Os alemães adoram David Hasselhoff. Sim, esse mesmo: o Dr. Forster, o Justiceiro, Mitch Buchannon, Nick Fury. “Hoff”, para os amigos e fãs mais acérrimos. Adoram-no tanto que esta simples frase - “os alemães adoram David Hasselhoff” - passou de estereótipo a tropo a uma verdade inequívoca, tudo enrolado numa gigantesca bola de estranheza, perplexidade, curiosidade e divertimento.

Adoram-no, porque o norte-americano foi uma daquelas figuras que, ao longo da história, estiveram no local certo à hora certa. Poucas semanas após a queda do muro de Berlim, na véspera de ano novo, Hasselhoff levou a sua música (sim, além de ator é também músico) até uma das construções que mais envergonharam a humanidade. Perante milhares e milhares de pessoas, perante milhares e milhares de amigos e famílias que, de um momento para o outro, já não guardavam a palavra “divisão” nos seus vocabulários, Hasselhoff interpretou um tema do produtor alemão Jack White (não confundir com o rockeiro americano) intitulado 'Looking for Freedom' – “à procura da liberdade”, traduzido de forma literal.

O significado deste gesto não se perdeu por entre as massas que, no Portão de Brandenburgo, celebravam a entrada no ano de 1990. Com o passar dos anos, a canção tornou-se num hino e num símbolo da reunificação alemã, após a queda do muro e subsequente fim da Guerra Fria. Mas Hasselhoff não foi o único a provar que a música tem poder, a demonstrar que uma simples canção pop se pode tornar em algo maior do que uma separação entre leste e oeste.

Os Scorpions, uma das bandas mais consagradas dentro da cena rock que veste de cabedal e monta grandes máquinas de duas rodas, autores de temas onde a excentricidade eighties se junta ao fogo e à dança ('Rock You Like a Hurricane') e de baladas que – rezam as lendas – geraram um autêntico baby boom em França ('Still Loving You'), também o fizeram. Nascidos em Hannover, no ido ano de 1965, os Scorpions nunca foram uma banda que ligasse (pelo menos não o demonstravam, nas suas letras) muito a quaisquer questões políticas, preferindo o hedonismo rock n' roll da cerveja e de um bocado bem passado à luta pela liberdade (claro que poderemos dizer que o direito à cerveja e à diversão se insere no vasto campo da luta pela liberdade, mas isso é toda uma outra discussão).

Tudo mudou em 1991, quando o grupo editou uma canção que entrou para os anais da Guerra Fria e agiu como banda-sonora do seu fim, do momento em que as democracias liberais ocidentais triunfaram sobre os regimes autoritários de leste. Essa canção chama-se 'Wind of Change' e é, ainda hoje, uma das mais celebradas do grupo e uma das mais celebradas de sempre: mais de 14 milhões de cópias vendidas por todo o mundo, primeiro lugar nas tabelas de países como a sua Alemanha, a França ou os Países Baixo e direito a uma versão sobre amor adolescente por parte dos nossos queridos Onda Choc.

Como o seu próprio título indica, a canção homenageava os ventos de mudança que se faziam sentir, em 1991, com a reunificação alemã e a dissolução da União Soviética. Várias décadas após o fim da II Grande Guerra, o Homem podia voltar a abraçar o seu semelhante, em vez de ter de optar pelo Capitalismo ou pelo Comunismo... E Klaus Meine, vocalista dos Scorpions, tinha tanta certeza disso que fez o que nunca tinha feito – escreveu letra e melodia, algo que até então pertencia aos domínios do guitarrista Rudolf Schenker.

Pergunte-se a qualquer alemão com mais de 35 anos – ou a qualquer europeu de leste, na verdade, já que o impacto desta canção se estendeu para lá dos Urais – e quase todos saberão dizer exatamente onde estavam e o que sentiram quando ouviram 'Wind of Change' pela primeira vez. Mikhail Gorbachev, o arquitecto da glasnost e da perestroika, políticas que recuperaram o nome “Rússia” e enterraram o nome “União Soviética”, terá chorado quando a ouviu. Milhões de pessoas recuperaram uma esperança que não sabiam que tinham ao escutar aquele assobio sobre sintetizador Yamaha... Mas, e isto é um grande mas: e se tudo não tiver passado de um engodo? E se a realidade, como escreveu Hegel, não for racional? E se a toca de coelho em que se enfiou Alice for ainda mais funda?...

