma das grandes referências da música portuguesa no Brasil quando estava a crescer foi Roberto Leal”.

Curiosamente, por ser uma artista mais recente e por já integrar várias convenções onde se pôde promover, Selma Uamusse disse já ter navegado pelos países lusófonos com mais facilidade que Kalaf, particularmente nesse Brasil que se manteve fechado durante tanto tempo. No entanto, disse que parte da razão para essa aceitação ocorrer a deixou um pouco desconfortável quando passou a recair no puro militantismo ativista, sendo mais importante aquilo que significava - uma mulher africana - e não a música que trazia. “É um pouco estranho que as pessoas gostem de mim porque sou negra, quero que gostem de mim porque acham que sou uma artista fantástica”, afirmou.

A cantora moçambicana foi ainda quem falou sobre a ausência de apoios concretos para artistas lusófonos, dizendo faltar “uma plataforma eficiente e eficaz, que seja abrangente e dê voz a diferentes pessoas em diferentes patamares” e “que permita mobilidade aos artistas dentro do mundo lusófono”, recordando as dificuldades burocráticas que muitos enfrentam para viajar. É, por isso, necessário, segundo a artista, que "a lusofonia não seja só um palavrão, mas um símbolo de globalidade".

Para além disso, Selma Uamusse recuperou a admissão de Fabiana de que o Brasil não comunica com os vizinhos para criticar a dependência que o mundo lusófono, à exceção deste país, tem com Portugal. “Os artistas lusófonos estão todos ligados a Portugal, mas não estão ligados entre si”, disse a artista, não havendo ainda formas de, enquanto moçambicana “fazer a ponte com o Brasil ou com Cabo Verde sem precisar de ser através de Portugal”.

Um pouco mais cáustica foi a opinião de Wilson Vilares, que lembrou que ainda existem muitas portas fechadas a artistas africanos em Portugal. Parte do projeto de divulgação Celeste Mariposa, que alia promoção à edição de compilações de artistas, Wilson falou de uma “era que é muito boa para esta música”, mas que continua a “não ter o devido respeito” em Portugal.  O também DJ caracterizou essa desvalorização ao evocar o caso de uma banda como os Contratempo, “que tem 35 anos e ainda recebe 400€ para ir tocar à Casa Independente”, quando se trata de um projeto de imensa popularidade em Cabo Verde.

Apontando para o facto de que em Portugal “as pessoas têm vergonha de aceitar que gostam de Kizomba”, Wilson Vilares a data altura foi perentório em afirmar que o título do debate estava errado, pois “a língua não atrapalha nada, são as mentes que controlam esta língua” que o fazem, apontando para um preconceito que ainda vigora.

É por se estar a navegar num caminho que se está a alargar, mas que permanece “estreito” que Wilson recordou como há muitos artistas lusófonos a recorrer a editoras de outros países, evitando o universo lusófono para o fazer. Esse ponto foi suportado por Kalaf, que trouxe o exemplo de “Bo Tem Mel” de Nelson Freitas como um êxito - criado na Holanda - que não precisou de passar pelos canais tradicionais para vingar. “Essa música está em contacto direto sem precisar de Lisboa”, referiu.

Nelson Freitas é um de muitos exemplos de artistas que obtiveram sucesso sem depender de recorrer ao universo lusófono. Outro foi partilhado ao SAPO24 por Miriam Brenner, já fora da sala de conferências, naquilo que é o típico ambiente de conversa e partilha do MIL. Diretora da ONG World Music Utrecht, manager e fundadora da agência Kokako Music, Brenner, baseada na Holanda, desde que se formou em musicologia que quis trabalhar com world music.

Tal interesse levou-a a aproximar-se da diáspora cabo-verdiana em Roterdão, cidade portuária onde vivem mais de 300 mil imigrantes e onde, inclusive, chegou a ser fundada uma editora, a Morabeza Records, durante a guerra colonial, para difundir música cabo-verdiana. Foi esse rumo que levou um colega seu a trabalhar na editora de raridades Analog Africa a mostrar-lhe Bitori, acordeonista lendário em Cabo Verde

“Foi na conferência Atlantic Music Expo, em 2014”, diz Miriam, que tomou conhecimento com a lenda do Funaná. “Mesmo tendo 77 anos na altura, estava bem de saúde”, pelo que “assim que descobrimos que ele estava em condições de fazer digressões, pensámos na ideia louca de formar uma banda para ele e começar a fazer tour". A aposta em Bitori foi um sucesso para todas as partes: para o artista, foi uma renascença tardia de carreira; para Brenner, o trabalho encorajou-a a continuar este rumo.

Daí começou a trabalhar com intérpretes angolanos, ajudando a lançar uma compilação de artistas de semba veteranos que sobreviveram à guerra civil em Angola e aproveitaram para formar uma banda também, os Conjunto Angola 70. A esta edição do MIL, trouxe consigo Miroca Paris - sobrinho de Tito Paris - que conheceu através de Bitori, porque era necessário trazer “sangue novo” à banda formada para o acordeonista. O intérprete, a estrear-se numa carreira a solo depois de tocar durante duas décadas para várias grandes figuras da música cabo-verdeana - Cesárea Évora, inclusive - vai tocar na sexta-feira no Titanic Sur Mer.

