Um

– Quero comer o teu pâncreas – disse ela.

Sakura Yamauchi disse aquela frase descabida quando eu estava a organizar os livros nas prateleiras poeirentas da biblioteca da escola, uma das minhas responsabilidades como assistente da bibliotecária.

Pensei em ignorá-la, mas eu e ela éramos as únicas pessoas ali, e o comentário tinha a intenção clara de inspirar uma curiosidade mórbida. Isso significava que ela estava a falar comigo.

Não tendo outra opção, reagi sem me virar. Se ela estivesse a fazer o trabalho que lhe competia, ainda deveria estar de costas para mim.

– O quê? – disse eu. – Apercebeste-te de repente de que és uma canibal?

Inspirou fundo, tossiu um pouco por causa da poeira e depois explicou, com algum orgulho: – Vi esta história na televisão ontem à noite. Antigamente, quando havia um problema qualquer no corpo de uma pessoa, ela comia essa parte de um animal.

Continuei a não olhar para ela. – E?

– Se tivessem problemas de fígado, comiam fígado; se fosse do estômago, comiam estômago. Acho que acreditavam que ia curá-los. Portanto, quero comer o teu pâncreas.

– O meu pâncreas?

– Não vejo o pâncreas de mais ninguém aqui.

Riu-se. Ouvi o som de livros de capas duras a serem arrumados numa prateleira; então, ela continuava a trabalhar e não tinha parado para olhar na minha direção.

– Preferia que não pusesses toda a pressão de salvar a tua vida sobre um órgão minúsculo no meu corpo – disse eu.

– Tens razão. Esse stress todo podia tirar-te o estômago também.

– Vai propor isso a outra pessoa qualquer, então.

Pedro Moura e Susa Monteiro juntam-se ao É Desta Que Leio Isto no próximo encontro, marcado para dia 21 de fevereiro, uma quarta-feira, pelas 21h00. Consigo trazem  "Mensagem", de Fernando Pessoa, numa edição da RTP/Levoir.

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– A quem? Não posso dizer que me agrade a ideia de comer a minha família.

Voltou a rir. Eu não; estava a levar a minha tarefa a sério. Gostaria que ela aprendesse com o meu exemplo.

Prosseguiu: – É por isso que tu és o único a quem posso pedir, [Colega de Turma Que Sabe o Meu Segredo] -kun (1).

– E, neste cenário que estás a imaginar, não te ocorre que eu possa precisar do meu pâncreas para mim próprio?

– Nem sequer sabes qual é a função do pâncreas – disse ela, a provocar -me.

– É claro que sei.

Sabia de facto. Nem sempre soubera, claro – necessitara de pesquisar. Não teria nenhuma razão para o fazer se não fosse por ela.

Aquilo deixou-a contente, e virou -se para mim. Deduzi -o, tanto pelo som da sua respiração como pelo movimento dos seus pés. Virando apenas a cabeça, lancei-lhe um olhar rápido. A sua expressão era de felicidade, o seu rosto estava animado, com bagas de suor. Custava crer que em breve estaria morta.

Não era a única a transpirar. Estávamos em julho, com todo o efeito do aquecimento global a fazer -se sentir, e o ar condicionado quase não se estendia à sala de arquivo.

Toda contente, ela disse: – Não me digas que andaste a pesquisar.

Eu poderia ter tentado evitar responder, mas ela estava demasiado empolgada para deixar passar. Era preferível despachar imediatamente o assunto.

– O pâncreas regula a digestão e o metabolismo – disse eu. – Por exemplo, segrega insulina, que converte o açúcar em energia utilizável. Sem o pâncreas, as pessoas não conseguem produzir energia, e morrem. Lamento, mas não posso oferecer-te o meu numa bandeja.

Quando voltei de novo a minha atenção para o trabalho, ela desatou a rir à gargalhada. Pensei que a minha piadinha devia ter-lhe caído melhor do que eu esperava, mas não era por isso que estava a rir-se.

– Que me dizes a essa? – disse ela. – Afinal, acabaste por te interessar por mim, não foi?

Demorei um momento a pensar numa resposta, e depois disse: – Uma colega de turma que está a morrer de uma doença grave é sempre interessante.

– Não, refiro -me a mim, como pessoa. Fiz uma pausa.

– Quem pode dizer?

