Hello
It's me
I was wondering if after all these years you'd like to meet

Foi com estes versos que Adele abriu “25”, álbum editado em 2015 e que marcava, à altura, o seu regresso aos discos depois de quatro anos em que andou ocupada a compor temas para filmes de James Bond, a descobrir as alegrias da maternidade e a gozar, grosso modo, do seu estatuto de estrela pop – que começou assim que 'Someone Like You' chegou ao primeiro lugar das tabelas de vendas do Reino Unido, e que já lhe era pressentido desde a sua estreia com “19” [2008], onde no meio da sonoridade folk, trip-hop ('Cold Shoulder' quase parece ter saído da escola Massive Attack) e jazz vocal norte-americano se destacava, sobretudo, o seu enorme talento para escrever canções.

Foi também com estes versos que Adele abriu o espetáculo privado que deu no Observatório Griffith, em Los Angeles, que resultou num especial para televisão – “Adele: One Night Only”, transmitido pelo canal CBS no passado domingo – e que marcou o seu regresso aos concertos, depois de a pandemia da covid-19 ter ameaçado destruir por completo a indústria da música ao vivo. No palco, e perante figuras tão díspares quanto Seth Rogan e Gordon Ramsey, a britânica admitiu: «Vou ter de começar sempre com a 'Hello'». Não só pelo sentido de espetáculo que naturalmente tem, porque esse “olá”, ao vivo, deixa de pertencer aos seus antigos conhecidos (como na canção) para passar a ser do público presente. Mas, também, porque Adele é alguém que nos habituou a fazer-nos esperar. Ao contrário daquilo que ditam as regras pop de hoje em dia, a britânica recusa-se a lançar um álbum novo todos os anos, como tão bem queria Daniel Ek, co-fundador do Spotify. Daí o “olá”, que mais que cumprimento é declaração de intenções: a fórmula que encontrou para dizer ao mundo que está viva, mesmo que a não vejamos – ou melhor, ouçamos – constantemente.

Desde o lançamento de “25” que estávamos sem ouvir Adele. Até que, por fim, ela nos bateu à porta, trazendo consigo um novo single, 'Easy On Me', e um novo álbum, proclamado ao mundo com recurso a cartazes misteriosos, espalhados um pouco por toda a parte (Lisboa incluída). Nestes, lia-se apenas o número “30”, referência ao título do disco – que mantém a lógica dos anteriores, onde os títulos são a idade que tinha quando os compôs ou gravou. Bateu-nos à porta e quase que nem a reconhecíamos: a Adele que temos agora à nossa frente está mais magra, mais adulta, e até ligeiramente mais triste. Como seria de esperar, aliás, considerando que a sua vida pessoal desabou por completo, e a palavra divórcio passou a fazer parte do seu léxico, e do dos tablóides que a perseguem. 'Easy On Me' é assim um “olá” com uma apóstrofe: “Olá, sejam brandos comigo”.

Uma carta aberta

“Branda” é um adjetivo que não se pode aplicar à vida de Adele nestes últimos seis anos. A cantora, que cresceu sem a presença do pai, alcoólico, que deixou a família quando Adele tinha apenas 2 anos, pensava ter encontrado no empresário Simon Konecki e no filho de ambos, Angelo, um porto seguro. Mas tudo se desmoronou em 2018, o mesmo ano em que, após um longo namoro, Adele e Simon decidiram casar – e divorciar-se poucos meses depois. «Eu não gostava de quem era. Não me conhecia realmente», afirmou, em entrevista à “Rolling Stone”.

O divórcio propriamente dito não gerou animosidade entre o agora ex-casal, e Adele continua a referir-se a Konecki como um dos seus melhores amigos, tendo dito a Oprah Winfrey, numa entrevista que fez parte do supracitado “Adele: One Night Only”, que o empresário lhe «salvou a vida» e garantindo que o respeita «mais que a qualquer outra pessoa». Mas persiste, claro está, uma centelha de tristeza. Não vindo de uma família unida, Adele havia prometido a si mesma que haveria de manter unida a sua, e acabou por quebrar essa promessa. «Fiquei muito desapontada pelo meu filho. E fiquei muito desapontada por mim. Sinto-me envergonhada por não ter conseguido fazer com que o meu casamento funcionasse».

créditos: Facebook Adele

Sendo uma artista que deixa muito do que são as suas vivências em todas as suas canções, assim que a notícia do divórcio correu mundo houve toda uma legião de fãs que, num alto momento de schadenfreude, de imediato pensou que o próximo álbum seria, como dizer?, fantástico. Faz parte – infelizmente – desta coisa de ser uma figura pública, uma artista cuja arte é alimentada a melancolia. «Pensei: 'Porque é que diriam uma coisa destas se me acompanham há dez anos?'», confessou à “Rolling Stone”. «Mas, na verdade, não é da sua responsabilidade. A sua responsabilidade enquanto fãs é a de querer um bom disco, e eu espero poder dar-lhes isso. Encarei [essas declarações] com desconfiança, e acabou tudo bem».

