Não será efetivamente o ano em que diremos “foi assim que tudo começou”, mas antes o ano que se celebra o início, há 40 anos, uma das mais importantes sagas da história cinematográfica. Em 1977, escreveram-se largas páginas do séc. XX, todas elas de inequívoca importância, nas suas devidas áreas: Shimon Peres assumiu o cargo de primeiro-ministro de Israel; Brejnev sucedia Nikita Khrushchov na liderança da União Soviética; Elvis Presley faria o seu último espetáculo ao vivo em Indianápolis; o brasileiro Pelé penduraria as chuteiras mais de 1.000 golos depois. E, no mundo do entretenimento, antes do rebatismo para Star Wars: Episódio IV - Uma Nova Esperança anos mais tarde, estreava o primeiro Star Wars. Nos Estados Unidos, a 25 de maio. Por cá, perto do Natal, a 9 de dezembro, ainda como Guerra das Estrelas.

Se não está familiarizado com a história da saga, esta decorre numa "galáxia muito, muito distante", no meio de uma luta do Bem contra o Mal, entre os dois lados da Força, que é travada — sintetizando a trama numa forma incrivelmente redutora — entre os cavaleiros de Jedi e os aliados de Darth Vader. A série foca-se sobretudo no percurso de Anakin Skywalker. Sobre este universo intergalático, alguém muito, muito sábio no que aos filmes diz respeito, escreveu:

“O épico espacial de George Lucas colonizou a nossa imaginação e é difícil recuar e ver [Star Wars] simplesmente como um filme cinematográfico porque faz completamente parte das nossas memórias. É tão pateta como um conto para crianças, tão superficial como um velho filme em série de sábado à tarde, tão corny como Kansas em Agosto — uma obra-prima. Aqueles que analisam a sua filosofia, imagino eu, fazem-no com um sorriso nas suas mentes. Que a Força esteja com eles”.

Estas palavras são de Roger Ebert, datam de 1999, ano em que estreava Star Wars: Episódio I - A Ameaça Fantasma (1983), o primeiro filme — a numeração não é cronológica — da saga, e aquele que deu o mote às prequelas. O jornalista norte-americano que durante quase cinquenta anos fez do Chicago Sun-Times a sua casa, para além de ser um dos nomes mais respeitados quando se fala ou escreve sobre crítica de cinema — foi inclusivamente o primeiro desta área a ganhar o prémio Pulitzer na categoria de Criticism —, colocou o filme de George Lucas num patamar semelhante àquele ocupado por Birth of Nation (1914) e Citizen Kane (1941).

"Star Wars foi uma bacia hidrográfica técnica que influenciou muitos dos filmes que vieram depois. Estes filmes têm pouco em comum, exceto a forma como chegaram num momento crucial na história do cinema, quando novos métodos estavam maduros para síntese”.

Para tal afirmação, justifica: Birth of a Nation desenvolveu uma linguagem nas filmagens e edição; Citizen Kane casou os efeitos visuais, um novo estilo fotográfico e tomou algumas liberdades na hora de estruturar a narrativa; Star Wars combina uma nova geração de efeitos especiais num filme de ação, ao mesmo tempo que cria um elo de ligação entre o género de novela com o sci-fi espacial, "entre os contos de fadas e as lendas", empacotando-os numa “grande aventura visual”, que começou a ser imaginada no início de 1970.

Ebert, na sua crítica, salienta que Star Wars fez com que a indústria se focasse nos blockbusters de efeitos especiais e de grande orçamento, originando uma tendência que ainda hoje se mantém. No entanto, deixa o aviso: não podemos culpar o filme por isso. Apenas (devemos) “observar o quão bem” o fez. Indiana Jones e Jurassic Park, dois reconhecidos franchises, são, na sua opinião, seus discípulos diretos. Isto, porque Star Wars “remeteu o centro de gravidade de Hollywood no nível intelectual e emocional de um adolescente brilhante”.

Foi há quase 50 anos

Em 1973, George Lucas, realizou um pequeno filme chamado “American Graffiti”. Baseado na sua juventude em Modesto, precisamente no mesmo Estado em que cresceu de forma modesta, e sacou uma galinha capaz de dar os mais bonitos ovos de ouro. Aliás, na verdade, tratou-se não de uma galinha, mas do seu parente familiar galináceo “hulkanizado” peru, tal não foi o feito: orçado e produzido por menos de 1 milhão de dólares, acabou por render, segundo o Box Office Mojo, qualquer coisa como 115 milhões. Somadas as notas, resta recordar que obteve 5 nomeações para os Óscares, incluindo para Melhor Realização. (E 4 nomeações para os Globos de Ouro, tendo ganhado na categoria de Melhor Filme - Comédia ou Musical).