– Oh, vá lá! – disse ela, rindo-se outra vez.

O calor devia ter-lhe toldado as ideias, fazendo com que não pensasse direito. Preocupava-me que pudesse afetar o seu estado.

Continuei a trabalhar em silêncio até a bibliotecária vir chamar-nos.

Chegara a hora de encerramento da biblioteca. Deixei um livro um pouco de fora na estante para assinalar a posição em que ficara e depois olhei à minha volta para me assegurar de que não me tinha esquecido de nenhum dos meus pertences. Saímos da sala de arquivo abafada para a sala principal da biblioteca, onde o ar fresco soprou na minha pele suada, provocando-me um arrepio em todo o corpo.

– Está tão agradável aqui – disse a minha colega de turma, rodopiando para trás do balcão da receção.

Tirou uma toalha da mochila e limpou o rosto. Segui-a – em passos mais lentos e sem rodopiar – e também me sequei.

– Bom trabalho hoje – disse a biblioteca, uma professora de quarenta e tal anos. – Podem ficar a descansar um pouco, se quiserem. Tomem, preparei um chá e uns bolos.

– Uau! – disse a rapariga. – Obrigada!

– Obrigado – disse eu.

Bebi um gole do chá frio de cevada e lancei um olhar à biblioteca. Todos os outros alunos já se tinham ido embora.

A minha colega de turma deu uma dentada num pãozinho doce e disse: – Este manjuu é delicioso.

Tinha o hábito de reagir a todas as coisas positivas à sua volta.

Já se instalara numa cadeira por trás do balcão. Peguei num bolo e afastei a outra cadeira um pouco dela antes de me sentar.

– Desculpem lá roubar-vos tempo de estudo – disse a bibliotecária. – Sei que os exames são na próxima semana.

– Não se preocupe com isso – disse a rapariga. – Temos sempre bons resultados, no meio da tabela. Não é verdade, [Colega de Turma Que Sabe o Meu Segredo]-kun?

– Claro – disse eu evasivamente –, desde que esteja com atenção nas aulas, tenho sempre resultados razoáveis.

Dei uma dentada no manjuu. Estava realmente delicioso.

A bibliotecária perguntou: – Já pensaste no curso superior que vais seguir, Yamauchi-san? (2)

– Ainda não – respondeu ela. – Ou talvez não sinta que preciso de pensar nisso.

– E tu, [Estudante com Boas Maneiras]-kun?

– Também não – respondi.

Estendendo a mão para um segundo manjuu, a rapariga protestou: – Não podes ser assim, [Colega de Turma Que Sabe o Meu Segredo]-kun. Tens de pensar no futuro.

Ignorei a sua intromissão e bebi mais um gole de chá. Aquela bebida comprada no supermercado tinha um sabor bom e familiar.

A bibliotecária disse: – Ambos têm de pensar no vosso futuro. Se não prestarem atenção, não tarda nada serão tão velhos como eu.

A rapariga lançou-me um olhar e depois riu-se de um modo agradável e disse: – Ora, isso não vai acontecer.

Riram-se as duas, mas eu não. Dei mais uma dentada no meu bolo, que empurrei com o chá de cevada.

A minha colega de turma tinha razão. Não ia acontecer.

Ela nunca chegaria à idade da bibliotecária, e apenas eu e ela o sabíamos. Limitara-se a lançar-me um olhar, mas achei-o tão subtil como uma piscadela de olho teatral de uma atriz de Hollywood a contar uma piada.

Para que fique claro, a razão pela qual não me ri não foi por a piada dela ser de mau gosto. Foi antes porque me senti irritado com a sua expressão autossatisfeita: Olhem para mim, estou a dizer uma coisa com piada.

Retribuiu a minha falta de reação com um olhar aguçado, de frustração, e manteve-o pousado em mim até eu esboçar um ligeiro sorriso por fim.

Livro: "Quero Comer o teu Pâncreas"

Autor: Yoru Sumino

Editora: ASA

Data de Lançamento: 13 de fevereiro de 2024

Preço: € 17,90

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Ficámos na biblioteca encerrada durante cerca de meia hora antes de decidirmos ir para casa.

Passava pouco das seis da tarde quando chegámos aos cacifos dos sapatos na entrada da escola, mas o sol ainda estava forte. Pela porta aberta, ouviam-se as vozes cheias de energia dos atletas a treinarem depois do período de desporto escolar.

