No terceiro e último dia do encontro “O homem promotor da igualdade”, organizado pela associação Quebrar o Silêncio, as palestras deram lugar a quatro workshops. Sessões práticas e interativas onde se abordaram temas como a educação para a sexualidade, os estereótipos e papéis de género nos contos tradicionais, a inteligência emocional e a linguagem inclusiva. A unir as temáticas, um denominador comum: o debate sobre a igualdade de género e o desenvolvimento de competências no sentido de um cada vez maior respeito nas relações que estabelecemos.

Por se tratar de um espaço de reflexão sobre a comunicação, o SAPO24 assistiu ao workshop sobre linguagem inclusiva - "Como quer ser tratadx? - Comunicação rigorosa, inclusiva e não-discriminatória".

“Estou a estudar linguística”, “eu venho das artes performativas”. Sentadas em roda numa sala de aula cuja configuração foi adaptada para a dinamização do workshop, as pessoas foram-se apresentando. “Sou advogada”, “trabalho em psicologia”, “sou jornalista”, continuaram. Ainda nem dez minutos tinham passado desde o início da sessão e já era evidente que, para além da importância do tema para o mundo dos media — motivação inicial para a criação do workshop, explicou no princípio a moderadora Aline Flor —, o assunto interessava a um público variado, vindo de uma grande diversidade de áreas sociais e profissionais.

Os motivos que levaram cada pessoa a inscrever-se foram também múltiplos: “O nosso trabalho é traduzir conteúdos complexos em textos que toda a gente possa perceber”, disseram dois participantes. “Tenho interesse pela diversidade na comunicação dentro das empresas”, explicou um outro. Já a psicóloga, dedicada à população trans, expressou que sente necessidade de expandir as suas ferramentas de trabalho com vista a melhorar a comunicação com as pessoas que acompanha. "Gostamos de estar com pessoas que nos compreendem", disseram duas mulheres, confessando ter dificuldade em falar no emprego sobre o tópico ali em causa.

Antes de entrar nas questões práticas, Aline Flor, jornalista do Público, enfatizou a necessidade de compreender os fundamentos para a utilização de uma linguagem inclusiva. “Mais do que uma simples re-nomeação, uma substituição de umas formas por outras formas, o que está em causa é uma redefinição do universo” de pessoas representadas na linguagem, refere Graça Abranches no preâmbulo do Guia para uma Linguagem Promotora da Igualdade entre Mulheres e Homens na Administração Pública, publicado pela Presidência do Conselho de Ministros, em 2009, e utilizado como referência pela moderadora do workshop.

“A sociedade é mais diversa do que a linguagem que usamos”, dizia, por outras palavras, alguém durante a sessão. Embora se tenha mencionado a importância da inclusão a vários níveis - de etnia, de deficiência, de idade -, neste caso, a sessão era especialmente dedicada às questões de género. 

Nesse sentido, Aline Flor lembrou um estudo em que se procurou perceber a diferença do número de mulheres que se candidatavam a dois anúncios de emprego que utilizavam linguagens diferentes: um deles estava apenas no masculino e o outro utilizava ambos os géneros. Ao primeiro anúncio responderam 5% de mulheres, enquanto ao segundo responderam 25%.

O exemplo foi dado na sequência de uma discussão sobre o peso da natureza patriarcal da sociedade e o impacto dessa conceção do mundo nas estruturas sociais e na vida do dia-a-dia.

No momento de sugerir soluções — “elegantes”, sublinhou mais do que uma vez a moderadora, que sente a pressão de redigir textos que não acrescentem ruído à informação —, Aline Flor recorreu a alguns guias práticos oficiais para dar exemplos de estratégias que podem ser usadas no sentido de comunicar com uma linguagem mais inclusiva.

Três das alternativas mais habituais são a utilização do masculino e do feminino — nos discursos oficiais, o Presidente da República, por exemplo, dirige-se habitualmente “às portuguesas e aos portugueses” —, a não-referência ao género — através do recurso a palavras neutras, tais como “a coordenação” em vez de “o coordenador” ou “a coordenadora” — e a reorganização das frases — ao invés de dizer “os noruegueses têm um bom nível de vida”, pode dizer-se “na Noruega o nível de vida é bom”.

Quem o diz são entidades públicas como a Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género, da Presidência do Conselho de Ministros, ou o Secretariado-Geral do Conselho, da União Europeia.

A questão do não-binarismo da linguagem foi outro dos temas em destaque ao longo da sessão, tendo o grupo recordado o exemplo da Suécia, onde, em 2015, foi acrescentado um pronome neutro ao universo linguístico - “hen” (“hon” significa “ela” e “han” significa “ele”) - para designar as pessoas cujo género não é conhecido ou quando não é apropriado atribuir um género.

Durante as intervenções, foi recorrente surgirem correções a quem falava, por não estar a ser usada uma linguagem inclusiva. "Está tão enraizado o hábito", dizia um participante, apontando um dos motivos que torna difícil a mudança. Ao lado, a estudante de linguística ia nomeando regras da língua que são também barreiras às alterações que ali se defendiam, destacando o princípio da economia linguística e o da redundância.

"Independentemente de como for feito, o importante é fazê-lo com cuidado e empatia", concordou o grupo.

Uma das conclusões do workshop foi o facto de não existirem respostas universais, confortáveis para toda a gente e que se adeqúem a todas as situações. Algumas das ideias propostas - tais como, o uso do “i” para designar o plural neutro (“todis”, “elis”) - encontraram resistência em quem trabalha com a língua e precisa de ter preocupações com a acentuação das palavras; as estratégias que parecem ser uma solução para o registo escrito — de que é exemplo o uso do arroba ou do “x” (“trabalhador@s”, “trabalhadorxs”) — continuam a não ser resposta para a comunicação oral; e algumas posições defendidas nos contextos ativistas não se aplicam ao mundo mediático.

Uma das críticas mais comuns à linguagem inclusiva, identificou o grupo, é a de que esta torna a comunicação redundante, pouco natural e — por vezes, até — ridícula. A esse propósito, a dado momento, recuperou-se uma crónica onde Ricardo Araújo Pereira utiliza o masculino e o feminino de forma exaustiva, resultando num texto satírico.

O debate está longe de estar terminado. Foi consensual a vontade de pensar mais a fundo sobre estratégias para chegar a uma comunicação onde todas as pessoas se sintam representadas. Se o ambiente do workshop foi marcado por um sentido muito prático, o final veio confirmar isso mesmo: ficou a ideia de criar um grupo informal online, sem formato ainda definido, a que se poderão juntar as pessoas que queiram, para manter a discussão e reunir recursos.

No SAPO24 quisemos fazer o exercício de perceber qual é o impacto do uso da linguagem inclusiva, quer nos processos de redação quer no produto final. Este artigo é o resultado disso. A experiência passou, entre outros casos, por substituir "os participantes" por "as pessoas que participaram" ou "o grupo" e por reorganizar as frases de forma a evitar o plural masculino, recorrendo a soluções como "maior respeito nas relações que estabelecemos", em vez de "maior respeito quando nos relacionamos com os outros". Acreditando que a experiência de leitura não foi prejudicada, para quem tiver curiosidade, vale a pena voltar ao início e tentar detetar em que casos a tecla do “apagar”, para reformular as frases, terá sido mais usada.

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