Embeiçado pelo sucesso do projeto, Lucas estava determinado a avançar com uma ideia que tinha para um filme; uma “space opera” que ele e o produtor Gary Kurtz (que não é fã das prequelas e que ajudou a avançar com American Graffiti, Guerra das Estrelas e o Império Contra-Ataca) estariam a preparar desde 1971 — curiosamente, o ano que marcou a estreia de Lucas nas longa-metragens e no mundo sci-fi com THX 1138.

Sobre o momento, João Lopes, no Diário de Notícias, recorda o percurso do realizador:

“Estreou-se com uma história de ficção científica de austero orçamento, THX 1138 (1971), num registo bem diferente, visceralmente trágico, daquele que aplicaria na sua saga intergaláctica. Depois, dirigiu American Graffiti (1973), uma deambulação romanesca em torno das vivências da sua própria adolescência, à descoberta de um novo entendimento do amor e da sexualidade pontuado por canções de Chuck Berry, The Platters ou The Beach Boys”, escreveu. “Na verdade, o homem que viria a criar um dos maiores impérios de produção da história do cinema começou por ser um típico, e muito talentoso, autor da geração dos movie brats (Coppola, Scorsese, Spielberg, etc.), apostado em fazer filmes eminentemente pessoais e intimistas”, continuou.

Por fim, o crítico escreve que “Lucas desistiu de ser um criador confinado ao estatuto de realizador, apostando na consolidação e desenvolvimento da própria tecnologia que os seus filmes ajudaram a experimentar. As empresas Skywalker Sound (estúdios de som) ou Industrial Light & Magic (efeitos especiais), inicialmente integradas na Lucasfilm, ajudam hoje a definir o empório da Disney como uma das mais poderosas máquinas de produção de Hollywood”.

Tudo somado, para o bem e o para o mal, e rebuscando novamente Ebert, foi Star Wars que levou a que os grandes estúdios de Hollywood quisessem replicar a fórmula noutras sagas, como Jurassic Park ou Indiana Jones.

O Lucrativo Mundo de Star Wars

Star Wars é um franchise de ficção científica que não se fica apenas pelos filmes. Há livros, BD’s, vídeojogos, brinquedos e séries animadas (apesar de existiram rumores que a Netflix vai produzir). Numa história da saga estão espelhados todos os arquetípicos comuns da ficção científica: há climax político, mitologia clássica, bem como toda a música com pompa e circunstância que esses momentos acarretam.

Sendo um dos principais exemplos do subgénero da ópera espacial do mundo da ficção científica, Star Wars tornou-se parte da cultura popular, mainstream. E, a tudo isto, devem-se somar muitos cifrões.

Em 2012, a Walt Disney Company anunciou a compra, por 4,05 mil milhões de dólares (3,12 mil milhões de euros à data), da Lucasfilm, produtora de George Lucas. Segundo as agências noticiosas internacionais, o gigante da indústria cinematográfica norte-americana pagou cerca de metade do montante da transação em dinheiro e o restante em ações emitidas no momento do desbloqueamento da operação. Na altura, numa declaração, Lucas afirmou que tinha "chegado a hora de passar A Guerra das Estrelas a uma nova geração de realizadores". No entanto, assume o papel de consultor criativo dos novos filmes da saga.

Escusado será dizer que foi dinheiro bem gasto. Pelo menos, assim o diz a Business Insider, que relembra os mil milhões de dólares ganhos só em receitas de bilheteiras a cada dois em anos desde que fez o negócio. Isto, em apenas dois filmes. E descontando o negócio com a Netflix sobre os direitos após o período de exibição nos cinemas (em Portugal está disponível na plataforma o Star Wars: O Despertar da Força). E esquecendo o negócio recente com a Time Warner de 250 milhões de dólares (212,6 milhões de euros) no decorrer dos próximos cinco anos.