– Esteve mesmo quente aqui dentro hoje – disse a rapariga.

– Pois esteve – respondi.

– Espero que não esteja assim tanto amanhã. Pelo menos, depois de amanhã é o fim de semana.

– Pois é – respondi.

– Tu estás a ouvir-me? – perguntou ela.

– Estou a ouvir-te.

Descalcei os chinelos de andar dentro da escola, calcei os sapatos e saí. Em frente à entrada principal do edifício havia um pequeno pátio e o portão principal, com os campos de jogos do lado oposto da escola. Enquanto caminhava, as vozes dos jogadores de basebol e de râguebi iam-se tornando mais distantes.

Batendo com os pés, a minha colega de turma alcançou-me e interpelou-me: – Nunca ninguém te ensinou a escutar quando as outras pessoas estão a falar?

– É claro que sim. Eu estava a ouvir -te.

– Está bem, então do que é que eu estava a falar?

Depois de pensar por um momento, disse: – Dos manjuu.

Com os modos bem-dispostos de uma educadora de infância, repreendeu-me: – Não estavas a ouvir-me! É feio mentir.

Era baixo para um rapaz da minha idade e ela era alta para rapariga, o que fazia com que tivéssemos mais ou menos a mesma altura. Havia algo revigorante em ser repreendido por alguém um nadinha mais baixa do que eu.

– Desculpa – disse eu –, estava a pensar numa coisa.

– Oh?

As rugas na sua testa desapareceram como se nunca tivessem estado lá e ela inclinou-se para a frente, fitando-me com um interesse intenso. Estuguei o passo para recuperar um pouco de distância, de seguida abanei a cabeça e disse: – Sim, é uma coisa em que ando a pensar há uns tempos. E a sério, para variar.

– Ena! Bem, desembucha.

– Tenho andado a pensar em ti.

Tive o cuidado de não transformar aquilo numa cena dramática. Não parei de andar, não olhei para ela: tentei falar tão descontraidamente quanto podia. Sabia que, se ela levasse demasiado a sério o que eu dizia, ficaria insuportável.

Mas ser insuportável era uma das suas principais caraterísticas, e com a sua reação deu cabo das minhas manobras tão cuidadosas.

– Em mim? – disse num tom ofegante. – Isto é o que penso que é? Estás a preparar -te para confessar o teu amor por mim? Estás a pôr -me toda nervosa.

Esperei até ela acabar de falar. De seguida, disse: – Não dessa maneira.

– Sou toda ouvidos.

Continuando a manter um tom de voz absolutamente descontraído, perguntei: – É realmente o mais correto andares a passar o pouco tempo que te resta a organizar livros na biblioteca da escola?

Inclinou a cabeça, perplexa.

– Bem, sim, obviamente. Porque não seria?

– Não me parece que haja algo de óbvio nisso.

– Oh? – perguntou ela. – E o que sugeres que eu devia estar a fazer em vez disso?

– Não tens uma data de coisas que queres fazer? Tipo, encontrar-te com a tua primeira paixoneta ou talvez andar à boleia em países estrangeiros até encontrares o lugar onde queres passar os teus últimos dias?

Dessa vez, inclinou a cabeça na direção oposta. Fez um murmúrio de discordância e disse: – Entendo o que estás a dizer, mas... Deixa -me pôr a coisa desta maneira: também tens coisas que queres fazer antes de morrer, certo?

– Suponho que sim.

– No entanto, não estás a fazê -las. Tanto tu como eu podíamos morrer amanhã. Aplica-se tanto a ti como a mim. Todos os dias valem o mesmo que qualquer outro. O que fiz ou não fiz hoje não altera o seu valor. Hoje, diverti-me.

Pensei naquilo por um momento e depois disse:

– OK.

Ela tinha razão. Por muito que não quisesse concordar, dei comigo a reconhecer a verdade nas suas palavras.

Assim como ela morreria um dia em breve, também eu morreria. Não podia saber quando, mas era certo. Era totalmente possível que eu morresse antes dela.

Ter de encarar a sua mortalidade dera-lhe uma perspicácia notável. Reavaliei um nadinha a minha opinião da rapariga que caminhava ao meu lado.

