Para vingar, uma planta precisa de reunir as condições ótimas: a temperatura, a humidade, os nutrientes, o sol. Quando se quer incubar e aumentar as hipóteses de ela crescer, monta-se uma estufa capaz de definir cada parâmetro com a delicadeza necessária. Entre esta sexta-feira e o próximo domingo, o Porto e Odivelas tornam-se num horto do circo contemporâneo.

"A ideia é que, tal como acontece numa Estufa, se possam proporcionar as condições ideais para incubar a investigação de formas, conteúdos e experimentação técnica", descreve a organização em comunicado. Mostra Estufa, que arranca esta sexta-feira, abre as portas para o circo onde “a forte relação com a dança, artes plásticas e o teatro revelam uma multidisciplinaridade que integra o virtuosismo do circo em correntes estéticas atuais”.

“A técnica fica ao serviço de um conceito, um pensamento, uma ideia. Uma vontade de dizer algo mais e de questionar o lugar das técnicas de circo numa dramaturgia contemporânea”, sublinham os organizadores do evento.

Na estufa entram criadores, que "são na sua grande maioria jovens — não só —, mas sobretudo malta jovem que ainda está a começar e está a fazer as suas primeiras criações", explica Julieta Guimarães que, com Vasco Gomes, é uma das diretoras da Erva Daninha, a produtora responsável pela Mostra Estufa. "Ou seja, não estamos a falar de pessoas já com uma grande experiência ou com uma grande rodagem a fazer espetáculos".

Nesta edição chegam pessoas de Portugal, da Costa Rica, do Brasil, de Itália, de França — "estrangeiros que vivem em Portugal; portugueses que vivem no estrangeiro" —, numa prova de que "o circo não tem fronteiras".

"Esta mistura é um bocado um símbolo do circo contemporâneo, que é uma mistura entre a técnica de circo sim, mas o teatro, a palavra, o movimento e tantas outras áreas", acrescenta Julieta Guimarães.

Como estufa, entram no Campo Alegre as plantas que há. Não há uma linha que una narrativas, uma curadoria que subscreva um tema que não seja este de dar terra, sol e água ao circo contemporâneo do futuro.

"Ainda é cedo demais em Portugal para ter esse fio condutor assim marcado; tem sido uma das nossas dificuldades, não só na Mostra Estufa, que fazemos desde 2018, mas também no Trengo, que fazemos desde 2016", revela Julieta. "Não é fácil, porque não há muitos criadores e foi por isso que criámos a Mostra Estufa, precisamente para incentivar as pessoas a fazer algo mais com as técnicas de circo, que não sejam só os típicos números e os trabalhos mais fáceis na área comercial".

Área comercial que, aponta a diretora da Erva Daninha, acaba por ser uma ameaça à criação: "não é fácil rivalizar com a área comercial porque paga bem, é rápido, e eles têm algum talento técnico e facilmente vão daqui para um casino ou para um hotel e podem fazer muito rapidamente a vida disso."

"Este tipo de programações tenta que os criadores que têm esse talento, essa técnica vão buscar outras linguagens e enriquecer a matéria."

O "tríptico" do circo

Esta mostra não tem animais, tendas e palhaços de narizes vermelhos. A estufa está olhar para outro tipo de circo: o contemporâneo.

Julieta chama-lhe "o tríptico": "o circo tradicional, que já vem de há muitos séculos e que está diretamente associado a tendas, a famílias; depois temos o novo circo que mantém um bocadinho esta ideia de número após número, mas com uma nova roupagem; e depois o circo contemporâneo, que surgiu há muito menos tempo e que nos apresenta, por exemplo, espetáculos de uma técnica só — essa é uma das grandes diferenças. A outra é uma dramaturgia, a procura por temáticas fortes, por temáticas sociais ou políticas ou humanas."

"Começamos com o circo tradicional, temos uma passagem ali pelo novo circo, que ainda se mantém até hoje, ainda há este estilo mais de número após número, e, depois, chegámos ao circo contemporâneo em que de repente um artista de mastro chinês, como o João Paulo Santos, vai e faz um espetáculo de 35, 40 minutos só com aquela técnica, já não temos esta necessidade de introduzir várias."

Épater la bourgeoisie

No Porto, a avenida da Boavista liga a zona mais cara da cidade ao coração económico. É também uma enorme reta, linha que decalca alguns contrastes sociais do Porto rico do Porto ferido; do Porto burguês do Porto proletário.

A meio caminho entre a praia e Serralves, não é raro encontrar nos semáforos mostras de arte, ver o equilíbrio e a sincronia das coisas que voam e aterram precisamente onde o artista quer.

