Se Sérgio Graciano, realizador de "Salgueiro Maia - o Implicado", é a calma em pessoa, António de Sousa Duarte, biógrafo de um dos homens que teve um papel fundamental no 25 de Abril, é o oposto. Irrequieto, está já a pensar no próximo filme e na estreia para breve da série "PJ7", sobre oito crimes mediáticos investigados pela Polícia Judiciária.

Mas, comecemos pelo princípio, Salgueiro Maia. "A ideia de fazer um filme surgiu há três anos. Tinha pensado em convidar um certo realizador português, mas ele levantou muitos obstáculos e acabei por contactar um amigo, produtor, dono da Sky Dreams, José Gandarez. Que já tinha produzido "Snu", e que recuperou os clássicos portugueses "O Pátio das Cantigas", "O Leão da Estrela" e "A Canção de Lisboa", um dos quais teve mais de 600 mil espetadores, número um em bilheteira em Portugal", conta António de Sousa Duarte.

Foi José Gandarez quem sugeriu o nome do realizador Sérgio Graciano, "que adorou o tema e que adorei conhecer", afirma o biógrafo. Daí a começar a trabalhar no filme foi um pulo, mas foi preciso driblar a pandemia e o confinamento, que estiveram presentes ao longo dos meses de filmagens e repérage. "E rapidamente percebemos que tínhamos nas mãos um produto que eu, à cabeça, sabia que tinha potencial, mas que ele transformou em bom".

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Na ficha técnica António de Sousa Duarte aparece como autor da ideia do filme e como consultor histórico. O filme estreou no dia 14 de abril, mas até essa data já tinha assistido à película 33 vezes, além de ter estado presente em grande parte das filmagens.

Mesmo assim, nem sempre foi fácil. "Isto é malta muito nova, os atores, as atrizes, o próprio realizador. É gente muito jovem, que não tem memória histórica. Lembro-me, por exemplo, de uma cena no Largo do Carmo em que a palavra de ordem era sobre a Reforma Agrária. Não podia ser, no 25 de Abril ainda não havia Reforma Agrária, isso veio mais tarde. Depois diziam "25 de Abril sempre, fascismo nunca mais". Não, essa frase não é desse dia, também chegou muito mais tarde. Nesse dia o que se gritava era "fora Marcello", "abaixo a ditadura", "viva a liberdade" e pouco mais. Portanto, o consultor histórico foi aquele que, de certa forma, foi afinando a mensagem de rigor do filme".

"Senhor primeiro-ministro, aqui está Salgueiro Maia, o homem que prendeu o chefe de governo no dia 25 de Abril". Salgueiro Maia vira-se para Cavaco e acrescenta: "E se for preciso um dia prendo outro"

Para fazer o filme, realizador e guionista (João Lacerda de Matos), apoiaram-se na biografia e na fotobiografia de Salgueiro Maia, mas, sobretudo, falaram com muitas pessoas e recolheram depoimentos de quem viveu a história na primeira pessoa.

"Os medíocres não perdoam os puros"

Porquê "O Implicado"?

O filme chama-se "Salgueiro Maia - O Implicado" exatamente porque ele passou a dizer - e dizia-me isso muitas vezes -, "eu deixei de ser uma figura de referência do 25 de Abril para passar a ser um simples implicado", uma pessoa que anda ali por perto, um primo afastado do 25 de Abril.

Por que motivo foi tratado assim?

Porque Salgueiro Maia só tinha um rosto, só tinha uma palavra, uma atitude. E sabemos que na política, na diplomacia e mesmo na vida militar são raros os que pautam a sua vida pela nobreza de caráter, pela transparência da atitude e por uma postura irrepreensível do ponto de vista da ética. Portanto, os medíocres não perdoam os puros. Salgueiro Maia estava acima da normalidade humana, nunca conheci ninguém assim. Não dizia uma palavra e não tomava uma atitude ou uma decisão que não fosse em função daquilo que era a sua estrita convicção. Nada o influenciava. Ele era sempre igual e coerente consigo próprio, era consistente entre o que pensava e fazia. Uma consistência ontológica: ele pensa e faz em linha reta, não há curvas, não há hesitações.

