A Família Addams nasceu aos quadradinhos na famosa "New Yorker" nos anos 30 pela mão de Charles Addams. O cartunista criou uma família aristocrata obcecada pela obscuridade do gótico e bizarro, e tudo o que faz as pessoas sentirem-se extremamente desconfortáveis. No que diz respeito aos Addams, o macabro anda de mãos dadas com o assustador e sinistro porque a sua criação surge precisamente para serem uma sátira oposta à imagem da família ideal americana da classe média dos anos 20. Ou seja, sem a mãe-esposa perfeita, o pai que sustenta heroicamente a sua família, os filhos atléticos e estudiosos.

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Além do preto, que nunca é demais neste retrato, a sua história viveu em formato BD durante quase 50 anos na revista e foi adaptada várias vezes para televisão (a primeira vez em 64, na famosa série da ABC), assim como para o cinema, musicais na Broadway e até videojogos. No entanto, foram dois filmes no início dos anos 90 ("The Addams Family" em 1991 e "The Addams Family Values" em 1993) que deram fama internacional à família e que, de certa forma, servem de apresentação às personagens. É através deles que conhecemos o irreverente Gomez (o pai) e a belíssima Morticia (a mãe), casal perpetuamente apaixonado e que tem uma maneira muito peculiar de educar os seus descendentes (dando facalhões de talho para a sua mão, por exemplo). Depois temos o excêntrico Tio Fester, um mordomo tipo-Frankestein, uma mão (é mesmo só a mão) muito independente e, claro, os filhos: os rapazes Pugsley e Pubert (na sequela), e a figura mais velha entre os miúdos, Wednesday, que em pequena gostava de decapitar a cabeça às suas bonecas com guilhotinas de brincar.

Nos anos 90, as one-liners terríveis e hilariantes de Christina Ricci transformaram Wednesday numa estrela e fenómeno da cultura pop (e vice-versa). Na altura, com apenas 10 anos, conseguiu fazer com que a audiência tivesse mais curiosidade no arco secundário da sua personagem/história do que no principal (a dos pais e tios). O sucesso foi de tal ordem que ainda hoje Ricci (e por inerência a carreira) é associada à jovem gótica mais famosa de Hollywood e do Halloween. Agora, volvidas praticamente três décadas, os showrunners Miles Miller e Al Gough (criadores de "Smallville") voltam a pegar no legado dos Addams para a Netflix, mas centram o seu foco em Wednesday e na sua adolescência. Ou seja, a família está presente, mas pouco. Afinal de contas, a série até se chama "Wednesday" e tudo.

Com a ajuda de Tim Burton (que na verdade assume a realização de quatro dos oito episódios, embora os criadores digam que esteve envolvido no lado criativo do projeto em toda a linha), vamos testemunhar as nuances e implicações de uma difícil mudança de escola a meio do ano letivo — é que Wednesday despejou dois sacos de piranhas na piscina e foi convidada a sair. Na sequência deste não-solicitado mas mais do que previsível convite, o seu destino passará pelos corredores e salas da Nevermore Academy, escola que os pais, Morticia (Catherine Zeta-Jones) e Gomez (Luis Guzmán) também frequentaram e deixaram a sua marca. E ao mesmo tempo que se adapta a uma nova realidade — à qual se opõe ferozmente —, vê-se no meio de um misterioso homicídio perpetrado por algo que se assume ser um monstro sobrenatural.

"Wednesday”, em teoria, representava o maior desafio da curta carreira de Ortega. Pela dimensão, pelo histórico, pelo peso dos nomes envolvidos. No entanto, a julgar pelo que se escreve na imprensa especializada, a jovem atriz não só domou o humor negro — legado característico indissociável da sua personagem — como o fez de uma maneira muito própria, fresca, reinventando aqui a anti-heroína. A cada revirar de olhos, a cada piada, conseguiu transformar o sarcasmo inexpressivo da sua Wednesday numa interpretação que está uns furos bem acima do resto (há quem elogie a série e aguarde por uma segunda temporada, mas faça questão de salientar que é uma dramedy popular bem executado estilo-Netflix e não um negrume brilhante de um Tim Burton a solo).

Ortega começou no Disney Channel, deu vida à versão mais nova da protagonista de "Jane the Virgin" (Netflix) e partilhou algumas cenas com Penn Badgley na segunda temporada de "You" (era a Ellie). Mas foi o seu desempenho no indie "The Fallout" (HBO Max) e um 2022 de terror (participou nos filmes "X", "Scream" e "Studio 666" ao lado de Dave Grohl) que lhe valeram a alcunha de "Scream Queen” e atenção da indústria. Se a tudo isto juntarmos esta série e a sua Wednesday, então percebe-se bem a razão porque a "The Hollywood Reporter" assinala que é a próxima "Next Big Thing".

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