O percurso podia ser traçado pelo cantautor brasileiro Jorge Ben Jor, quando, em 1969, escreveu “País Tropical”, mas é do outro lado do oceano Atlântico que se inicia a história, num espaço que já havia sido uma pedreira.

É junto a um grande lago que a responsável pela manutenção da Estufa Fria começa a sua “aula de botânica”.

Em declarações à agência Lusa, Alexandra Canha revela que aquele local “é um sítio onde os continentes não têm fronteiras”.

“Conseguimos encontrar plantas originárias de África do Sul ou plantas da Ásia – do Japão e da China -, e parece que está tudo integrado, que nasceu tudo assim, mas não é bem assim”, salienta a também engenheira agrícola, acrescentando que a Estufa Fria tem “perto de três centenas e muitas espécies” de plantas.

Inaugurada em 1933, a Estufa Fria situa-se no Parque Eduardo VII e também teve de fechar portas na sequência da pandemia de covid-19.

Com uma área de superior a um hectare, o jardim botânico, que é constituído por três ambientes diferentes (Estufa Fria, Estufa Quente e Estufa Doce), reabriu ao público em 18 de maio, com reforço de segurança e higienização, mas sem a afluência de público habitual para a época.

“Nesta altura, nós tínhamos muita gente, tínhamos centenas de pessoas num dia e, por exemplo, ao domingo de manhã, que entrada é gratuita, nós tínhamos muita procura”, realça Alexandra Canha.

Segundo a bióloga, a partir de fevereiro, costumavam entrar cerca de 500 pessoas na Estufa Fria, nas manhãs de domingo.

Agora, entram na estufa “pouco mais de uma dezena” de visitantes por dia.

“Nesta altura do ano, nós tínhamos muitos pedidos de escolas e de universidades seniores”, lembra, lamentando o facto de não haver visitas guiadas.

Com várias coleções de espécies de plantas, a responsável destaca os fetos, as camélias, os brincos-de-princesa e as begónias.

“Não é muito vulgar encontrar tantas espécies assim num sítio como a Estufa [Fria]”, afirma, adiantando que no espaço há “cerca de 50 exemplares” de camélias.

A descer as escadas da Estufa Quente em direção à Estufa Fria, estão dois irmãos que procuram a tranquilidade e o contacto com a natureza.

“Agora, com esta coisa da covid-19, uma pessoa opta por ir a sítios mais arejados, com mais circulação de ar e que esteja em contacto com a natureza”, conta à Lusa José Rocio.

Admirador de botânica, o jovem considera que a Estufa Fria é “sempre um bom sítio para visitar” e nesta altura ainda mais, porque “está tudo a crescer imenso com a primavera e com as temperaturas altas”.

Para José Rocio, visitar a Estufa Fria é como viajar sem sair da cidade.

“O que mais me atrai, mesmo, é a parte tropical da estufa… Toda ela é um bocadinho tropical. Se for comparar com a estação mediterrânica, toda ela é exótica, porque não tem muita coisa que seja endémica daqui, de Portugal, mas a parte que me interessa mais são os exóticos”, observa.

Ao seu lado, encontra-se a irmã, que visita a Estufa Fria pela primeira vez.

“É a primeira vez que cá estou. Estou a adorar a experiência. É bastante diferente dos locais que costumo frequentar”, revela Ana Carlos, ressalvando que o interesse para a botânica “está a começar a despertar” agora.

De acordo com a visitante, o período de pandemia pode influenciar a criação de futuros espaços verdes, no sentido de diminuir a concentração de pessoas dos centros comerciais e das lojas.

“É algo que vamos aprender a valorizar muito mais agora”, refere, acrescentando que na Estufa Fria há uma valorização da tranquilidade e da natureza.

Ana Carlos aponta ainda para uma experiência diferente fora do contexto de uma cidade como Lisboa, em que “é tudo mais urbanizado”.

“Aqui estamos num ambiente completamente diferente. Por causa desta situação toda [da pandemia], torna-se um bocado stressante as pessoas saírem à rua, o que é completamente compreensível, mas aqui não. Aqui, está-se em paz e podemos estar mais descansados”, suspira.

No centro da capital portuguesa, há um jardim exótico onde as pessoas procuram a paz muitas vezes esquecida pelo 'stress' do dia-a-dia.

A Estufa Fria é uma espécie de pequeno país tropical, em que é “bonito por natureza”, citando Jorge Ben Jor, mesmo em época de pandemia.

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