Miriam, que também assistiu à conferência, cita um provérbio português para justificar alguma negligência que se possa sentir no universo lusófono quando aos seus artistas. “Os santos da casa não fazem milagres”, menciona, porque "às vezes é preciso ir lá fora para ser reconhecido, já que cá dentro te tomam por garantido”. A agente, não querendo demonstrar uma atitude paternalista quanto à sua aposta em Bitori, destacou a importância de haver outros agentes interessados. “Eu estou ciente de que sou uma mulher branca proveniente da Europa e não quero vir com uma conversa de que o salvei ou assim", admite, mas diz que este foi “o caso de que às vezes é necessária uma perspetiva de fora para que as pessoas reparem”.

Para si, iniciativas como o MIL “não só podem como devem” quebrar barreiras no mundo lusófono. “É a responsabilidade de quem começa coisas destas”, aponta Miriam, acrescentando que, pela sua mistura de conferência com showcase musical, “é a oportunidade ideal de aproveitar algo realmente único aqui em Lisboa, ter um misto de lusofonia, dos Palop, de se criar música em conjunto e quebrar estereótipos"

Mas neste dia do MIL também foram apresentados vários exemplos de como a música lusófona se tem promovido autonomamente. Um deles veio do outro lado do Atlântico, mais concretamente de São Paulo. Tendo chegado este ano à segunda edição, ocorrida entre 6 e 7 de fevereiro, o Brasil Music Summit (BMS) é uma iniciativa recente que tem procurado exportar talento independente brasileiro.

Os pilares em que se baseia o BMS foram explicados por André Bourgeois, agente e parte da organização do certame. A sua lógica reside em juntar as facetas de Sync - de sincronização, termo que na indústria musical significa obter direitos para usar músicas em peças audiovisuais - e Branding com música ao vivo.

Segundo Bourgeois, o grande foco do BMS é "exportar música brasileira", tendo sido pensado - com apoio da instituição independente Brasil Música & Artes - para suprir “a necessidade de ter conferências de música no Brasil mais focadas e organizadas".

Para que melhor possa veicular talento, o agente diz que a organização opta por ter a maior diversidade possível, “porque entendemos que não somos nós quem decide o que vai ser exportado, são os agentes das editoras e dos festivais que escolhem", mas que, por outro lado, procuram bandas que já estão preparadas para exportação - “se não têm agenciamento ou não sabem falar inglês”, diz, “não estão”.

Nesta passada edição estiveram presentes não só nomes da música brasileira — como Céu, Andreas Kisser (Sepultura) e Karol Conka —, como também “40 profissionais de todo o mundo e perto de 600 delegados do Brasil, vindos de todas as grandes editoras musicais do país”.

Em termos internacionais, Bourgeois diz que o BMS conseguiu que festivais de países como Canadá, França, Reino Unido e os EUA marcassem atuações com vários artistas, adiantando que conseguiram ter “cinco bandas e assinar com editoras na Europa e entre sete e oito convidadas a ir a festivais no Canadá com apoios financeiros da organização”, entre outros exemplos.

Para a edição do próximo ano, promete ter um evento organizado não só em São Paulo, como também no Recife, a tempo do carnaval de Pernambuco, e que vai haver um palco em que talentos brasileiros possam colaborar com artistas internacionais, pois "exportar música é ter bandas a tocar pelo mundo, mas ao mesmo tempo também é colaboração".

Só que entre as paredes do palacete não se falou apenas do futuro musical, houve também quem falasse com propriedade do passado, ainda que com os pés assentes no presente. A encerrar este primeiro dia do MIL, Pena Schmidt teve uma conversa com o jornalista da Antena 3 Henrique Amaro, que o apresentou como “um pensador e um fazedor”. Homem dos sete ofícios na cena musical brasileira - foi técnico de som, produtor, promotor, agente, executivo, gestor de espaços e curador - o paulistano partilhou a histórias da sua longa carreira no Main Hall do MIL.

Com mãos que “tinham vocação para apertar parafusos”, mas não para tocar instrumentos, Pena Schmidt diz que as colocou “ao serviço da música”. Foi isso que o levou numa jornada que começou com o seu contacto com Robert Moog - criador dos sintetizadores Moog - aos 17 anos, que levou ao seu primeiro emprego como técnico numa loja de instrumentos, porta de entrada para depois passar a ser técnico de som dos Mutantes, lendária banda rock brasileira. O seu percurso levou-o a assistir ao nascimento do B-Rock, fenómeno concomitante com o Boom do Rock Português, e esteve “com as mãos na massa” quando ajudou a produzir álbuns de bandas gigantes do género, como os Titãs e os Ultrage a Rigor.

A sua influência hoje em dia na indústria da música deixou de estar tanto no lado da produção e do aspeto negocial, para assumir uma faceta de curadoria, sendo o responsável pela anual Lista das Listas, que cruza os tops dos melhores álbuns do ano no Brasil para medir quais são os artistas mais populares do país. É uma espécie de algoritmo feito a mão humana, uma característica que Pena Schmidt diz que não se pode perder, mesmo que o futuro seja tecnológico. “Temos de nos transformar numa geração de artesãos, por mais automatizados que estejamos, vai ter de haver contacto humano, empatia”.


 [Correção: Uma versão prévia deste artigo indicava que Wilson Vilares tinha herança cabo-verdiana. Esta informação foi corrigida] 

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