Este ano, nestas autárquicas, irei votar pela primeira vez na responsável condição de cidadão limiano. Quem deve estar feliz com isso é a Senhora minha Mãe...

Sempre dei grande importância ao meu voto. A missão que lhe incumbia era simples mas nem por isso pouco relevante: neutralizar o voto 'à direita' da minha querida progenitora.

Calhou de sermos opostos nessa matéria. Ela gosta dos laranjas, dos que são Portas e dos Marinhos Pintos desta vida. Já eu não consigo ir nada à bola com essa tropa. Por mais boa vontade que encontre em alguns, a forma como os vejo sonhar o mundo causa-me sempre uma espécie de urticária cerebral. Isso quando acredito que eles sonham, coisa que raramente acontece.

Graças a Deus sou de esquerda. Assim como a Senhora minha Mãe, que acredita mais Nele do que eu, se mantém fiel às direitas, resistindo estoicamente a décadas de propaganda esquerdista por parte do seu tão amado filho.

Nunca quisemos ir votar ao mesmo tempo. Mesmo assim não foram raras as vezes que nos cruzámos nas urnas:

- Bem que podias ter ficado em casa!

E por ali ficávamos a resmungar... num equilibro só nosso, que agora com alguma mágoa decidi romper.

O que aqui vim fazer com o meu voto é coisa que ainda não sei.

Este é um meio diferente, de singularidades mais vincadas. Há um forte sentido de comunidade e quem nela se envolve acaba quase parente de toda a gente.

Nunca pensei poder viver num clima de tanta proximidade. O certo é que me fui habituando a desempenhar o papel de 'irmão mais novo' desta família. Alguém teria de ser o 'irresponsável' cá da comarca.

A nossa querida vila sempre foi de ideias fixas. Gosta de fazer o seu caminho agarradinha ao corrimão da direita. Não corre, mas também não cai, e é dessa forma 'tão arrojada' que lá vai traçando o seu destino.

Na viragem do século, tornou-se a capital nacional da ruralidade. O atraso vindo de trás era tanto que só podia dar certo. Apostou-se nesse cluster e venceu-se. Será justo até dizer que todos beneficiámos com essa estratégia.

O mal é que a estabilidade é uma espécie de poltrona. Povo e classe política foram-se acostumando a esse tão fofo conforto. Ponte de Lima tem ficado cada vez mais gorda, à custa de uma 'alimentação' muito pouco equilibrada.

Se me pudesse marimbar para isso, já o tinha feito há muito. Mas a verdade é que me custa ver esta vila crescer com vontade de se transformar numa aldeia gigante, amontoando-se apenas do que conhece e aceita.

Cada vez se pensa mais em fazer o mesmo: mais feiras, mais concertinas, mais autocarros, mais caravanas, mais estátuas e mais qualquer palermice capaz de chamar a atenção.

Da direita 'pavoneante' de outrora, vamos passando sem respirar a esta direita do lucro e da quantidade. Lá fazer coisas é com eles, o grande mal é que nem sempre 'as pensam'. A criatividade desta terra foi engolida pelo 'empreendedorismo', assim como a própria esquerda acabou engolida pela direita.

A tal de 'ruralidade' tomou conta de quase tudo. Cinco candidatos de direita! Cinco!

Mas não pensem que tantas divisões resultaram de algum 'fervor ideológico', longe disso. Foi tudo apenas por se terem conhecido bem demais.

Quanto à esquerda, resta apenas um micro-partido comunista, que parece ainda viver na clandestinidade.

Muito sinceramente, não consigo perceber como é que uma vila que se preze poderá evoluir sem qualquer visão humanista e cosmopolita da sociedade.

Esta é uma terra com pergaminhos culturais, não podemos viver eternamente à custa do que foi criado pelos nossos antepassados. O que diriam eles, se vissem agora os de Coura (!) a serem o archote da modernidade alto-minhota.

E nós aqui nisto... passito a passito, cada vez mais parolitos.

O que venho cá fazer com o meu voto, pergunto-me eu outra vez. Costumo ter tanto respeito por ele... talvez por ser a única função política que me sinto capaz de exercer. Não reúno virtudes (nem defeitos) para poder conviver de perto com aquela bicharada. Por isso vejo o meu querido voto como fiel representante de todas as minhas utopias.

Muito me têm massacrado com os seus apelos:

- Isto não tem que ver com partidos! Nem sequer com ideologias! Nas autarquias vota-se nas pessoas!
Pois muito bem.

Lá vou abrindo os folhetos, vendo aquelas carinhas todas a olhar para mim, e tudo aquilo me tresanda à mesmíssima coisa.

Por mais esforço que eu faça, não consigo acreditar que alguém queira mudar o que quer seja com aqueles rodízios de criaturas. Quem ainda faz política de 'porta de igreja' não me parece capaz de romper com o 'eterno passado' que tanto me irrita. O passado da trapaça, dos favores, dos jeitinhos, da prepotência, da usurpação e de outras horrorosas formas de encarar a vida pública. Em qualquer folheto que abra, encontro quem lide ‘muito confortavelmente’ com essa realidade.

Ninguém me precisa dizer que haverá lá muitos do bem. Felizmente conheço alguns e estou certo que não serão os únicos. Teria até bons motivos para poder votar num ou outro. O mal é que eu já me conheço...

Quando domingo ficar a sós com o papel para a câmara, verei surgir em catadupa as caras de quem não gosto dentro de cada quadradinho. E em verdade vos digo, meus amigos, nem se tomar todos os sais de frutos que há na farmácia conseguirei fazer uma cruz.

Votarei orgulhosamente em branco, por respeito aos meus princípios, à minha família e a esta forma estranha que encontrei de estar na vida: A obrigação de ser livre.

Como democrata que sou, desejo felicidades a todos. Mas se nessa noite sentir que venci, será apenas por obra e graça do meu querido Sporting... e mesmo isso não se adivinha fácil.

Oh! Romantismo, a quanto obrigas.

Manuel António Pimenta é farmacêutico, cronista do jornal online 'O Minho' e dinamizador de um clube de leitura.

A Minha Terra é uma rubrica especial do SAPO 24 em que várias pessoas são convidadas a falar da sua terra, "à boleia" das eleições autárquicas do próximo dia 1 de outubro de 2017.

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