"Mellow Yellow", a primeira das propostas da estufa, vai buscar a rua e pô-la no palco. É a vida quotidiana e a performance unidas, numa fusão entre o abstrato e também o absurdo.

"A fronteira entre a realidade e a fantasia esbatem-se e o espectador é convocado ao estatuto de intérprete não atuante, mas participante pelo uso da imaginação face ao que perceciona no espetáculo", descreve a organização em comunicado.

Julieta Guimarães sublinha a provocação: "de facto, a diferença é muita porque se nós pensarmos na rua são coisas muito flash, que acontecem em muito pouco tempo, em 20, 30 segundos, são coisas que, mesmo se forem preparadas, têm um tempo muito curto de preparação e quando nós estamos a fazer um espetáculo às vezes demoramos meses a chegar a algum lado. O circo é muito, muito trabalhoso. Eu costumo dizer que são duas semanas [para criar] dois minutos."

A peça tem direção artística de Johan Lescop e a responsável pela coreografia é Isabelle Leroy. A interpretação, cocriação e cenografia estão a cargo de Juri Bisegna, Ottavio Stazzio e Ricardo S. Mendes, que entram no palco da Sala Estúdio cada um de forma mais estranha que o outro. Não há uma história concreta, mas também não faria sentido que houvesse uma narrativa entre o malabarismo e o contorcionismo, o drama e o simples facto de estarem três pessoas numa sala.

A segunda apresentação busca o multimédia, numa sucessiva provocação do espectador no Café Teatro.

Trata-se de "Memória", um projeto que faz da mente humana um bloco de plasticina, não apenas convocando ideias e pensamentos difíceis, mas também torcendo os limites do que julgamos possível.

"É, na essência, um projeto que ousa estudar aquilo que nos torna humanos, debruçando-se sobre a capacidade de imaginar e criar realidades que transformam e moldam as experiências de cada um. A complexidade da consciência é trazida à liça para a temática expressiva do circo contemporâneo, num trabalho com a assinatura de Mauricio Jara na interpretação e em cocriação com Bruno Machado", descreve a organização.

Mauricio Jara vai buscar o mais irracional medo humano e brinca com o susto para provocar quem ali está a ver — sem deixar de ser extremamente belo, porque o belo às vezes é só isso e não tem de ser mais do que um homem a dar cambalhotas com uma mesa e uma cadeira.

Depois, no Grande Auditório, há "Ferro à Ferrugem", trabalho que tem Alan Sencades enquanto criador-intérprete. "Converte, como se depreende pelo nome da peça, a ferrugem em protagonista: uma testemunha que presencia a ação do tempo sobre as vidas, quer se trate das orgânicas ou das inorgânicas como o metal moldado nos instrumentos de sopro. A maturação, envelhecimento e renascimento dos corpos está por analogia também no cerne deste espetáculo que conta com interpretação musical ao vivo de Bárbara Lopes (fagote)".

Mas esta é uma estufa, não nos esqueçamos, o lugar onde as plantas ganham força e crescem. "Estes espetáculos claramente não estão acabados", assume Julieta (embora esse pendor inacabado lhes dê, talvez, uma perspetiva mais interessante do processo criativo), "uns estão mais [acabados] que outros, mas claramente nenhum deles ainda está acabado, sente-se aqui ainda um potencial para crescer — mas eu vejo isso como uma coisa boa."

"Nós estamos aqui a abrir a porta, estamos a dar um apoio, estamos a dar algum dinheiro, apoio de produção, um teatro, público para que depois as coisas possam andar daqui para a frente". São estas estruturas que "têm feito muita falta."

"Os programadores ficam à espera de comprar a obra feita e não apoiam a sua criação. E acho que aqui, juntamente com o Teatro Municipal do Porto e com a Direção-Geral das Artes, conseguimos criar um mínimo de conforto para o pontapé de saída." Daí a "estufa": "A nossa ideia era mesmo criar uma incubadora para o circo contemporâneo", explica Julieta Guimarães.

Os espetáculos terão lugar às 19:30, nos dias 26 e 27, sexta e sábado, no Teatro do Campo Alegre, no Porto, e no dia seguinte, 28 de novembro, domingo, às 18:00, no auditório do Teatro da Malaposta, em Odivelas.

No Teatro do Campo Alegre, há ainda espaço para uma 'masterclass' com João Paulo dos Santos e, no sábado, às 17:00, a Conversa Mostra Estufa com artistas, moderada por Julieta Guimarães.

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