As partículas finas e ultrafinas do incenso queimado em ambientes fechados podem ter efeitos adversos na saúde, diz uma equipa de investigadores liderada por Rong Zhou, da South China University of Technology e da China Tobacco Guangdong Industrial Company. O trabalho "Higher cytotoxicity and genotoxicity of burning incense than cigarette" foi publicado no final de Agosto na revista científica Environmental Chemistry Letters e declara que o incenso tem muitos "componentes aromáticos, irritantes e tóxicos" que são mutagénicos - ou seja, de forma simples, podem alterar material genético como o ADN.

A genotoxicidade das quatro amostras de incenso revelou-se maior do que uma amostra de cigarro, sendo ainda mais citotóxicas em testes em células de salmonela e ovárias de ratos. Todos esses efeitos mutagénicos, genotóxicos e citotóxicos em células estão aparentemente ligados ao desenvolvimento de cancros.

Ingredientes tóxicos

O incenso é fabricado de vários materiais, sendo a madeira de ágar e de sândalo "dois dos ingredientes mais comuns". Juntas, as amostras de incenso testadas continham 64 compostos diferentes, com "ingredientes em duas das amostras conhecidos por serem altamente tóxicos".

Zhou e a equipa apontam que há cada vez mais estudos sobre a poluição do ar em ambientes fechados também porque mais pessoas ali passam mais tempo. "Apesar da queima de incenso ser uma das maiores fontes" desse tipo de poluição, a sua investigação tem merecido uma reduzida atenção por ser um fenómeno regional, ocorrendo "em muitas famílias e na maioria de templos na Ásia por razões religiosas e pelo seu cheiro agradável". Quando queimado, o incenso liberta partículas que podem ser inaladas. Estudos desde 1977 demonstraram que a sua queima está correlacionada com potencial cancro de pulmão, leucemia infantil e tumores cerebrais.

Os investigadores chineses, no entanto, declaram que não se pode dizer "simplesmente que o fumo do incenso é mais tóxico do que o fumo do cigarro devido às diferenças de estilo no consumo destes produtos" - também pela pequena base de análise, enorme variedade de paus de incenso à venda e diferenças no seu uso em relação ao cigarro. Mas este estudo pode servir de base para investigações futuras sobre o incenso, dizem. O alerta de pouco serviu, com jornais como o britânico Daily Telegraph a apelarem para que o incenso tenha um rótulo de perigoso, como sucede no tabaco.

Relações perigosas

No site do sistema nacional de saúde do governo britânico, o estudo foi analisado, notando-se à partida que dois dos investigadores (incluindo Zhong) trabalharam para a empresa tabaqueira da China ("o que "levanta suspeitas sobre a imparcialidade da investigação") e que não há indicação da origem do financiamento da investigação.

A associação à indústria tabaqueira é "do interesse desta", para levar "as pessoas a pensar que o fumo do cigarro e a queima do incenso são equivalentes - o que não é o caso", refere. "O incenso não é fumado e assim não é directamente levado para os pulmões da forma como o fumo do tabaco é, pelo que os efeitos nas células pulmonares podem ser muito diferentes", diz o texto do NHS, mas qualquer queima de produtos em ambiente fechado - seja incenso, carvão ou tabaco - "produz fumo que pode irritar e danificar os pulmões". Relativamente ao estudo, salientam que "o fumo do incenso era tóxico em concentrações mais baixas do que o fumo do cigarro".

"A sugestão de que o fumo do incenso pode ser mais prejudicial do que o fumo do cigarro necessita de ser tratada com cuidado", nota o NHS, tanto mais que "a investigação com células animais em laboratório não é a mesma que a investigação em seres humanos", nomeadamente com "substâncias em forma diluída no ambiente".

Evidências anteriores

O mesmo NHS analisou, em 2008, um outro estudo relativo ao fumo do incenso e o risco cancerígeno. O mesmo baseava-se em dados obtidos num anterior estudo sobre hábitos de dieta e nutrição no desenvolvimento do cancro, que durou de 1993 a 1998, sendo retomado com dados até 2005, e envolveu mais de 61 mil chineses de Singapura entre os 45 e os 74 anos.

A conclusão foi a de que o incenso continha químicos que podiam potenciar o cancro, nomeadamente nas vias respiratórias, tendo afectado cerca de 1.300 pessoas, dizia o estudo "Incense use and respiratory tract carcinomas", financiado pelo National Cancer Institute norte-americano e publicado na revista Cancer.

No entanto, salientava-se que os participantes dos estudos que "actualmente ou antes usaram incenso não tiveram um risco aumentado de cancro respiratório comparados com pessoas que nunca o usaram". Em Portugal, em 2013, também a Deco alertou para o uso de incenso, pela "presença de substâncias nocivas para a saúde".

A associação defendia a remoção de quatro marcas de incenso por conterem benzeno e formaldeído, “duas substâncias reconhecidas pelos seus efeitos cancerígenos”. E já então era efectuada a ligação ao tabaco: “um só pau de incenso pode emanar benzeno em quantidade equivalente à de cinco cigarros”, afirmava a Deco.

Em resumo, e seguindo a recomendação ao Daily Mail de Nick Hopkinson, médico conselheiro da British Lung Foundation, pessoas com problemas de pulmões ou em ambientes domésticos com crianças devem evitar a queima de incenso.

"Eu não quero que as pessoas concluam que o fumo do cigarro é tão inofensivo como queimar incenso. O estudo [de Zhong] não é inovador, é mais uma confirmação de que diferentes tipos de fumos, incluindo o de incenso, são tóxicos", declara Hopkinson.

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