Em entrevista à agência Lusa, Miguel Honrado, que já foi secretário de Estado da Cultura (2016-2018) depois de presidir o Teatro Nacional D. Maria II, afirmou que aceitou o convite para liderar a AMEC com “as maiores expectativas”, pela especificidade que representa no panorama cultural e educacional, e por ser uma referência nacional”.

A AMEC gere a Orquestra Metropolitana de Lisboa e, ainda, três escolas — a Academia Nacional Superior de Orquestra, o Conservatório de Música da Metropolitana e a Escola Profissional Metropolitana –, além das respetivas orquestras de alunos, como a Orquestra Académica, a de Sopros e a Clássica Metropolitana.

À frente da AMEC, Miguel Honrado pretende dar “uma sequência a todo o trabalho feito e acrescentar-lhe novas etapas de desenvolvimento”, nomeadamente o “alargamento da sua influência geográfica, que é um fator fundamental para a construção da sua identidade”.

O gestor cultural recordou que a AMEC, “que tem um caráter diferenciador pelo cruzamento entre as suas inúmeras capacidades pedagógicas e as artísticas”, celebra 30 anos em 2022.

“Um horizonte que me apraz trabalhar desde já, e que pode ser uma viragem do próprio projeto”, disse à Lusa.

Esta “viragem” deve ser entendida no sentido de “uma consolidação financeira” da AMEC, ainda “com fragilidades”, não sendo alheia a vontade de, até lá, recuperar o edifício onde a associação está instalada, a antiga fábrica da Standard Elétrica, na Junqueira, em Lisboa, frente ao rio Tejo.

“Trata-se de um edifício classificado, da autoria de Cottinelli Telmo [1897-1948], pelo que se tem de ter cuidado”, mas que se pretende “mais funcional”, equacionando ainda a saída da Escola Luiz Vilas Boas, do Hot Clube de Portugal, que ali se encontra instalada, com caráter temporário, desde 1996.

A saída da Escola do Hot Clube tem de ser pensada com a Câmara de Lisboa, um dos fundadores da AMEC, e com a maior contribuição financeira. No ano passado, a participação da câmara lisboeta foi 1,125 milhões de euros.

Na passada quinta-feira, a Câmara aprovou um aumento da contribuição anual, em 25 mil euros, para 1,150 milhões de euros por ano.

O diretor executivo defendeu a existência de um auditório-sede para a Orquestra, “que está sempre no horizonte, mas para o qual não estão ainda reunidas as necessárias condições”, embora a o projeto continue “sobre a mesa”.

Honrado referiu, por outro lado, a vontade de um “contínuo alargamento geográfico” da AMEC, no âmbito da área metropolitana de Lisboa, coerente com a sua identidade”, e reconheceu haver condições para tal.

Esta é uma questão que vai “começar a tratar-se desde já”.

Setúbal foi uma das autarquias citadas pelo diretor executivo. “Setúbal é um dos promotores com o qual temos tido uma relação mais profícua, estável e passível de desenvolvimento futuro”, sentenciou.

O responsável referiu também “os bons resultados já alcançados com as diversas atuações” das orquestras da AMEC naquela cidade, “que se tem desenvolvido muito, culturalmente, nos últimos anos”.

“Setúbal é um possível promotor a considerar”, sublinhou.

Além de Setúbal, os outros promotores são Caldas da Rainha, Lourinhã e Montijo.

Referindo-se à gestão do seu antecessor, António Mega Ferreira, Miguel Honrado qualificou-a como “corajosa” e “fundamental para a estabilização” da associação.

“Há estabilidade necessária, que constitui uma base sólida para prosseguir o alargamento e o desenvolvimento do projeto AMEC”, declarou.

Quanto à internacionalização da Orquestra Metropolitana de Lisboa (OML), Miguel Honrado considerou-a “fundamental” e defendeu “uma irradiação maior para os países de expressão portuguesa e trabalhar mais na Europa”, projetos para os quais “é necessário financiamento”, que “pode ser alocado”.

“Estou a pensar designadamente em relações de parceria e colaboração que podem ser estabelecidas quer por via artística, quer por via pedagógica com entidades congéneres europeias ou que desenvolvam atividade dentro de linhas de missão idênticas ou confinantes com a Missão da AMEC/Metropolitana. Este trabalho em rede pode ser candidato a financiamento comunitário como o que decorre, por exemplo, do Programa Cultura, gerido pela Comissão Europeia. Não obstante existem ainda outros programas, na dimensão educacional e pedagógica, também de gestão comunitária, que podem ser analisados e eventualmente explorados sob a mesma perspetiva”, esclareceu.

Outra área corresponde às gravações discográficas, que estão “no plano estratégico” da AMEC, até porque, como considera, “o disco [é] um suporte interessante”, mas “há que fazer com prudência e definir muito bem os alvos”, afirmou o diretor executivo.

No ano passado, as diferentes entidades que a AMEC tutela realizaram 500 atividades às quais assistiram 90.000 espetadores, disse Miguel Honrado.

Encontrar “um mecenas global” é outro objetivo de Miguel Honrado, como afirmou à Lusa. Em dezembro de 2018, a AMEC perdeu a Caixa Geral de Depósitos como mecenas.

Quanto à vertente pedagógica, Miguel Honrado salientou “a excelência do ensino”, que se reflete “numa elevada taxa de empregabilidade”, com “muitos alunos a encontrarem lugares em orquestras estrangeiras”.

Atualmente, a AMEC leciona do 7.º ano ao 12.º ano de escolaridade, contando 350 alunos.

Questionado sobre a manutenção da equipa, nomeadamente o atual diretor artístico, o maestro e compositor Pedro Amaral, e a direção pedagógica, Honrado disse que, no setor pedagógico, “há atualmente uma equipa interina que dará tempo a escolher uma nova direção”, já que o anterior responsável, Nuno Bettencourt Mendes, aceitou um convite para trabalhar no estrangeiro.

Quanto a Pedro Amaral, salientou que “foi fundamental nos últimos oito anos para elevar o nível artístico que a OML alcançou”.

Pedro Amaral, 48 anos, é diretor artístico da AMEC desde 2013 e maestro titular da OML, desde 2018.

Antigo programador cultural, Miguel Honrado defendeu “a autonomia do programador”. “Enquanto diretor executivo, não intervenho diretamente na direção artística”, sublinhou.

A autonomia do programador “é um princípio fundamental para qualquer instituição cultural”, declarou Miguel Honrado, defendendo um “trabalho de equipa” com o diretor artístico.

“Vou trabalhar com o maestro Pedro Amaral”, disse Honrado.

Miguel Honrado, ex-administrador do Centro Cultural de Belém, que dirigiu o Teatro Viriato, em Viseu, a empresa municipal de cultura, EGEAC, e o Teatro Nacional D. Maria II, antes de assumir a pasta de secretário de Estado da Cultura, sucedeu a António Mega Ferreira, que desempenhou funções à frente da AMEC, entre 2013 e 2019, e cessou o mandato a seu pedido.

Além da Câmara de Lisboa, são “associados fundadores” da AMEC diferentes departamentos governamentais (Cultura, Educação, Solidariedade Social, Juventude) e o Turismo de Portugal.

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