Há muitos jornalistas motivados pela convicção de que a verdadeira história se esconde dentro dos quartos, literais ou figurativos, nos quais não podemos entrar.Patrick Keefe, “Wind of Change” - Ep. 1

Jornalista da New Yorker, autor de três livros, vencedor de vários prémios, Patrick Radden Keefe andou obcecado durante vários anos com um rumor que ouviu da boca de um amigo, contado por um antigo colega deste. O rumor dizia respeito a 'Wind of Change', canção de uma banda da qual Keefe nem gosta por aí além, mas que lhe espicaçou o bichinho jornalístico. E o rumor dizia assim: e se 'Wind of Change' tiver sido escrita não pelos Scorpions, mas pela toda-poderosa CIA?...

À partida, a premissa soa demasiado ridícula para ser verdadeira, e a reacção primordial será uma de escárnio e descrença. Ao ouvir tamanha teoria pela segunda vez, soltamos um riso nervoso e questionamos a sanidade mental de quem a propaga. Após nos soltarmos de camadas e camadas de incredulidade, eis que por fim surge uma centelha no fundo dos cérebros mais curiosos e inquisidores: “E se?...”

Foi o que aconteceu com Keefe, já que esta é uma história demasiado fantástica, não para que acreditemos nela, mas para que queiramos acreditar nela. Por vezes, a realidade surpreende-nos, e o que era verdade ontem pode ser mentira hoje, ou vice-versa. Desejamos ardentemente que todos os segredos do mundo se espraiem perante os nossos olhos, mesmo que soem paranóicos... Mas um paranóico é alguém que tem conhecimento de um pouco daquilo que se passa, como o disse William Burroughs, que para além de ter alguns conhecimentos sobre paranóia também os tinha sobre drogas e literatura.

A história chegou até Keefe em 2011 e foi-lhe perfurando o cérebro até que o dique rebentou e o jornalista já não conseguia esconder, por muito mais tempo, a sua obsessão privada com a verdade. Teria uma das bandas rock de maior sucesso feito um pacto com a CIA? Será 'Wind of Change' nada mais que propaganda norte-americana? Todos os que ainda hoje valorizam a canção não são mais que 'idiotas úteis' ao serviço dos interesses dos Estados Unidos?

Ainda que os Estados Unidos tentem projetar o poder que têm através da sua capacidade militar, está provado que a cultura e os valores do país são muito mais poderosos.Patrick Keefe, “Wind of Change” - Ep. 2

A primeira pista obtida por Keefe foi um velho caso de diz-que-disse. Um ex-funcionário da CIA terá ouvido, quando era jovem e estava a ser treinado, da boca do seu superior que foi a agência quem compôs 'Wind of Change', entregando-a aos Scorpions para que estes a pudessem disseminar pelo Leste e provocar o fim da Guerra Fria. O relato de “Oliver” (o ex-funcionário, como outras figuras que emprestam os seus relatos ao podcast, não é identificado pelo seu nome verdadeiro) soou credível o suficiente a Michael, amigo e colaborador de Keefe, também ele ex-CIA.

“Oliver” não quis contar a história toda com receio de represálias legais, mas Keefe não desistiu. Ao longo de oito episódios de um podcast com o mesmo título que a canção, o jornalista conta-nos duas histórias: a que está na génese do podcast, e a da influência da própria CIA nas artes e na cultura pop – sendo que, das duas, só da segunda temos certezas.

Para indicar alguns exemplos desta guerra cultural e de propaganda, há que recuar até aos tempos da II Grande Guerra, quando a OSS, precursora da CIA, recorreu ao talento vocal de Marlene Dietrich e a canções nostálgicas e dengosas de forma a desmoralizar os soldados alemães que combatiam os Aliados. Anos depois, a agência promoveu a arte de Jackson Pollock, ícone do expressionismo abstracto, contrastando-a com o “realismo socialista” dos soviéticos – este tipo de arte, pensavam, poderia simbolizar o pensamento e mercado livres dos Estados Unidos capitalistas. Para além disso, a CIA financiou organizações como a AMSAC (American Society of African Culture), que levou artistas como Nina Simone à Nigéria, e promoveu digressões de Louis Armstrong, Dizzy Gillespie ou Duke Ellington, para mostrar a cultura norte-americana e o progresso do país no que à justiça racial dizia respeito.

