Intitulada “A Rainha da Beleza”, na versão da companhia teatral ASSéDIO, que recorta do título original a localidade onde a ação se passa (“A Rainha da Beleza de Leenane”), a peça põe em palco duas mulheres como protagonistas, residentes numa pequena aldeia irlandesa chamada Leenane, na região de Connemara: uma mãe, Mag (interpretada por Filomena Gigante), aparentemente debilitada e carente de auxílio, e a filha, Maureen (Benedita Pereira), que se ressente de ter a mãe como sua dependente numa casa de onde já saíram as duas irmãs.

“O tema é um tema que está na ordem do dia, é um conflito familiar, são duas mulheres que estão presas no mesmo destino, uma agarrada à outra. A Maureen toma conta da mãe e a mãe manipula constantemente. […] Este conflito é muito presente hoje em dia”, disse à Lusa o encenador, João Cardoso, no final de um ensaio para jornalistas.

Originalmente estreada em 1996, em Galway, na Irlanda, quando o anglo-irlandês Martin McDonagh tinha 25 anos, a peça foi um sucesso imediato, tendo estado em digressão logo nesse ano e sido depois nomeada para um prémio Laurence Olivier. Dois anos depois, chegou à Broadway.

Para além do sucesso, à semelhança de outras obras de McDonagh, durante anos classificado como um “enfant terrible” do mundo teatral, “A Rainha da Beleza” gerou controvérsia pela dureza com que (re)trata as personagens.

“É um tipo de violência que às vezes se torna inevitável devido à condição das pessoas. Estamos a falar de uma aldeia irlandesa, com poucos habitantes, as pessoas já por si são fechadas e a Maureen não encontrou, num determinado momento, motivo para sair ou alguém que a puxasse, como aqui no nosso interior. É muito parecido, é uma aldeia rural na Irlanda, muito parecida com as aldeias que [temos] e que limitam as pessoas, agarram as pessoas. E depois isto leva a uma exasperação que facilmente gera violência”, realçou João Cardoso.

Desde o começo da peça, que decorre na casa de Mag e Maureen, com um fogão de sala a um canto e uma televisão noutro, que há tensão entre as duas protagonistas: “És velha e estúpida e não sabes o que estás para aí a dizer”, diz Maureen à mãe, poucos minutos depois da primeira discussão a que se assiste.

Uma conversa sobre um homem que matou uma mulher sénior em Londres rapidamente desemboca numa fantasia, por parte da filha, sobre a possibilidade de esse mesmo homem as visitar para fazer o mesmo a Mag.

Pelo meio do conflito entre as duas mulheres, surge como pano de fundo a Irlanda e a sua existência em relação ao exterior: o orgulho na língua irlandesa, que não ajuda na procura de emprego fora do país, como realça Mag, e a pobreza económica do país que forçava os seus cidadãos a emigrar.

Num diálogo revelador, quando Maureen leva um homem, emigrante em Inglaterra, para casa, enquanto Mag dorme, ela refere-se à “velha Irlanda, [onde há] sempre alguém a ir-se embora”, o que faz com que Pete Dooley (interpretado por João Castro) diga, com um encolher de ombros: “O que é que se há de fazer?”. Maureen tem a resposta na ponta da língua: “Ficar”, diz, quase indignada, num lembrete de que ela, sim, ficou.

“A Rainha da Beleza” é a primeira obra da chamada “Trilogia de Leenane”, de McDonagh, a que se seguem “A Skull in Connemara” (nunca encenada em Portugal, segundo a base de dados do Centro de Estudos de Teatro da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa) e “Oeste Solitário” (encenada uma única vez em Portugal, pelo Teatro das Beiras, em 2006).

Questionado sobre se a ASSéDIO teria planos de dar continuidade à trilogia, João Cardoso indicou que “para já não”, embora não feche a porta à ideia.

“A Rainha da Beleza” tem encenação de João Cardoso e interpretação de Benedita Pereira, João Castro, Filomena Gigante e Pedro Quiroga Cardoso. A cenografia e os figurinos são de Sissa Afonso, a sonoplastia de Francisco Leal e o desenho de luz de Filipe Pinheiro.

A estreia, pela ASSéDIO, acontece hoje, no grande auditório da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão, que coproduz, onde fica em cena até domingo (hoje e sábado às 21:30, no domingo às 17:00), seguindo depois para a sala de bolso da companhia, no Porto, entre 01 e 12 de junho.

No Porto, a lotação máxima será de 40 pessoas, o que significa que “vai ser outro tipo de espetáculo”, como disse João Cardoso.

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