Há inícios de músicas que são inesquecíveis. Da harmónica de Rui Veloso n’”A Paixão (segundo Nicolau da Viola)” ao “Nananana nananana” de Tony Carreira nos seus "Sonhos de Menino", do “Sonhaaaaar” das Nonstop (já relembrado nesta rubrica, de resto) ao baixo sincopado de Tim n’”A Casinha” dos Xutos & Pontapés. “My Wonder Moon”, dos Hands on Approach, faz parte deste lote.

O single foi o primeiro da banda, criada no final dos anos 90 e que lançou primeiro álbum, “Blown”, em 1999. O milénio aproximava-se do fim mas nem por isso deixou de ser relativamente profícuo para o pop-rock nacional, com a criação de diversos projetos musicais: dos mais alternativos, como os Belle Chase Hotel ou os Ornatos Violeta, a outros que se tornaram autênticos fenómenos como os Silence 4, é indesmentível que se tratou de uma altura a que, de alguma forma, foi importante para a música portuguesa. E os Hands on Approach acabam por fazer parte dessa história.

De facto, qualquer aprendiz de guitarra autodidata que se preze começa a sua “carreira” com “Dunas”, dos GNR. A seguir, se o objetivo for utilizar a guitarra para a nobre arte de cortejar alguém, avançava-se para o insuspeito “More Than Words” dos Extreme (que, de resto, um dia será devidamente abordado neste espaço), em que o skill ao nível do dedilhar era mais exigente. Daí ao “My Wonder Moon” era um pulinho. O dedilhado inicial tornou-se viral numa altura em que ainda não havia Facebook, passando de guitarra em guitarra, em ajuntamentos de amigos ou no quarto de alguém que, sozinho, tentava que a aprendizagem de um instrumento fosse um meio para os ter – qualquer semelhança com a história de vida deste que vos escreve é pura coincidência.

“My Wonder Moon” é, por isso mesmo, uma música que acaba por unir “toda” uma geração de nascidos na década de 80 – os early-millennials, no fundo. Quer se goste ou não do tema, o que é certo é que o mesmo se tornou reconhecido por toda uma geração. É uma canção que fala sobre a importância das... canções. Que diz que, na maior parte das vezes, basta cantar bem alto com a ajuda de amigos e de alguma bebida, vá! (“Screaming aloud, a bottle on the ground, with my friends sitting around”), para que o dia fique completo. Porque, nada verdade, nada mais importa (“Don’t really matter what’s going on”) do que a própria música. E a lua, claro.

A lua é a protagonista da canção – é “ela” que, de alguma forma, acompanha Rui David (vocalista da banda, de voz inconfundível) nas suas canções. É “ela” que dá título ao tema. É ela que chega depois do sunset, numa altura em que o termo ainda não era associado a festas de praia com tipos exageradamente musculados e “barrados” a creme, música eletrónica e vodka limão a 37 euros às seis da tarde. Saudades dessa lua.

Sendo justo, os Hands on Approach estão longe de qualificar a sua existência como “One Hit Wonders”. Do primeiro álbum, podemos dizer que o segundo single, “Silent Speech”, foi bastante reproduzido nas rádios nacionais. Adicionalmente, é com o fenómeno “Morangos com Açúcar” que chega talvez o segundo grande sucesso da banda. “If You Give Up” fez parte da banda sonora da série juvenil e foi entoada por muitas (e muitos, não mintamos...) jovens adolescentes, desejando que Simão e Ana Luísa (representados por um Pedro Teixeira e uma Cláudia Vieira a darem os primeiros passos no mundo da TV) ficassem, enfim, juntos.

Os Hands on Approach lançaram mais três álbuns depois de “Blown” e prometeram recentemente voltar aos discos. Para já, está cá fora o single “Young Lovers” (divulgado em Junho deste ano). É certo que é difícil saber se o novo disco nos trará de volta a lua. Mas aqueles acordes iniciais de “My Wonder Moon”, esses, já ninguém nos tira.

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