Não que ela quisesse saber da minha avaliação. Havia demasiadas pessoas que gostavam dela para que se incomodasse com o que alguém como eu sentia.

Nesse momento, um rapaz equipado para jogar futebol veio a correr da direção do portão da frente. Logo que a viu, a sua expressão ficou animada.

Sakura reparou nele e acenou -lhe, dizendo: – Vai-te a eles!

– Até logo, Sakura – disse ele.

Passou por nós a correr, com um sorriso descontraído e passos fáceis e autoconfiantes. Andava na nossa turma, mas nem me lançou um olhar.

– Aquele parvalhão – disse a rapariga. – Ignorou -te, [Colega de Turma Que Sabe o Meu Segredo]-kun. Vou ter de lhe ensinar bons modos amanhã!

– Não tens de fazer isso. De facto, por favor não o faças. Não me incomoda.

Realmente não me incomodava. É claro que os nossos colegas de turma nos tratavam de modo diferente – eu e ela éramos o oposto um do outro. Nada alteraria isso.

– É por causa dessa atitude que não fazes amigos – disse ela.

– É simplesmente a verdade. Não desperdices o teu tempo.

– Estás a ver – gemeu ela –, é exatamente disso que estou a falar.

Tínhamos chegado ao portão principal da escola. A minha casa e a casa dela ficavam em direções opostas, e era ali que nos despedíamos sempre. Queria que não tivéssemos de nos despedir.

– Até logo – disse. Não ia mostrar a minha pena nesse momento.

Preparava-me para lhe virar as costas quando ela me deteve dizendo: – Ouve. Quanto ao que disseste...

Tinha uma expressão satisfeita, com um sorriso maroto que significava que, provavelmente, acabara de pensar numa maneira qualquer de se meter comigo. Fosse qual fosse a expressão do meu rosto, tinha a certeza de que não era de satisfação.

– Suponho – disse ela – que se insistes tanto em me ajudar a passar mais sabiamente o pouco tempo que me resta, podia aceitar.

– O que queres dizer?

– Vais fazer alguma coisa no domingo?

– Desculpa lá – disse eu. – Tenho um encontro com uma rapariga. Ela é mesmo fofinha, mas se não passar tempo com ela fica toda histérica e a coisa assume umas proporções enormes.

– Estás a mentir, não estás?

– E se estiver?

– Então está combinado – disse ela. – Encontra-te comigo à porta da estação de comboios às onze horas no domingo de manhã. Vou escrever sobre isso nas minhas memórias, portanto é bom que venhas.

Sem mostrar qualquer interesse pelo meu assentimento ou necessidade dele, acenou-me a despedir-se e começou a andar. Para além dela, o céu de verão fitava-nos lá do alto, com o cor de laranja e o cor-de-rosa a começarem a dar lugar a um tom de azul-ultramarino.

Sem retribuir o aceno, virei-lhe as costas e comecei a andar. No caminho que me era familiar para a minha casa, as conversas e os risos animados à volta da escola foram-se desvanecendo e o azul-escuro foi reclamando gradualmente o resto do céu. Vi as mesmas ruas que via sempre e ela viu as mesmas ruas que via sempre, mas tinha a sensação de que a maneira como as víamos era completamente diferente.

Eu continuaria a percorrer este mesmo caminho até acabar o secundário.

Pensei em quantas mais vezes ela percorreria o seu.

Mas então lembrei-me do que ela tinha dito. Não podia saber ao certo quantas mais vezes percorreria o meu caminho. Não devia encará-lo de uma maneira diferente de como ela encarava o seu.

Encostei um dedo ao pescoço para me assegurar de que continuava vivo. Dava um passo por cada pulsação do meu coração e o meu estado de espírito foi azedando com a consciência forçada do caráter transitório e da fragilidade da minha vida.

Começou a soprar uma brisa fresca do fim da tarde, que me distraiu daquela linha de pensamento. Resolvi pensar em algo mais positivo – decidir se sairia de casa no domingo.

(1) Kun – título honorífico utilizado como forma de se dirigir a uma pessoa do sexo masculino mais nova. Pode igualmente ser utilizado entre amigos e irmãos como forma de demonstração de afeto. (N. do E.)

(2) San – título honorífico comummente utilizado para se dirigir a alguém de forma educada. É usado praticamente em todas as situações. (N. do E.)

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