Alvalade, segunda-feira, meio de fevereiro. É com a oferta de uma bebida energética cuja marca, garantem, não lhes paga para tal efeito que a banda de "Amanhã Tou Melhor" nos recebe na sala de ensaios com lugar no bairro lisboeta que os adotou.

Num formato "Capitão Fausto+1", isto é, Tomás Wallenstein, Francisco Ferreira, Domingos Coimbra, Manuel Palha, Salvador Seabra, os elementos da banda, e o +1, maestro Martim Sousa Tavares, a conversa corre entre metáforas e analogias, umas mais visuais outras mais literárias — algumas até futebolísticas.

No papel iam perguntas sobre o concerto que este sábado tem lugar no Campo Pequeno, em Lisboa, mas não só — e o tempo foi curto para todas.

Não é uma estreia nesta sala, já a pisaram o ano passado, no festival EA Live e, em 2012, fizeram a primeira parte de um concerto dos Xutos e Pontapés. "Portámo-nos muito mal, chegámos duas horas atrasados ao ensaio de som e levámos um grande sermão de alguém da equipa dos Xutos. Deu-nos um raspanete que nunca mais nos esquecemos e foi muito merecido". Quem o conta é Tomás Wallenstein.

Merecido ou não, não foi o único. "Vários raspanetes depois, sentimo-nos finalmente prontos para tocar no Campo Pequeno em nome próprio", continuou. 

Em cima da mesa, literalmente, estava a preparação daquilo que hoje sobe à arena nas Avenidas Novas. À data ainda só existia  um alinhamento, de um concerto que Tomás apelidou de “grossista”, e muita vontade. Isto porque esta ideia não nasceu há semanas, nem há meses. Nasceu há anos, entre amigos que ainda não eram “os" Capitão Fausto ou “o” maestro Martim Sousa Tavares.

Este convite já tem para aí 10 anos”, revela o maestro. Quando colegas de liceu, Martim era o realizador de serviço nos concertos dos ainda IC19 (banda que depois deu origem aos Capitão Fausto). Há inclusive, recorda Salvador Seabra, “no YouTube um vídeo filmado pelo Martim”.

O (re)encontro dos Fausto com o maestro acontece na “altura certa” e num certo “ponto de maturidade de ambas as partes”. Mas também porque a música é a dos Fausto. Isto é, “há certa música que dificilmente se prestaria a um exercício de expansão orquestral”, diz Martim.

“O tipo de banda que procura este trabalho sabe que tem um produto que aguenta o teste de stress que é ter uma Orquestra atrás. Porque a Orquestra não é tipo um karaoke, o Tomás não pode cantar por cima de uma trilha de karaoke, a banda continua a fazer aquilo que fazia e a Orquestra é como uma esponja”.

Entre Martim e os Fausto há uma "simbiose" que comparam a uma linha de montagem. As músicas são como um sapato, o maestro cose e mete atacadores. Depois a banda calça-o ou manda de novo para a forma. Um processo que se pode repetir até estar pronto a gastar sola em palco.

"É uma orquestra que não tem medo, não tem pudor, não é snob e sai da casca"

Mas o maestro faz questão de sublinhar que “não dirige” a Orquestra Filarmonia das Beiras e recorre a (mais) uma metáfora para explicar porquê. "É como se as equipas de futebol pudessem convidar treinadores só por uma jornada. É como se o Lito Vidigal fosse treinar o Santa Clara por uma jornada, tem bons jogadores, mas não foi ele a montar a equipa", explica.

Vestindo, ainda assim, a camisola, Martim Sousa Tavares desdobra-se em elogios aos quase cinquenta músicos que irá dirigir. "A Orquestra Filarmonia das Beiras é uma das melhores a fazer este tipo de projetos. É uma orquestra que não tem medo, não tem pudor, não é snob e sai da casca", destaca.

O concerto no Campo Pequeno acontece depois de um conjunto de 11 datas por auditórios nacionais . É um fim de ciclo, e não o é ao mesmo tempo.

A banda já abordou o tema entre si: "É, sem dúvida, uma celebração de um fim de um ciclo. Mas nós ainda vamos andar a tocar este disco ["A Invenção do Dia Claro", 2019] pelo menos até ao fim do ano, enquanto planeamos novas ideias para o futuro”, diz Tomás. 

“Não vamos enterrar o disco, até porque não temos mais nada para tocar ao vivo”, acrescenta Salvador.

Não há novidades, mas há vontade. "Disco após disco, chegamos sempre a este momento em que gostávamos de já estar a compor", continua Domingos. Mas até lá ainda falta "um período de reflexão, sem paragens", algo que se torna difícil "a montar e a desmontar, a ensaiar um dia e a dar concertos no outro", recorda. "Nós precisamos de ficar a pastar", remata.

A Assembleia de Alvalade

Da boca dos Fausto sai sempre um “nós”. “Nós” fizemos, “nós” pensámos, “nós” decidimos”. É assim que as coisas funcionam na "Assembleia de Alvalade". Até no desenho do palco do Campo Pequeno — "a execução técnica é minha [Tomás], mas a concepção é do grupo".

“As ideias de cada um passam pelo escrutínio democrático da Assembleia de Alvalade e as decisões acabam por ser tomadas em conjunto. Somos autores de tudo; somos autores das coisas uns dos outros”, remata Tomás.

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