“30” é um álbum nascido a meio de um divórcio, mas é também, e sobretudo, uma carta aberta a Angelo, hoje com 9 anos. «[Escolher] Dar cabo da vida do meu filho para [melhorar] a minha deixa-me desconfortável», disse a Oprah. «O álbum é sobre mim, não é sobre ele. Quis que ele me ouvisse [cantar] sobre quem sou e sobre como me sinto, porque não sei se vou poder ter essa conversa com ele na vida real». De todas as canções presentes em “30”, apenas 'Easy On Me' aborda especificamente o divórcio. Mudei quem era para vos pôr em primeiro lugar / E agora desisto, ouvimo-la cantar. À “Vogue”, destapou um pouco mais do véu que pairou desde sempre sobre o seu casamento – um enlace que manteve extraordinariamente privado, tendo em conta o seu estatuto enquanto estrela pop. «Nenhum magoou o outro. Eu não estava feliz, ninguém fez nada de errado. Foi do género: quero que o meu filho me veja a amar realmente, e a ser amada. Isso é muito importante para mim».

Nesse sentido, nenhuma das doze canções presentes em “30” (excluindo versões deluxe, que acrescentam sempre um ou dois temas ao alinhamento original) será tão pungente quanto o é 'My Little Love', onde a sua própria voz, cantada e gravada, se mistura com a do filho. Sinto que não gostas de mim, ouvimos Angelo dizer, com a voz de uma criança que não entende porque é que o papá e a mamã já não podem estar um com o outro. A ideia de juntar gravações de voz à canção partiu do trabalho realizado por rappers como Tyler, the Creator e Skepta, explicou Adele à “Vogue”. «Pensei que pudesse vir a ser um efeito bonito. Há dez anos que os meus fãs têm estado à minha porta. É do género, 'querem entrar?'». Quem aceitar esse convite depara-se, no final de 'My Little Love', com uma mensagem de voz deixada por Adele no gravador de uma amiga, por entre lágrimas: Hoje é o primeiro dia, desde que o deixei, que me sinto sozinha.

O peso do peso

Tyler, the Creator e Skepta até podem ter sido influências – Adele nunca escondeu o seu amor pelo hip-hop e pelo R&B – mas “30” não foge muito à regra dos seus discos anteriores: a base é, como tem sido, o jazz-canção. Em 'All Night Parking', somos inclusivamente brindados com a presença fantasmagórica de Erroll Garner, pianista falecido em 1977, um dos mais aclamados do seu tempo. 'Strangers By Nature', que abre o disco, e 'Love Is a Game', que o fecha, têm sido comparadas a Judy Garland. Só 'Can I Get It', tema produzido pelo “mago” Max Martin, onde à guitarra acústica se junta um beat radiofónico, soa a algo contemporâneo. Curiosamente, é também a canção mais fraca de “30”...

Seríamos tentados a dizer que isso prova que Adele não nasceu para ser estrela pop, com tudo o que de juvenil isso implica, mas sim para ser uma diva. Seríamos, não fosse o facto de Adele ser – ou vestir a pele de – alguém do povo, da telenovela, uma mulher sem receio da pieguice, alguém para quem amar e ser amada é mais importante que o sexo. Quando, após a separação, viu todos os seus amigos em Los Angeles a atirarem-se sem pudor para os braços do sexo casual (e, atenção, não é como se houvesse algum mal nisso), Adele sentiu-se impelida a escrever 'Can I Get It'. «Durei cinco segundos», disse à “Rolling Stone”, referindo-se à sua tentativa de ter encontros na cidade mais hollywoodesca do planeta. «Não me podem levar a um encontro às cegas, não resultaria. Teria os paparazzi à porta».

créditos: Facebook Adele

Essa sua aura, de ser alguém com quem uma pessoa fora do mundo do espetáculo poderia ter uma conversa agradável e plena de gargalhadas, o que não aconteceria com uma diva pop, foi também o que lhe valeu alguns dissabores assim que publicou, no Instagram, uma fotografia com o seu novo look – onde se destacava, claro está, uma enorme perda de peso. Houve quem pensasse que Adele sentia vergonha de ser gorda, ou que estava a seguir o caminho da objetificação do corpo feminino. «Fui objetificada durante toda a carreira», explicou à “Vogue”. «Não é só de agora. Eu percebo porque é que [a perda de peso] é um choque. Percebo porque é que algumas mulheres se sentiram magoadas. Visualmente, representava muitas delas. Mas continuo a ser a mesma pessoa». Desengane-se quem pensa que tudo nasceu da vergonha: como contou a Oprah Winfrey, a perda de peso foi consequência direta das crises de ansiedade que teve após o divórcio, e que só no ginásio, local onde conseguiu manter-se focada noutra coisa que não a sua vida pessoal, se apaziguaram.

Mesmo uma canção como 'I Drink Wine', cujo título fez as delícias dos fãs mesmo antes do lançamento do disco, vai de encontro a isso. É wit tipicamente britânico, e não uma qualquer ode ao alcoolismo. Sendo que Adele deixou, até, de beber. «Estava farta das ressacas», contou à “Rolling Stone”. Com Oprah, foi mais filosófica: «Estar sóbrio é uma ótima maneira de te conheceres a ti próprio».