Não só: as ligações da CIA a Hollywood, que também existem, levaram à realização (e ao sucesso) de “Doutor Jivago”, filme baseado no romance com o mesmo título de Boris Pasternak; o romance foi proibido na União Soviética e Pasternak rotulado como um pária, e só a atribuição do Prémio Nobel da Literatura ao escritor, em 1958 (o qual rejeitou), terá evitado a sua recolocação forçada num gulag – o governo soviético não queria enfrentar uma onda de protesto internacional. Para não falar de “Argo”, filme de 2012 baseado numa história real, onde a CIA e Hollywood fingiram estar a preparar um filme de ficção científica, engodo destinado a permitir a extração de seis funcionários da embaixada dos Estados Unidos em Teerão, no auge da Revolução Iraniana.

Com tanta história a fazer rodar as engrenagens da máquina de propaganda da CIA, o que é relatado no podcast passa de especulação tosca a algo que pode muito bem ter acontecido, se nos fiarmos na quantidade de pontas soltas que Keefe vai enrolando à medida que a trama avança. Partindo do relato de “Oliver”, o jornalista avança para o confronto direto com a agência. A resposta da CIA foi críptica: não confirmou nem desmentiu ter algo nos seus documentos secretos que demonstre uma ligação com os Scorpions.

Mas porquê os Scorpions, que nem sequer são tão populares nos Estados Unidos quanto o são na Europa? A resposta está também na história. Nos anos 80, a banda alemã foi uma das primeiras bandas ocidentais a tocar para lá da “cortina de ferro”, tendo dado cinco concertos em Leninegrado (hoje São Petersburgo) em 1988. Uma nova juventude russa mostrava-se sedenta de rock n' roll, e Klaus Meine ficou tão “impressionado” por tocar perante uma audiência tão virgem nestas matérias elétricas que sentiu que os “ventos da mudança” aí vinham, apesar da desconfiança – quando esta não era ódio – que a União Soviética tinha para com a “cultura ocidental”.

Independentemente do valor qualitativo que qualquer pessoa atribua à música dos Scorpions, ouvi-la – e à de outras bandas semelhantes – em países como a União Soviética ou a Alemanha Oriental era um ato político, de desafio, contra o sistema. As canções chegavam através de cassetes pirateadas, e escutadas com um ouvido na fita e outro na porta, de forma a prevenir encontros funestos com as autoridades. Mesmo os concertos dos Scorpions em Leninegrado realizaram-se sob o olhar atento do KGB.

O problema com o mundo da espionagem é que, quanto mais fundo cavas, mais perdes a fé na ideia de que qualquer coisa é aquilo que aparenta ser à primeira. Patrick Keefe, “Wind of Change” - Ep. 5

Um festival de música realizado em Moscovo, em agosto de 1989, três meses antes da queda do muro de Berlim, seria o ponto zero desses ventos de mudança. Intitulado Moscow Music Peace Festival, e tendo como mote inspirar os jovens de todo o mundo a dizer não às drogas, o evento contou com vários pesos-pesados do mundo do rock gadelhudo: não só os Scorpions, mas também a lenda Ozzy Osbourne, os sujos Mötley Crüe, os Skid Row e os Bon Jovi (todos eles excelentes rapazes e de forma alguma ligados ao consumo de drogas, claro. Ou não).

O evento foi pensado por Doc McGhee, que – curiosamente, ou talvez não... — era o manager de boa parte destas bandas, Scorpions incluídos. Mas há algo no currículo de McGhee que leva o festival para terrenos conspiratórios. No início dos anos 80, Doc era não só uma figura a querer entrar na indústria musical (como agente da banda funk Niteflyte), mas também – e o próprio não o escondia – um traficante de droga bem-sucedido.

