Diário de um pai em casa. Dia 21


Uma troca de papéis. Tomei a iniciativa de perguntar ao meu filho mais novo sobre se sabia a que dia da semana em que andamos. Riu-se. Encolheu os ombros. Claro que não sabia. Confesso, que também eu não me recordava antes da questão levantada. Sabia apenas que seria, para mim, um dia de pausa.

Nada fiz. Talvez seja um exagero a expressão. Fiz um intervalo de horas no dia. Depois de ter saído em reportagem com os sem-abrigo (ao lado da Comunidade Vida e Paz) e numa Junta de Freguesia (dos Olivais) onde os idosos vão à rua tomar um “cafezinho” percorrendo as ruas desinfetadas, obriguei-me a ficar na reserva por umas horas. Em pausa.

O sol convidou-me a ir até às escadas traseiras do prédio. Por lá tenho montado uma pequena esplanada. Permaneci sentado numa cadeira e com os pés pousados num daqueles degraus que permite chegar às prateleiras dos armários. Uma chaise longue dos tempos modernos.

Ouvi e vi, no telemóvel, via RTP Play, a entrevista do General Ramalho Eanes que tinha “perdido” na véspera nesta velocidade informativa. Andei para trás duas vezes no momento que falou que os “velhos” como ele “se necessário” deveriam "oferecer o ventilador" aos mais novos. Reparei que pausou a fala e bebeu um copo de água.

Bebi um copo de vinho. As pausas convidam ao copo de vinho. E esta pausa levou-me a procurar o livro que ainda não li: “Ramalho Eanes: O Último General”, de Isabel Tavares.

A bebida não ficou por aqui. Depois da leitura dos meios digitais, como todos os dias faço, nacionais (SAPO24) e estrangeiros (The Guardian, El País), abertos e de assinaturas que pago, fiz um brinde ao apelo de 20 diretores de órgãos de comunicação social. Pedem, e pedimos todos nós, jornalistas, que os leitores recusem a pirataria. Que não alimentem a partilha das edições diárias que chegam de múltiplas formas. WhatsApp, PDF, por e-mail, nas redes sociais. Que não alimentem este tsunami, este bombardeamento” diário de propriedade intelectual, descarregado a toda a hora.

Os Quiosques estão abertos. Pedi, por isso, à minha mulher, eleita para ir às compras, que me comprasse um jornal desportivo. Regressou sem notícias da bola. Estava esgotado.

Gostava que todos os demais jornais estivessem esgotados. Neste e noutros quiosques. Para beber, celebrando, na pausa noturna, o resto da garrafa de tinto que está à minha espera desde a entrevista do antigo presidente da República. Um antigo chefe de Estado que mostrou que, afinal, os Generais também choram.

Será uma degustação até ao ponto de amanhã acordar e saber o dia da semana.

Uma nota final. Para uma frase. Pertence a Pedro Santos Guerreiro, meu antigo editor e diretor no Jornal de Negócios. “Não somos mais importantes do que muitos outros setores severamente afetados, mas somos tão importantes como muitos setores que diariamente noticiamos (...)”. Obrigado, meu capitão.

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