Marcelo Rebelo de Sousa fez hoje o percurso de Lisboa ao Porto de camião, pela Estrada Nacional n.º 1, com Alexandrina Santos, de 42 anos, ao volante, a partir de Condeixa-a-Nova.

Quando parou em Condeixa-a-Nova, com outro camionista como companheiro de viagem, o chefe de Estado dirigiu-se logo à camionista, ainda antes de almoçar: "Oh Alexandrina, conto consigo. Sei que é uma mulher de armas".

Durante o percurso que a Lusa acompanhou, foi isso que o chefe de Estado constatou, após as várias perguntas que foi fazendo à camionista, que raramente tirava os olhos da estrada: "Nós agradecemos", sublinhou Marcelo.

Alexandrina está nesta profissão há quase 20 anos e conduz sempre sozinha, em viagens que podem ter como destino a Holanda, Bélgica, Inglaterra e Alemanha.

Ao Presidente da República, disse que será uma entre 50 camionistas mulheres que conduzem sozinhas em Portugal, deparando-se com alguns problemas como o facto de encontrar muitas vezes parques apenas com duches nas casas de banho para homens.

Ao longo das quase duas décadas de trabalho, já contabilizou alguns "sustos", nomeadamente de tentativas de furto de gasóleo, em paragens para veículos pesados.

"Em alguns sítios, sinto-me insegura", confessou a camionista natural de Torres Vedras, que cresceu ao lado de uma estrada nacional.

Foi na sua terra natal que descobriu a paixão pelos camiões: "Sempre que passava um dizia que, quando fosse grande, queria ser camionista. Nem é preciso dizer o que a minha família me dizia".

Com os pais a trabalhar na área da agricultura, lutava com a irmã para conduzir o trator maior e o gosto pelos camiões acabou por crescer.

Vive sozinha, sem família, e é essa a sua maior tristeza, a de não ter família.

No entanto, garantiu, não se arrepende de ter escolhido esta profissão, onde encontrou aquilo a que chama uma "liberdade prisioneira".

"Temos a liberdade toda do mundo. Vamos furar esse mundo inteiro, mas ao mesmo tempo, somos prisioneiros do nosso trabalho. Mas, não trocaria. É um trabalho que eu gosto", disse.

Na chegada à portagem dos Carvalhos, em Vila Nova de Gaia, o Presidente da República prometeu a Alexandrina que não vai esquecer as necessidades das mulheres camionistas.

"As áreas de serviço estão pensadas para homens. Têm condições de higiene como duches que não estão pensadas para mulheres", contou aos jornalistas, admitindo que desconhecia este e outros pormenores da profissão.

"Estou mais rico, fiquei a saber o que não conhecia. Compreendo melhor agora a situação dos camionistas. Muitas vezes eu, a conduzir o meu automóvel, olhava para os camionistas [e interrogava-me] porque está a sair a esta hora e a tornar-se um estorno no trânsito. E agora percebo o que é um camionista estar há nove ou oito ou sete horas de trabalho em condições muito difíceis. Humanamente foi muito gratificante", disse o Presidente da República.

Na portagem dos Carvalhos, aos jornalistas, Marcelo Rebelo de Sousa falou dos problemas que observou, como o piso degradado em algumas estradas municipais, das bermas e de como a ausência destas pode dificultar ou ser fatal para os peregrinos.

Depois, voltou a despedir-se de Alexandrina Santos, camionista há 20 anos que, em declarações à agência Lusa, disse que "foi ótimo conversar com o Presidente da República" porque, com ele, "a conversa flui naturalmente".

"Notei que não tinha conhecimento de certas coisas, mas entendeu e mostrou-se preocupado connosco, com uma profissão tantas vezes criticada. É mesmo um presidente de afetos. Ele não vai mudar o mundo dos camiões, mas só fazer isto mostra o nosso lado humano. Todos temos família e alegrias e tristezas e necessidades", disse Alexandrina Santos.

Por fim, questionado sobre se ao fazer esta viagem não tem receio de ter agora "à perna" outras profissões a fazer-lhe convites, Marcelo Rebelo de Sousa apontou que já tem iniciativas e profissões "no pensamento", mas não adiantou datas.

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