Estavam há poucos minutos em palco, no Castelo de Sines, às primeiras horas de sexta-feira, quando os gritos pela libertação da Palestina as obrigaram a interromper a atuação. Manifestamente incomodadas, perderam uns minutos a tentar pôr água na fervura. Primeiro sem grande sucesso, à semelhança da resolução de um conflito que se arrasta há demasiado tempo. Depois, as vozes ativistas se foram dissipando, acedendo aos pedidos paz e amor, desenhados em corações com os dedos, imitados pelo público.

Porém, os ânimos não arrefeceram entre a assistência, argumentos esgrimidos entre os que não queriam perder a oportunidade de ter ali o que consideram ser representantes do Estado de Israel, ocupante da Palestina, e os que pediam aos primeiros para não interferirem com a música e os deixarem usufruir dela em paz.

Tenso e intenso, o concerto das irmãs Tair, Liron e Tagel Haim, netas de judeus árabes que migraram do Iémen para o então recém-formado Estado de Israel, baseou-se no disco de estreia, "Habib Galbi", um fenómeno de sucesso da música do Médio Oriente.

“É uma bênção, chegarmos a sítios onde não podemos ir. A música pode voar até lá”, realçaram as irmãs, em viagem por Europa e Estados Unidos neste verão, em entrevista à Lusa, antes do concerto em Sines.

“Israel é um país de imigrantes, com muita gente do Iémen, de Marrocos, da Europa, dos Estados Unidos. Não é assim tão estranho, mas sabemos que pode parecer uma conjugação especial”, reconhecem.

“Para nós é natural, usamos muitas identidades e isso é lindo. Convocamos as pessoas para se sentirem confortáveis na sua própria pele, com todas as suas identidades. Somos mulheres, irmãs, músicas, iemenitas, israelitas, é normal, é lindo ser colorido”, acrescentam, fazendo notar as suas vestes coloridas.

Israel “é uma zona de conflito, mas nós focamo-nos na arte”, relativizam. “Ninguém gosta [de viver num país militarizado], mas estamos mais ou menos habituadas e focamo-nos nas coisas boas, em espalhar amor e música”, explicam, contando que têm sido bem recebidas pelos públicos de países árabes. “Levamos esperança às pessoas e recebemos muita esperança e muito amor em troca”, acreditam, assumidamente otimistas.

Neste quadro artístico, a fé fica de fora. “A religião separa as pessoas e nós gostamos de unir as pessoas. Deixamos a religião e as diferenças de lado”, frisam. “Acreditamos numa grande floresta a que chamamos deus, mas deus está em todo o lado e em todas as coisas. Só queremos ser capazes de contar histórias e convidar as pessoas para a A-WA experiência, não importa de onde venham”, resumem.

“A música é uma cura”, acreditam, empenhando-se numa “celebração em palco”, que mistura folclore tradicional iemenita com groove, electro e hip hop.

Fazem música feminina e, concordam, depois de pensarem um pouco, feminista também, antecipando que o segundo álbum, no qual estão já a trabalhar, será feito de “histórias originais iemenitas, contadas da perspetiva das mulheres”.

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