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Esta arte — que só é xávega por causa do despacho que ali pôs o sufixo, agarrado a um hífen — vai soçobrando. Os vareiros queixam-se de que já ninguém quer vida assim (e tampouco eles a querem para os próprios filhos). Assim, vão-se lamentando com o que desaparece, mas alegrando que não seja este o futuro.

Uma sexta-feira cedo, ainda a bruma cobre os olhos e o horizonte, já os barcos vão na água, deitando o lanço. Andam as duas companhas — empresas de pesca — de Espinho no mar, à cata do pão. Os dias têm sido duros: não há peixe. Os homens ficam em terra, ali à beira da praia, a beber paralelos ou só a ver as ondas.

Aqui, uma peixeira fala duma vida a ver o areal e os barquinhos; um arrais fala do futuro, depois de meio século no mar; um patrão fala do desafio, 19 anos depois da aventura — e um peixe morre na areia, nem dez minutos depois de ter chegado.

A Idália: Gritar, gritar, gritar

Idália não quer falar. Hoje não lhe apetece. Falou uma vez com a televisão. Foi vez que chegue. Viram-na chorar, um dia que houve na praia uma tragédia. Nem vale a pena recordar. Ou vale, pois que após o princípio, Idália não se cala mais.

Tem 81 anos. Anda a vender desde os oito anos. Aos 38 passou a ser guarda das praças de Espinho, ao serviço da autarquia. Reformou-se e voltou para a beira da praia, onde vende para ajudar as netas. É a senhora do chapéu amarelo, que não engana ninguém.

É cedo. Está aqui à espera do lanço, “a ver se trazem alguma coisinha”. Daqui a pouco chega a neta, para a ajudar na venda. “E vamos fazendo assim a vida, vamos fazendo assim a vida”, desabafa.

“Vamos andando”. Isto que aqui se pôs nem é citação, é o nome do barco que o marido de Idália tinha aqui no mar de Espinho. O Vamos Andando, como se as embarcações, feitas deuses, caminhassem sobre a água — ou, como os homens, navegassem pela terra.

Por três vezes o Vamos Andando afundou. Um outra ficou sem proa. Chegou o governo e pagou o abate da embarcação. O marido de Idália ficou em casa. Hoje, é ele quem faz o almoço e arruma as coisinhas até à chegada da mulher.

Idália põe-se a olhar as ondas enquanto fala. “O meu paizinho morreu ali na praia. A colher uma cordinha”. Tem uma lágrima presa na cova do olho. E fala baixinho para o vazio, como se as palavras, secas e curtas, estivessem só a caminho do mar. “Há quarenta e um anos”, vai repetindo, enquanto lembra, tantas vezes que se multiplicassem as décadas, havíamos de chegar aos séculos.

Era três de agosto, estava calor e o homem na praia, a colher uma corda: caiu para o lado e morreu.

Áspera, como as rochas afiadas, dispara: “está aí muita gente que podia trabalhar e não trabalha à custa do rendimento mínimo, porque estão à espera do rendimento mínimo. Eles podiam trabalhar, eles é que não querem! Eles é que não querem trabalhar, porque há muito trabalho! O meu irmão às vezes quer ir ao mar e não tem gente”, atira, antes de explicar a revolta: os cães dos vizinhos.

Mas a culpa é não de animais de mar, antes dos de terra:“Aquele do Pan andava estafado com os cães, com os gatos e com os animais, mas havia de proibi-los era de andarem a cagar na rua, que eles vão-me cagar à porta! Ele não apareceu aqui nas eleições, porque se aparecesse, eu dizia-lhe assim ‘olhe, faz favor de vir a minha casa e conte os montes de merda.’”

Idália tinha avisado logo no princípio que hoje não estava com disposição para conversas.

O Protestante: Aqui não há coragem

Ei-lo, por fim, sentado. À porta do café, põe-se a ver o mar. Saca de um cigarro e entala-o entre os lábios. A cara escura, marcada do sol, fica calada. “O que é que quer saber?”, pergunta, como se fosse a contar a história da origem do mundo. Mas tem só uma conclusão: “verdade se diga, isto não é futuro para ninguém”.

Não é por isso que tem o nome que lhe deram. Protestante é a mãe, que anda noutra doutrina, como Manuel explica. Mas a alcunha ficou para ele, um dos arrais aqui na praia. Arrancar-lhe palavras é como puxar as cordas que trazem as redes do mar: duro.

A época “depende do mar: se o mar estiver para ganhos, a gente em fevereiro já começa. Se estiver bravo, lá para março, abril. A safra acaba aqui lá para dezembro” . Hoje o dia foi já indício disso mesmo — foi um dia mau. “Um dia bom é a gente apanhar quarenta ou cinquenta caixas de carapau, aí a gente ganha dinheiro. Assim com esta pesca a gente não ganha dinheiro, é só para as despesas”, explica o homem.

Em dia mau, uns vão para o bar, outros, como ele, fazem outras coisas. A seguir, vai arranjar ferros e redes lá para o armazém. Prepara-se para o defeso. Sem subsídios, precisa do barco pequeno para resistir ao tempo sem Arte.

O Adelino: Isto funciona assim

Em Espinho há duas companhas. Adelino e um sócio arranjaram esta em 2000, numa brincadeira. “Isto é complicado, dá muita despesa”, lamenta o patrão, que enquanto conversa vai mantendo as transações, trocas e acertos com as peixeiras.

Às redes vem “carapau, cavala, lulas, às vezes um robalo, um sardo — mas pouco disso! É mais carapau, sardinha e cavala. Há uns anos eram carradas de cavala, que até botávamos ao mar, que não havia compradores, depois, desapareceu a cavala”.

As conservarias querem é cavala ou sardinha grande, mas a cavala sumiu e a sardinha grande está perto de deixar de ser permitida na venda. Enquanto isso, Adelino vai fazendo aquela que é a sua arte: ir buscar peixe a Matosinhos.

Este extra, que lhe começou como brincadeira, em 2000, é isso: um extra. Mas na roda desse extra, a praia enche-se. Há os curiosos e os que dependem; há os pescadores e os turistas; há os que se aproveitam do desprezado para o isco e há os que reclamam.

O safio: Nem tudo o que vem à rede é peixe

A rede sobe à praia. Lá dentro, o peixe vem a crepitar, como se o ar marítimo do outono fosse uma braseira. Um animal vem aos pulos, aos espasmos; vira-se ao mar. Contorce-se na areia — até que estaca, quieto. Vem um homem que o pega pelo lombo e atira para dentro de uma caixa de plástico. O bicho reclama e continua feito serpente. Sai-lhe sangue donde o sangue sai.

Porém, o animal não desiste. Põe-se a escorregar para cima dos outros, a ver se se liberta da clausura. Aponta à água — está longe. Pela frente, os homens, de cu ao ar; depois, as gaivotas, numa gritaria esfomeada. Sai da caixa e serpenteia sobre a rede, entre algas e caranguejos. E avança.

Logo adiante, vai contra as meias de um homem que, de chinelos, separa o proveito do lixo. O homem olha-o de soslaio. O bicho continua, como se quisesse correr. O homem atira-lhe um qualquer insulto. O peixe ignora. O homem agacha-se para o agarrar e enfiar de novo na caixa. Comprido, o safio ainda dá mais um pouco de luta. Depois, desiste — e perece só.

Há os peixes e há os homens, ali na luta de sobreviver e ganhar a vida. Para que um viva, morre o outro; quando morre um, vive o outro. A arte é esta.

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