Ou, talvez, quisesse apenas – de forma consciente ou inconsciente – não seguir as pisadas do seu próprio pai, de quem se despediu em maio deste ano após uma luta inglória contra um cancro. Foi ele o primeiro a escutar as canções de “30”, assim que Adele o visitou no hospital, para uma última conversa franca. «Acho que não compreendia aquilo que de facto sentia sobre o meu pai até falarmos», disse à “Rolling Stone”. Quando morreu, «foi como se tivesse soltado um uivo, e algo me tivesse deixado. Desde então que me sinto extremamente calma. Libertou-me». A não-relação que teve com ele acabou por pesar na sua psique. «Acho que nunca me dediquei a sério em nenhuma das relações que tive. Tive sempre receio, desde nova, de que me fossem abandonar». Só Simon Konecki foi a exceção.

Ressacas e triunfos

Apesar de tudo isto, não nos podemos esquecer que Adele faz parte de uma máquina pop que devora tudo em seu redor. Depois de um ano em que a inexistência de concertos foi o novo normal, e isto numa indústria onde cada vez mais o aspeto “ao vivo” tem um peso enorme nos lucros, por oposição às vendas de discos propriamente ditas, o anúncio de um novo trabalho da parte de uma das poucas pessoas que ainda consegue esgotar objetos físicos em lojas há-de ter feito muita gente esfregar as mãos de contentamento (e não estamos a falar dos fãs).

'Easy On Me', que em apenas 24 horas bateu todos os recordes de plataformas como o Spotify, foi a primeira salva. Mas a indústria musical já tinha apostado todas as suas fichas em Adele: meses antes do lançamento oficial, foram encomendadas 500 mil cópias em vinil de “30”, o que colocou em causa todos os outros lançamentos neste formato de todos os outros artistas, especialmente dos que trabalham em editoras independentes, onde as vendas físicas ainda são uma fonte generosa de rendimento. Tais números – e a prioridade dada a Adele por ser uma estrela – levaram várias fábricas de prensagem de vinil a ter que adiar outros compromissos; a falta de materiais implica que haja artistas que só consigam editar os seus próprios trabalhos em vinil em 2022, e até já há quem tenha de esperar por 2023.

Não que Adele, que até mostrou (ou fingiu) algum espanto quando Oprah lhe diz que o vídeo para 'Hello' tem quase 3 mil milhões de visualizações no YouTube, esteja neste momento a pensar muito nisso. A sua vida pessoal, nesta altura, tem um peso maior que qualquer outra coisa que lhe possam atirar à cara. «Nada me atemoriza tanto quanto aquilo que se passou nos últimos dois, três anos em privado», explicou, como que se precavendo desde logo de uma hipotética investida de uma hipotética cancel culture. “30” é a sua carta para Angelo, mas é também um aviso ao mundo: Adele já passou pelo abismo, tudo o mais que apareça serão degraus.

No fundo, é essa a maior qualidade de “30”, a de que apesar de tudo o que se lastima e lastimou ainda haver espaço para uma nova esperança. No caso da cantora, essa tem o nome de Rich Paul, agente desportivo que gere a carreira de, entre outros, LeBron James. A seu lado, garantiu à “Vogue”, «não me sinto ansiosa, nervosa ou esgotada. Na verdade, é o oposto. Sou uma mulher de 33 anos, divorciada, com um filho, e sou eu que controlo [a relação]. A última coisa de que preciso é de alguém que não sabe em que ponto está, ou o que quer. Eu sei o que quero, e sei bem o que não quero». No fundo, é tal e qual como canta em 'To Be Loved': Nunca aprenderei se nunca der o salto.

O salto tem-lhe valido paz interior. E boas críticas, até ver. A “NPR” escreveu que, com “30”, Adele «caminha entre nós» (novamente, a sua relação próxima com a humanidade não-famosa), valorizando «uma presença vocal tão calorosa e multifacetada quanto aquela que tem em entrevistas, e em concertos, onde é uja amiga que conta histórias compridas e faz piadas em vez de ser uma força gravitacional». A “Rolling Stone”, que deu 5 em 5 estrelas ao disco, apelida-o de «triunfante», constatando que a britânica conseguiu ultrapassar todos os dissabores sem ter perdido «a sua alma, a sua paixão ou o seu sentido de humor». A “Stereogum”, que até costuma prestar mais atenção ao mundo “alternativo” da música, apelidou “30” de «clássico instantâneo». Qualquer fã que tenha ficado acordado até tarde, ouvindo o disco pela madrugada desta sexta-feira fora assim que o mesmo chegou às plataformas de streaming, terá várias coisas boas para dizer sobre ele. Mas, no fundo, só o facto de ele existir – de Adele não ter escondido uma das maiores derrotas da sua vida, ou sequer se ter deixado abalar por ela – já merece todos os elogios. Adele é agora trintona, divorciada, mãe. E é feliz. E isso inspira-nos.

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