Escreve a Forbes que por cada dólar que um filme fez na bilheteira, quatro são gerados por outras fontes de rendimentos — e esse número é uma estimativa conservadora. Porque não falta material para engordar a fatura. Seja em VHS/DVD/Blue-rays ou em bonecos e merchandise oficiais (só estes já renderam qualquer coisita como 12 mil milhões…) tudo serve para estampar e gerar receita. O gaming é um fenómeno que enche arenas há poucos anos, mas há muito que os jogos de computador, aparelhos eletrónicos ou consolas geram chorudas receitas neste universo que, entre 1977 e 2015, andam na casa dos 3,4 mil milhões de dólares (cerca de 2,9 mil milhões de euros). E dinheiro gera dinheiro, que por sua vez flutua também através das duas séries de animação que complementam os filmes: The Clone Wars teve seis temporadas e a segunda, Star War Rebels, já produzida pela Disney, tem quatro (em exibição). Finalmente, há toda a questão dos livros (1,8 mil milhões de dólares) desde que foi impresso o primeiro em 1978 — e têm existido, pelo menos, dez romances por ano, todos os anos, de 1991 a 2014. Isto, claro, sem esquecer os parques de atrações dedicados aos filmes que funcionam como extensões aos já existentes na Florida e em Los Angeles.

Em 2015, a Fortune avaliou o valor do franchise em 42 mil milhões dólares (cerca de 35,7 mil milhões de euros). Mais do que o Harry Potter e James Bond, juntos.

Que dizem os críticos do novo Star Wars

A antecipação em torno do filme do argumentista-realizador Rian Johnson ("Brick", "Looper" e três episódios de "Breaking Bad") não podia estar mais alta — e os olhares estão sedentos para saber o que se passa no episódio da mais recente trilogia deste Universo. Na Internet, o saldo é muito positivo: 85 em 100 no Metacritic; 93% no Rotten Tomatoes (o segundo mais elevado da saga) e 8,3 no IMDb. Lá fora e cá dentro, isto é o que se vai dizendo, na voz dos próprios, numa pequena compilação:

The Hollywood Reporter: “Carregado de ação e satisfatório em maneiras como a sua fiel audiência quer que seja, o mergulho de Rian Johnson no universo de George Lucas é no geral agradável, mesmo que por vezes se esforce para encontrar coisas úteis e/ou interessantes para alguns dos seus personagens fazerem”, relata. No entanto, faz referência ao que já não é propriamente novidade: a duração do filme. O oitavo episódio é o mais longo de sempre da saga. "Talvez o filme seja um pouco longo. A maioria dos novos personagens podia ter mais peso, propósito e textura na suas personalidades”, escreve. Porém, adianta que “há uma frescura e um entusiasmo generalizados para a abordagem de Johnson que mantém o filme e o franchise vivos; e isso sem dúvida que é o mais importante”.

The New York Times: O jornal norte-americano saúda o realizador pela “difícil tarefa de meter as suas impressões digitais numa saga que resiste deliberadamente à autoria individual", acrescentando que "o Sr. Johnson é bem sucedido, apesar de ter herdado um elaborado ecossistema com uma visão de mundo maniqueísta dividido entre os heróis (a.k.a Resistência) e vilões (a Primeira Ordem)".

Vanity Fair: A revista saúda a maneira como o realizador encara a Força. “A Força ainda é, para mim, uma patetice Star Wars, mas Johnson consegue encontrar maneira de enfatizá-lo com humanidade, com a tragédia grega clássica do verdadeiro pathos. Nessa frente, O Último Jedi é um sucesso puro, ao atingir o núcleo fundido do seu drama, enquanto luta com ele de maneiras matizadas. Johnson expande a psicologia de Star Wars, trazendo cobertura e ambivalência moral a este conto mítico entre escuro versus luz. Nenhum Star Wars fez melhor caso para a Força do que este filme, que finalmente repara o dano causado pela farsa midi-chlorian introduzida nas prequelas desastrosas”.

Time: “Johnson tem que lidar com os problemas clássicos do franchise Star Wars — tens de encontrar algo significativo para todos aqueles personagens fazerem, e tudo deve se enquadrar num mínimo de semi-enredo significativo. Às vezes, parece que o filme é desordenado. [Mas] como não poderia ser? No entanto, Johnson aproveita as cenas individuais, moldando cada um com cuidado e vigor".

Chicago Sun-Times: Há várias coisas positivas a retirar do filme, apesar de não considerar que supere o Despertar da Força. “Ainda que não venha munido do mesmo murro emocional e se estenda um bocadinho na segunda metade, este ainda é um capítulo digno do franchise de Star Wars, que confere emocionantes sequências de ação, polvilhado com bom humor e que contém dos mais de alguns elegantes callbacks a personagens e momentos icónicos mais antigos”. O crítico considera que se trata efetivamente de um “trampolim” para o episódio IX, a sair em 2019, embora ressalve: "Ainda assim, este não é um mero marcador de uma história. Enormes e importantes coisas acontecem aos personagens secundários e primários. As surpresas são grandes e abundantes".