Uma história marcante e que o defina?

A história mais engraçada passou-se comigo. Estava a poucos meses de acabar o Serviço Militar Obrigatório e tenho um convite do "Tal & Qual", do José Rocha Vieira, diretor do jornal. E comento com o Salgueiro Maia: "Veja lá que tive este convite de um jornal, mas ainda não posso ir embora..." E ele: "Eh pá, não me venhas chatear porque sabes que cunhas, comigo, não funcionam. Não vale a pena perderes tempo". "Não", disse eu, "estou só a comentar consigo que ainda tenho mais três ou quatro meses de tropa e por isso vou perder um lugar num jornal".

Dois dias depois sou chamado ao comandante de unidade, o coronel Abel Luís Lemos Caldas - até fiquei assustado a pensar no que teria feito de mal tão perto do fim da tropa. Entro no gabinete e diz o Lemos Caldas: "Então, ó Duarte, quer ir-se embora?" "Eu, meu comandante?! Vou quando for". "O Maia veio aqui dizer que você tinha de se ir embora, porque é jornalista e tem um emprego lá fora à espera. E eu ao Maia não digo que não, não quero chatices com o Maia, porque depois há para aqui uma guerra desgraçada, de maneira que vou libertá-lo, vou libertá-lo". Assim que saí do gabinete do comandante fui ter com o Salgueiro Maia. Ele vê-me ao longe e começa logo: "Eh pá, não quero conversas, não sei de nada..." Mas, quinze dias depois eu saía da tropa.

Era um homem sensível, mas que depois não queria favores, não queria pagas, não queria contrapartidas. Achou que era justo ajudar-me, mas não quis ter nada a ver com isso. Depois deste episódio, sempre que eu puxava o assunto ele mudava de conversa, nunca acabei esta conversa com ele.

"Independentemente da qualidade da biografia, tiveram uma base de trabalho que é um autêntico pré-guião". "Fiz a biografia numa ordem cronológica, mas ainda me lembro de na altura, há 27 anos, ter hesitado entre isso e começar do fim para o princípio. O próprio Sérgio Graciano especulou se deveria ou não começar na morte e ir andando para trás, mas acabou por entender que não. Essa cronologia ajudou muito a fazer o filme".

António de Sousa Duarte lembra-se de cor do dia em que conheceu Salgueiro Maia: "Conheci-o no dia 27 de agosto de 1988, estava há cinco dias em Santarém, na Escola Prática de Cavalaria. Era jornalista e tinha interrompido a minha carreira para fazer a tropa, já tinha 24 anos, tinha adiado por questões universitárias. Estava eu na parada, num exercício da recruta, e vejo o Salgueiro Maia. Ele tinha 44 anos e era conhecido, e eu já era jornalista há cinco ou seis anos. Mas nunca me tinha lembrado de que ali me poderia cruzar com ele", recorda.

Uns dias depois decide abordá-lo: "Eu sou jornalista...", começou por dizer. "E o que é que eu tenho a ver com isso?", responde Salgueiro Maia. "Queria imenso conhecê-lo...", "Já me está a conhecer. O que é que quer mais?", "Gostava de falar consigo..." "Está a falar", continua ele a gozar o prato. Era assim.

"Uma vez, na Escola Prática de Cavalaria, o então ministro da Defesa Nacional, Fernando Nogueira, levou o primeiro-ministro da altura, Cavaco Silva, a visitar o Museu de Cavalaria da Escola Prática. Ao apresentar Salgueiro Maia a Cavaco Silva disse: "Senhor primeiro-ministro, aqui está Salgueiro Maia, o homem que prendeu o chefe de governo no dia 25 de Abril". Salgueiro Maia vira-se para Cavaco e acrescenta: "E se for preciso um dia prendo outro". É claro que Cavaco ficou a odiar o Salgueiro Maia, embora ele não quisesse com aquilo dizer que, se necessário, prenderia Cavaco", ri o biógrafo. "Ele era assim, muito rigoroso, mas, de certa forma, impulsivo. Um homem metódico e ao mesmo tempo destravado".