Assim que as autoridades se cruzaram com Doc Mcghee, esperava-se que o “empresário” ficasse atrás das grades durante uma considerável quantidade de tempo, o que acabou por acontecer com os seus associados. Mas, nos Estados Unidos como em muitas outras partes do mundo, basta conhecer as pessoas certas. McGhee safou-se fazendo um acordo em tribunal, que o obrigava a promover alguns concertos rock que tivessem uma mensagem anti-drogas por detrás. Em parceria com a Make a Difference Foundation e a MTV, levou o rock norte-americano a Moscovo, afirmando que o objetivo era o de erguer “outro Woodstock”.

Este festival é abordado insistentemente por Keefe ao longo do podcast, e o próprio Doc McGhee é entrevistado, negando quaisquer ligações à CIA: «podes dizer qualquer m... que queiras numa teoria da conspiração», afirma, o que é verdade. Mas isso não invalida que existam algumas nuances bizarras em toda esta história: porque é que Doc McGhee viajou semana sim semana não, durante um ano, para se encontrar com o Kremlin e preparar o evento? Porquê levar os Skid Row ou os Mötley Crüe a Moscovo, em vez de estrelas pop como Madonna ou Michael Jackson – bastante mais representativas da cultura norte-americana? Porque é que uma mulher, supostamente ligada à CIA, pediu a Klaus Meine para que assobiasse 'Wind of Change' num hotel em Memphis? Porque é que a CIA, contactada por Keefe, nega categoricamente ter quaisquer informações sobre o festival, mas se mostra tão evasiva quando o assunto são os Scorpions?

Todas estas questões são colocadas no podcast, até que culminam no frente a frente com Klaus Meine. 'Wind of Change', diz-nos a história, foi composta após o festival de Moscovo, inspirada pela juventude que o vocalista por lá encontrou e por um passeio ao Parque Gorky (mencionado nos primeiros versos). Ao regressar a casa, Meine começou a mexer num “brinquedo” novo, um sintetizador Yamaha... o mesmo que se ouve na canção, juntamente com o assobio.

'Wind of Change' foi escrita em setembro de 1989, um mês após o festival e dois antes da queda do muro. A letra, diz, foi apontada «num caderno com o Rato Mickey na capa» - um dos símbolos máximos da cultura norte-americana, só a título de curiosidade. «Tinha a sensação de que esta canção se podia tornar em algo especial, sem saber que o muro iria cair, ou que a canção se tornaria num hino», explica. Meine, como David Hasselhoff, soa apenas a alguém que esteve no local certo à hora certa.

Ao ouvir a teoria narrada por Keefe, o motivo primordial pelo qual o jornalista se quis encontrar com o músico, Klaus Meine não parece esconder a sua estupefação – e um certo gozo com tudo aquilo. Até porque, ao longo dos últimos 30 anos, ouviu centenas e centenas de questões acerca de 'Wind of Change' e da queda do muro. Mas nenhuma tão extraordinária como esta. O clímax dá-se quando o vocalista assume que toda a teoria explanada por Keefe, nestes oito episódios, «faz sentido» e brinca com a ideia de ser um agente secreto ao serviço da mais poderosa agência de espionagem do planeta.

Isso dificilmente será verdade ou, a ser verdade, será provado. Pelo que somos forçados a aceitar a versão “oficial” dos acontecimentos, sem que tenhamos motivos para acreditar em algo mais que isso. Ou talvez não, já que Keefe assume que a história contada por “Oliver” possa ter evoluído com o tempo, e que a CIA tenha, de facto, ajudado não a compor a canção mas a distribuí-la. Quanto à recusa da agência em dar respostas concretas, talvez isso aconteça porque, de uma forma ou outra, a CIA ainda está envolvida neste jogo de propaganda pop, ou porque divulgar dados relativos aos Scorpions poderia pôr em risco a vida de algum dos seus agentes.

E onde ficam os Onda Choc no meio de tudo isto? Bem, talvez a sua versão de 'Wind of Change' tenha sido proposta pelo SIS para impedir levantamentos populares contra as políticas de Cavaco Silva. E se esta premissa também parece absolutamente ridícula, a conclusão a que chegamos ao percorrer todos os episódios de “Wind of Change” é que todas as premissas absolutamente ridículas podem ser credíveis, bastando para tal que tenhamos acesso às pistas certas. Ou apenas a uma enorme quantidade de fé no absurdo. Seja como for, a verdade anda aí...

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