No Observador, Eurico de Barros dá 2 estrelas em 5 e relembra que “‘O Despertar da Força’ não conseguia senão decalcar, em modo menor, ideias, situações, personagens e momentos espectaculares da fita-mãe – e da trilogia original em geral —, sem ser capaz de se medir com elas em emoção, arrebatamento e na sensação de novidade ligada a uma tradição de formas populares do género, no cinema, na literatura e na banda desenhada (os “serials” e a ‘space opera’)” e que, no Os Últimos Jedi’s, “esta impressão mantém-se ao longo de quase todo o novo filme da trilogia”.

Na Ípsilon do Público, Luís Miguel Oliveira, dá 1 estrela em 5 porque “há um limite para a quantidade de naves a explodir, de efeitos de CGI espalhafatosos e sem graça, que uma pessoa consegue suportar num período relativamente reduzido de tempo”. E explica o porquê: “Mais ainda, para a quantidade de planos filmados e montados de qualquer maneira, sem qualquer espécie de lógica ou razão dramática ou estética, e pior, o que é espantoso num filme de 'acção', completamente cegos à acção propriamente dita (quer dizer, uma coisa com um mínimo de continuum, de duração, causa e consequência)”.

No Diário de Notícias, Rui Pedro Tendinha, dá 4 estrelas em 5 e é da opinião que “A Força renova-se com nostalgia séria”. Continuando: “Sem ser perfeito e estando longe do estado de graça do anterior episódio, o filme assume-se como um triunfo nesta renascença do franchise, conseguindo estabelecer novos rumos narrativos sem nunca deixar de rimar com a primeira trilogia. Nesse aspeto, até poderá ser possível pensarmos em demasiada reverência aos fios de intriga de O Império Contra-Ataca”, escreveu. As estrelas distribuídas pelo diário, dos seus críticos, marcam a seguinte forma: João Lopes: ** Com interesse ; Inês Lourenço: *** Bom; Rui Pedro Tendinha: **** Muito bom

Novas e velhas trilogias

A primeira trilogia integra "A Guerra das Estrelas" (1977), "O Império contra-ataca" (1980) e "O Regresso do Jedi" (1983) e a segunda por "A Ameaça Fantasma" (1999), "O Ataque dos Clones" (2002) e "A Vingança dos Sith" (2005).

Em termos de cronologia da narrativa da saga, a primeira trilogia diz respeito aos episódios quatro, cinco e seis. A segunda trilogia, inclui os episódios um, dois e três. A terceira, diz respeito ao sétimo, oitavo e nono.

É impossível não rematar a temática sem ser com o filme que (re)catapultou todo este universo após as "prequelas". Falamos de Star Wars: O Despertar da Força (2015), realizado por J.J. Abrams, é o sétimo filme de uma saga que se tornou num fenómeno da cultura popular, marcando várias gerações de espectadores ao longo dos últimos quarenta anos. E um que bateu vários recordes de bilheteira e que fez ganhar muito, muito dinheiro à Disney.

A história acontece trinta anos depois do enredo de "O regresso do Jedi", daí que inclua alguns dos atores do elenco da primeira trilogia, como Harrison Ford (Han Solo), Carrie Fisher (Princesa Leia), Mark Hamill (Luke Skywalker) e Peter Mayhew (Chewbacca). Do elenco fazem ainda parte John Boyega (Finn), Daisy Ridley (Rey) e Adam Driver (Kylo Ren).

A rodagem foi entregue a J.J. Abrams, produtor da série televisiva Perdidos e realizador, entre outros, de Missão Impossível e do renovado Star Trek.

O filme é também o primeiro desde que os estúdios Disney assumiram os comandos da série, adquirida a George Lucas em 2013 por quatro mil milhões de dólares. E como seria de esperar, não se gastam tantos billions sem trilhar o futuro. Esse mesmo plano passou por um filme em 2015 (episódio VII), uma sequela em 2017 (episódio VIII) que servirá de trampolim para a conclusão em 2019 (episódio XIX) — curiosamente pelas mãos daquele que iniciou o processo (J.J Abrams) após consumada a saída de Colin Trevorrow devido a diferenças criativas. Porém, isto é só na história de Star Wars. Porque baseado no seu universo já estreou Rogue One: Uma História de Star Wars (2016) e já está em preparação Solo: A Star Wars Story (2018) com Ron Howard ao leme.

Em Portugal, desde que há estatísticas sistematizadas sobre a exibição cinematográfica, ou seja, desde 2004, o filme mais visto continua a ser "Avatar", de James Cameron, com 1,2 milhões de espectadores. "Avatar" estreou-se em Portugal em 2009. Será o oitavo filme do universo Star Wars a retirar o filme os espécimes de Pandora do trono?

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