António de Sousa Duarte acredita que Salgueiro Maia foi "injustiçado" e tem a convicção firme de que a doença de que veio a falecer, um cancro, "se alimentou muito da sua angústia, da sua frustração, da sua tristeza".

Por isso, faz questão de sublinhar que "o filme não é sobre o 25 de Abril e foi feito para, em primeiríssimo lugar, tentar mais uma vez fazer justiça sobre um homem que foi ostracizado à esquerda e à direita, do PCP ao CDS. Muita gente o perseguiu, e na hierarquia castrense aconteceu a mesmíssima coisa. É bom não esquecer que ele nunca foi o que mais gostaria de ter sido, comandante da Escola Prática de Cavalaria, nunca lhe deram essa honra e essa alegria. Em vez disso, foi comandar o presídio militar de Santarém, foi destacado para os Açores durante um ano e meio, trinta por uma linha".

créditos: Pedro Marques dos Santos | MadreMedia

António de Sousa Duarte acabou o Serviço Militar Obrigatória em 1990, Salgueiro Maia morreu dois anos depois, aos 47 anos, sem nunca saber que em 1995 a sua vida será publicada em livro. "Nunca lhe falei da biografia. No ano da morte escrevo para o "Expresso" uma reportagem de dez páginas com o título "O último combate de Salgueiro Maia". Era o seu perfil. Mais tarde vou à ASA falar com Manuel Alberto Valente, editor, e ele diz: "Ah, li essa reportagem. Foi você que fez? Se quiser fazemos já um livro". Fizemos. E vendeu até hoje 63 mil exemplares".

"Algumas vezes ouvi-o desabafar: "tratam-me como se eu fosse um traidor da pátria, então, que me julguem"

Fernando Salgueiro Maia viria a ser agraciado com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique a 25 de abril de 2016, a título póstumo, pelo presidente Marcelo Rebelo de Sousa, que numa intervenção de cinco minutos garantiu que "Portugal não é avaro em gratidão" e que a "reparação histórica" ficou feita. "Salgueiro Maia era um símbolo daquilo que é o português, cá dentro e lá fora, na sua humildade, na sua simplicidade, na sua abnegação, na sua dedicação à pátria", afirmou.

Na altura, a mulher, Natércia Salgueiro Maia (no filme representada por Filipa Areosa), considerou "muitíssimo justas" as palavras do presidente da República e lembrou os momentos de alguma "mágoa e tristeza" do marido: "Algumas vezes ouvi-o desabafar: "tratam-me como se eu fosse um traidor da pátria, então, que me julguem".

Salgueiro Maia foi filho único de Francisco da Luz Maia, ferroviário, e de Francisca Silvéria Salgueiro, que morreu aos 29 anos atropelada por um autocarro na Praça de Espanha, em Lisboa, tinha o filho apenas quatro anos de idade.

Quando se iniciam-se as reuniões clandestinas do Movimento das Forças Armadas, Salgueiro Maia, como Delegado de Cavalaria, integra a Comissão Coordenadora do Movimento, e no 25 de Abril de 1974 é quem comanda a coluna de blindados que, vinda de Santarém, faz cerco aos ministérios do Terreiro e Paço e força a rendição de Marcello Caetano, no Quartel do Carmo.

Salgueiro Maia será sempre um herói para António de Sousa Duarte. "Um herói eleito pelo povo, não um herói auto-designado. Então, esse povo que vá ao cinema ver o filme, porque essa seria a resposta coerente e lógica relativamente àquilo que acho que Salgueiro Maia é".

E enquanto espera pelos primeiros resultados de bilheteira não está parado. Também com a Sky Dreams produziu uma série para televisão, "PJ7", oito episódios sobre oito crimes mediáticos nas mãos da Polícia Judiciária, como "Rei Ghob", Francisco Leitão, "sucateiro, bruxo e assassino", o homem de 42 anos que vivia numa casa tornada castelo numa pequena aldeia da Lourinhã, conhecido por andar sempre rodeado por adolescentes e julgado por 550 violações.

Mas outros filmes virão na linha de "Snu" e de "Salgueiro Maia", e o próximo retrata uma personalidade política transversal a várias gerações, adorado por uns, detestado por outros.

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